Noiserv no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz (16/12/2014)

Foto retirada do Facebook de Noiserv

Foto retirada do Facebook de Noiserv

Texto por Andreia Vieira da Silva

No passado dia 16, deu-se início ao ciclo de concertos no Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, reservado ao nome de Noiserv. Um concerto à tarde, mas também de noite, como o próprio diz. O forte interesse da parte do público, levou a que todos os concertos previstos se encontrem esgotados, existindo a necessidade de serem lançadas duas datas extra: uma na sexta, pelas 23h, e outro no domingo, pelas 21h.

A plateia tem os lugares dispostos em U e comporta cerca de 60 pessoas. O mini-palco é composto por um sem número de instrumentos e outros objectos, como uma pistola de água verde e laranja ou uma máquina fotográfica. No chão, está um tapete belíssimo comprado “há uns dias, no olx”, que ajuda a enquadrar toda esta amálgama na nossa frente, preenchendo assim um quadrado feito de pessoas, bem no centro sala. No público, a um cantinho, está também a assistir a senhora do hip-hop nortenho, Capicua. No fundo da sala, e sob uma luz baixa, um enorme fresco oitocentista de Luigi Manini cobre a totalidade da parede e não há outra palavra que sirva para descrever melhor este cenário que não seja belo.

Sensivelmente 10 minutos após a hora marcada, David Santos aparece sorrateiramente e logo é recebido com palmas. Diz-se “assustado” por todo aquele ambiente. Estamos todos, realmente, muito próximos, e o facto de ser uma plateia com menos pessoas que o habitual, torna tudo ainda mais intimista.

“Mr. Carousel” é a primeira canção que se ouve ecoar por aquele espaço acima. A primeira faixa de A Day in the Day of the Days, de 2010, rompe por entre uma luz tímida, apelando aos olhares atentos de todos ao verdadeiro “one man show” que faz tudo sozinho, gravando trechos de som na sua loop-station.

De seguida, “This is Maybe the Place Where Trains Are Going To Sleep at Night”, a primeira do álbum do ano passado, Almost Visible Orchestra e “Bullets on Parade”, que recua ainda mais no tempo, indo parar a 2008, por altura de One Hundred Miles from Thoughtlessness. Nesta última o xilofone ingénuo é intercalado pelo puxar do rolo de uma máquina fotográfica analógica. Tudo serve para fazer música.

David Santos é um comunicador nato. Faz questão de nos explicar cada música e o que lhe vai na cabeça. “Sad Story of a Little Town” conta a jornada de um rei tão grande que para entrar na aldeia das pessoas que lhe obedeciam, e dizer-lhes “Olá pessoas do meu reino”, pisava-as e matava-as. Logo depois, “Today Is the Same as Yesterday, But Yesterday is Not Today” remete para a melancolia, mas num tom doce. Aqui faz-se uso da pistolinha da qual se grava o disparo na parte de “they will have shot my head”. Sublime a forma tão simples como se podem produzir harmonias tão bonitas.

Ouvimos “It’s Easy To Be a Marathoner Even if You Are a Carpenter” que nos diz que podemos ser tudo o que quisermos. Há ainda tempo para “I Was Trying to Sleep When Everyone Woke Up” e “Don’t Say Hi if You Don’t Have Time For a Nice Goodbye”, ambas do álbum mais recente. Esta última continua a ecoar na sala enquanto o músico sai de cena, trazendo de novo os aplausos. Poucos segundos depois volta e diz “Os concertos deviam acabar assim mais vezes, apesar de ser assustador”, o que gera gargalhadas. Agradece também o facto de termos comparecido porque achava que por ser naquele horário “não vinha ninguém”. “Toco mais uma então”, e desta feita trata-se de “Bontempi”.

Assim acaba um final de tarde, da maneira mais calma e contemplativa. Saímos de novo para a noite fria, mas de coração quente.

Arte-Factos

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