O desaparecimento de Eleanor Rigby

O desaparecimento de Eleanor Rigby

O Desaparecimento de Eleanor Rigby

There’re only two kinds of love stories. Boy loses girl and girl loses boy.
That’s all there is. Somebody always gets left behind.

Eleanor Rigby é uma das mais poéticas letras dos Beatles, ainda que pareça não ser imediato chegar às suas camadas mais profundas. Como se de um segredo se tratasse, abre-nos uma fresta para olhar de perto um ponto microscópico dos caminhos da solidão, questionando nas entrelinhas se a normalidade de uma rotina pode salvar alguém que, por algum motivo, sente não ter um lugar ao qual pertencer.

Eleanor (Jessica Chastain) e Conor (James McAvoy) são a imagem do casal moderno: culto, divertido e, imagine-se, bonito. A relação perfeita desmorona quando um acontecimento trágico ensombra a vida de ambos. Sabemos que algo aconteceu, mas não imediatamente o quê. Eleanor deambula pela cidade, sem rumo, enquanto Conor tenta retomar a rotina através da gestão do seu negócio de restauração à beira da falência. Começamos a assistir ao inevitável abismo do desencontro, no universo de uma dor que lhes é comum.

er1

O interesse do magnífico título reside no facto do desaparecimento não constituir somente (ou essencialmente) algo físico. Eleanor desaparece, de facto, fisicamente – ainda que nunca de forma a impossibilitar um encontro ou a desambientar-se do seu círculo de contactos. O acontecimento do desaparecimento situa-se ao nível da diluição da sua individualidade, da sua relação com o mundo e consigo mesma: aquilo que Eleanor foi até determinado momento desaparece para não mais regressar. O que observamos são deambulações de um corpo estranho, desconfortável, na procura de estratégias de edificação do sentido de si e da construção de uma nova vida, consciente da impossibilidade de regressar ao lugar onde algures existiu.

Como ponto menos positivo, é de assinalar a forma como todas as personagens que rodeiam Eleanor vão sendo apresentadas: Viola Davis, a professora de Teoria da Identidade, cuja amargura, indiferença e descrença relativamente a tudo e todos se reflecte em fragmentos de um discurso demasiado óbvio sobre a inevitabilidade de nos acharmos sempre sozinhos; William Hurt, um pai que guarda um segredo que deixa também perceber a sua fragilidade; Isabelle Huppert, uma mãe que se pavoneia entre cenas, sem acrescentar absolutamente nada à trama; o pai de Conor, cujas relações amorosas, todas elas frustradas, parecem entorpecer a sua ligação à vida. Um destaque igualmente negativo para a projecção de algumas ideias pré-concebidas relativamente às relações humanas: Hurt dá a entender à filha que o casamento funciona como uma espécie de lotaria em que, inevitavelmente, um dia tudo é posto em causa pelo clássico e se; as diversas insinuações sobre o modo radicalmente diferente como homens e mulheres gerem os sentimentos (a fêmea que resiste e o macho que cai sempre na armadilha do sexo fácil); a recorrente incidência, em algumas cenas, do poster dos filmes Masculin-Féminin de Godard e Un Homme Et Une Femme de Lelouch, sugerindo de forma exagerada o abismo que se convencionou distanciar os dois géneros no que à temática dos afectos diz respeito; uma exploração excessiva da ideia da culpa parental – todos parecem ter questionado a sua capacidade e/ou apetência para a função. Eleanor foi, pois, rodeada de personagens que vivem os seus próprios fantasmas e que lhe apresentam as suas farpas, parecendo talvez insinuar que, de alguma forma, todas as dores se tornam, no limite, a solução umas das outras.

er

Felizmente, Jessica Chastain absorve todas as personagens à sua volta – dispensáveis perante o brilho da sua fortíssima imagem, que por vezes lembra, principalmente na forma como se move em cada cena, passagens da personagem interpretada em The Tree Of Life. Destaque positivo para a integração, na banda sonora, da interessante No Fate Awaits Me, do projecto Son Lux, e para a escolha de uma das mais introspectivas composições do repertório de Cat Power, Wild Is The Wind.

Um filme que esteve a um passo de ser apenas mais uma história sobre o inimaginável impacto que um acontecimento desta natureza tem na estrutura afectiva de um casal, consegue situar-se a meio caminho de algo maior, fechando de forma perfeita com, arriscaria, uma das cenas finais mais inteligentes dos últimos anos. Não conseguindo superar a implacável abordagem ao mesmo tema de The Broken Circle Breakdown (2012), The Disappearance of Eleanor Rigby terá optado por uma forma mais fácil de introduzir densidade à trama – revelando o que assume querer simultaneamente esconder. Com a possibilidade de se transformar numa espécie de ‘Before Sunrise em modo-drama’, nenhuma das fraquezas identificadas tem força suficiente para anular a elegância do desempenho de Chastain (claramente, desde a primeira aparição, a próxima Julianne Moore), nem a originalidade na leitura sobre o tempo e espaço que devemos ao amor quando a vida parece estrangular todas as possibilidades de olharmos para ela.

e6

Texto por Ana Amaro

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube