LEFFEST 2014: Filmes em competição

LEFFEST 2014: Filmes em competição

Dos vários filmes da Selecção Oficial em Competição do LEFFEST 2014, aqui ficam algumas ideias sobre cinco dos treze avaliados pelo júri deste ano, constituído por Dimítris Dimitriádis, Dorota Masłowska, Francisco Tropa, Nan Goldin, Philippe Parreno. Começamos pelos dois principais premiados.

Amor Fou, de Jessica Hausner, Alemanha, Áustria e Luxemburgo, 2014

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Prússia, início de século XIX, quando o feudalismo se debate com as pulsões libertárias da Revolução Francesa. É neste período que estamos e poderíamos ter um filme que, de alguma forma, fosse um retrato vibrante deste confronto entre o antigo regime e os processos democráticos e republicanos. Só que esse aspecto fica-se por uma ou duas referências marginais.

A chave da narrativa, se é que ela realmente existe, foca-se em duas personagens. Ela é Henriette, uma mulher doce e frágil da alta sociedade, completamente focada na família. Ele é Heinrich, um poeta que pretende o amor eterno, projectado através da morte. Quando, a ela, lhe é diagnosticada uma aparente doença terminal, ele vê uma oportunidade de obter o que tanto deseja.

A história podia ser cativante e forte do ponto de vista emotivo, quer em termos sociais, quer de um certo lado poético do amor. Só que perde-se no arrastamento das cenas, numa narrativa que não evolui e nos repetitivos momentos musicais, que pouco ou nada acrescentam. Há um toque de humor em alguns comentários do poeta, mas pouco mais do que isso.

É o típico filme de época insuportável para quem não gosta de filmes de época. E, se o festival abriu com “Sono de Inverno”, fechou com outro autêntico… soporífero. JT

Phoenix, de Christian Petzold, 2014, Alemanha

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Nelly Lenz é uma sobrevivente de um campo de concentração. Inevitavelmente a história é desde logo, pelo tema, uma história dura de resiliência. Sobreviver aos campos de extermínio é praticamente impensável, mas Petzold foge da abordagem tradicional ao tema e foca-se apenas na história pós holocausto. Nelly é encontrada por Lene Winter, amiga que trabalha para a agência palestiniana para os judeus e administra os bens de Nelly após a morte de todos os seus familiares.

Após a «re-criação» facial, Nelly entra numa busca furiosa de si mesma, que passa pelo encontro com o marido Johnny e pela tentativa de perceber o que se passou na sua ausência. Ao encontrá-lo, este não a reconhece e Nelly torna-se a sua própria doppelgänger (ser que representa alguém idêntico) e Johnny ensina-a a ser Nelly.

Durante o percurso do auto e hetero-reconhecimento e «re-criação», palavra-chave do filme, é impossível não sentir a tensão de uma história que é conhecida do espectador. Acima de tudo, porque revelada nos vários pormenores a que a personagem não tem acesso, agravada pela expectativa de um qualquer desfecho – um qualquer – tal é o constrangimento provocado pelo silenciamento de Nelly e pelo desenrolar da história das personagens que a rodeiam.

É, claro, um filme intenso, que consegue fugir a todas as histórias já contadas sobre a besta nazi e, se chegar às salas, um filme a não perder. LG

Angels of Revolution de Aleksej Fedorchenko, 2014, Rússia

Angels of Revolution

Perante a resistência dos Xamãs de dois povos nativos da Sibéria, os Khanti e os Nenets da Floresta, à presença soviética nas suas paragens, o Partido Comunista da União Soviética envia um dos seus quadros mais destacados, “Polina, A Revolucionária”, para a educação das massas através da arte. Um compositor, um escultor, um encenador, um arquitecto construtivista e um realizador famoso, juntamente com Polina, rumam à Sibéria, onde já estava construído um hospital e uma escola que os indígenas se recusavam a usar por indicação divina.

A história, baseada em factos verídicos e amplamente estudados por Fedorchenko, conta-nos a viagem pela arte de cada um dos protagonistas, entre a organização comunista dos comissariados, revelando pormenores desconhecidos da história (foi na União Soviética que se criaram os crematórios para evitar os enterros, por questões de saúde pública e acessibilidade financeira), usando imagens de Eisenstein para ilustrar a actividade artística avant-garde soviética, em cenários todos eles construídos pelo próprio Fedorchenko (com representações, esculturas, instalações absolutamente incríveis e típicas da conhecida agit-prop que mudou o mundo).

A recriação fiel dos hábitos e cultura indígena e a sua mistura com o pensamento revolucionário soviético, a coexistência de duas culturas antagónicas e a sua relação é-nos contada com uma fotografia que merece todo o destaque, com a reprodução das criações musicais e plásticas (e cães com asas) e o desfecho previsto quando o materialismo dialéctico se confronta com a religiosidade.

Além da plasticidade imagética, a cor e a banda sonora que transpõem o filme para o universo do surrealismo, a sua história verídica é o fim do filme, com a canção entoada pela primeira criança indígena nascida numa aldeia siberiana religiosa pagã e soviética. LG

P´tit Quinquin de Bruno Dumont, 2014, França

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A adaptação da série de Bruno Dumont ao cinema resulta num filme de 200 minutos – três horas e meia – que resulta precisamente por ser não um conjunto de episódios mas uma narrativa que faz sentido, de acordo com o próprio realizador, de uma assentada. E não se nota que são três horas e meia, sobretudo porque se quer ver mais no final.

As praias da Normandia são o cenário, tão conhecido dos filmes de Bruno Dumont, local, aliás, de onde é oriundo, e facilmente reconhecível quer pelos bunkers e pela quantidade de balas e granadas encontradas por Quinquin, quer pelo sotaque inconfundível do norte de França.

Os actores não são actores, tornaram-se actores. A pequena aldeia transformou-se num cenário. E Bruno Dumont aparece num registo humorístico, absolutamente novo na sua filmografia.

A aldeia, onde os habitantes vivem essencialmente da criação de animais e da agricultura, torna-se local de crimes hediondos. Um a um, vão morrendo de formas macabras, ora desmembrados com o corpo encontrado dentro de vacas, ora expostos de forma a transmitir uma qualquer mensagem sobre a sua conduta íntima e pessoal.

Quinquin e os amigos vão assistindo às mortes, tentando descobrir a sua causa, enquanto se conta o dia-a-dia das suas vidas numa aldeia no meio do nada.

Uma vez mais, Dumond recorre a pessoas com deficiências mentais por entender – no dizer do próprio, presente na exibição do filme – que são as pessoas que mais nos revelam sobre a humanidade e as características de cada ser. A pureza e a genuinidade encontram-se nestas pessoas como em mais nenhuma outra e daí que seja o sítio a que volta sempre, a mente humana, no estado em que considera mais puro e ingénuo. E, apesar disso, em todo o filme se fala do mal que habita a aldeia, com a habitual presença forte da religiosidade e a visão crítica de Dumont das instituições religiosas.

Felizmente, o filme não ficará por aqui. Quinquin voltará à grande tela, esperemos que a Portugal também. LG

Dos Disparos de Martín Rejtman, Argentina, 2014

dos disparos

Dos Disparos é a primeira longa metragem do autor Martin Rejtman após uma ausência de 16 anos. Mariano, depois de encontrar uma arma na garagem de sua casa, dispara sobre si mesmo duas vezes. E sobrevive. Narra-se então a história da família de Mariano: Ezequiel (o seu irmão) e Susana (a mãe). Um conto disperso, com uma construção muito pouco densa de cada uma das personagens. Destas sabe-se muito pouco, apenas o que se passa no dia-a-dia. O filme é o que é: o narrar de um dia atrás do outro.

Um humor negro e quase absurdo sobre a vida depois dos disparos e como cada um lida (ou não) com a situação. Mariano e o seu quarteto de flautas de bisel, que passa a trio, volta a quarteto e acaba em dueto à conta da bala alojada que faz a flauta de Mariano soar em estéreo, com uma breve passagem pela vida de Lucía, flautista temporária encontrada na internet. Ezequiel e uma breve paixão pela empregada do local onde costuma comer fast food. Susana e as suas férias partilhadas com duas desconhecidas nas praias argentinas.

Pelo meio, o único elemento comum são os toques irritantes de telemóveis obsoletos dentro de gavetas, debaixo de almofadas, dentro de carteiras, telemóveis sem bateria e telefones sem fios trocados com telemóveis.

Uma história sem história, um filme sem «mensagem» ou intenções, o contar de episódios pelo contar de episódios.

O que fica deste filme? LG

Textos por João Torgal (JT) e Lúcia Gomes (LG)

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