Dead Combo no Coliseu dos Recreios (04/12/2014)

Dead Combo no Coliseu dos Recreios (04/12/2014)

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Texto por João Torgal / Fotos por Hugo Rodrigues

“Dezembro é mês de circo no coliseu, mas este ano não vai haver, dado que os palhaços estão todos de cana”. Palavras de David Almeida, o mediático anão que apresentou o espectáculo. Apesar da piada, vai haver circo e ele teve uma ante-estreia neste dia 4 de Dezembro. Foi o circo dos Dead Combo, aproveitando a arena central colocada na plateia. Público a 360º (sim, como os U2), focos a incidirem em toda a sala, muitas flores e muitos convidados. Um autêntico best-of do duo instrumental.

O concerto começou com o frequente e singelo dueto de guitarras. Primeiro com a melancolia de “Povo que Cais Descalço”. Depois com a visita ao farwest americano no velhinho “Mr. Eastwood”. Um contraste, uma viagem multinacional e sensorial que se prolongou pela noite. Fomos à América Latina, aos Estados Unidos fronteiriços ou aos confins da alma lusitana. Tó Trips sempre no seu transe característico, entre os devaneios de guitarra e uma espécie de ritmo de sapateado. Pedro Gonçalves sempre mais solene, alternando entre a guitarra, o contrabaixo, a melódica ou o piano. E andámos, com o som agregador dos Dead Combo, entre o fado, o blues, o rock, o jazz, o tango ou… o pós-rock. Já lá vamos.

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Já vimos concertos incríveis dos Dead Combo “a solo”. Momentos necessariamente mais crus, mais despidos, mas repletos de alma. Nesta celebração num Coliseu quase cheio, o que se passou foi diferente. O duo rodeou-se de vários amigos. O mais influente será o enorme baterista Alexandre Frazão, numa colaboração que já existe, pelo menos, desde o lançamento de Lisboa Mulata (2011). Não tendo percussão de raiz, há pequenos espaços vazios, ligeiros momentos (muito ligeiros) onde sentimos a falta de algo mais na música da banda portuguesa. Aí, Frazão encaixa que nem uma luva. E “Cacto” foi talvez o momento alto do concerto, numa impressionante odisseia pós-rock (nem mais) que provocou um aplauso de largos segundos. Há até o risco de Frazão ofuscar um pouco os Dead Combo. Mas eles são malta porreira e não se importam.

Num percurso pelos vários momentos da carreira dos Dead Combo, esteve também presente a Royal Orquestra das Caveiras. Voltámos aos tempos de Lusitânia Playboys, de 2008. Um teclado e vários sopros introduziram novas tonalidades sonoras. Foi o lado mais jazzístico do concerto, com uma progressão notável no tema título desse disco e uns toques latinos (menos que em estúdio) em “Cuba 1970”.

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Mas houve mais. Ana Quintans revisitou vocalmente “Like a Drug”, a adulterada cover do original dos Queens of the Stone Age. Uma bela versão, “meio cozinha de restaurante chinês” (seja lá o que isso for), como lhe chamou Tó Trips, nas suas sempre delirantes palavras para o público. E um trio de cordas tocou três ou quatro temas. Fechou com uma bela catarse em “Rumbero”, antes de nos arrepiarmos bastante com “Zoe Llorando” e a inesquecível “Esse Olhar Que Era Só Teu”, com dedicatória ao realizador Bruno Almeida. Se isto não é uma guitarra a cantar, vou ali e já venho. Se isto não é encantador, o que é que andamos aqui a fazer? Tinha entrado Camané para declamar “Eu Vi o Texto Muito ao Longe” e o arrebatamento tinha sido completo.

A parte principal do concerto fechou com os temas-título dos dois últimos discos. Primeiro com “A Bunch of Meninos”, com uma caos sonoro entre os problemas técnicos e a performance improvisada ou propositada (quem quiser, que decida). Abriu caminho para a loucura de “Lisboa Mulata”. Ambas com os sopros da orquestra e a bateria incendiária de Frazão. Teria sido o fecho perfeito, mas os Dead Combo voltaram para um encore mais solene. Foram  dois temas tocados no palco, com um fundo de luzes quase natalícias. Uma viagem entre o Hawai, Chelas e Africa (nos títulos),  entre um pouco de ruído rock e de saudade portuguesa. Voltámos ao início, fechámos o ciclo. Uma bela celebração, um momento muito especial.

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