Top 10 de 2014 por Sèrgio Neves

Top 10 de 2014 por Sèrgio Neves

Se o ano que passou fosse uma travessia aquática, começaria de forma abrupta num lance de rápidos rochosos, dentro de um barco a remos e sem colete de protecção, sob uma assombrosa tempestade, e passaria por tremendas cachoeiras, sereias encantadoras e tubarões com a boca cheia de dentes, com direito a pausas de tempos amenos, mergulhos ao sol e eventuais trocas de embarcação, imensa aventura que no fim parece ter passado demasiado depressa. Não comandando ainda um iate, mantemo-nos de leme firme olhando para a música que foi lançada enquanto e que nos foi companheira, reflectindo um ano intenso e felizmente prolífero.

#10 Marissa Nadler – July

#10 Marissa Nadler - July

Na primeira incursão ao Amplifest, vi subir ao palco uma pequena mulher com uma guitarra maior que ela, acompanhada de uma contrabaixista descalça. E assim, sem mais nem menos, aquela pequena dupla hipnotizou uma plateia e devorou-a, servindo-se de pouco mais que uma voz inócua, mas infinita, e de um transbordar de sentimentos que fez estremecer o coração do mais rijo dos presentes.

#9 Elysian Fields – For House Cats and Sea Lovers

#9 Elysian Fields - For House Cats and Sea Lovers

Quase vinte anos depois do primeiro, um lançamento da melhor banda do mundo constitui uma entrada directa em qualquer top, ainda que sem a delicadeza e provocação com que se demarcavam no passado. Alicerçado sobre a cogitação e até sobre o remorso, o contemplativo álbum para gatos e amantes do mar joga num campeonato próprio de ilusão sem desilusão.

#8 Silva – Vista Pro Mar

#8 Silva - Vista Pro Mar

Deliciosamente veraneante e surpreendentemente viciante, o toque brasileiro deste top recai sobre o enorme Vista Pro Mar, apenas suplantado em audições pelo eterno Cícero, que não entra nas contas deste ano. Electrónica suave e, porque não, fofinha, e a melhor das companhias nos passeios de bicicleta à beira mar.

#7 Cloud Nothings – Here and Nowhere Else

#7 Cloud Nothings - Here and Nowhere Else

Depois do agressivo Attack on Memory, de há dois anos atrás, a banda construída em torno do criativo Dylan Baldi surpreende ao demonstrar um espectro alargado de emoções, entregue do mesmo jeito lo-fi adolescente e impaciente, de acordes rasgados e instrumentais rápidos e belicosos, e ainda assim pontilhado de pormenores deliciosos.

#6 Thee Silver Mt. Zion – Fuck Off Get Free We Pour Light On Everything

#6 Thee Silver Mt. Zion - Fuck Off Get Free We Pour Light On Everything

Não se esqueçam afinal, e apesar de todos os leaks possíveis, que esta pequena pérola aterrou oficialmente no início deste ano, como um farol incandescente, servindo-se de riffs de guitarra e letras altamente moralistas enquanto focos de luz, e misturando entre si as mais diversas sensações e emoções, ignorando a dissonância em prol da devastação sonora.

#5 Sharon Van Etten – Are We There

#5 Sharon Van Etten - Are We There

Num ano de muitos e bons lançamentos do lado feminino e a solo do espectro musical, ficou à frente dos restantes a por si mesma travessia de Sharon Van Etten, deixando a pergunta no ar: já chegámos? Portento do dramatismo romântico, a voz desenvolve-se em constante crescente à frente das melodias edificadas pelo piano e pelas guitarras, encostadas ao épico da bateria como se de uma banda marchante se tratasse, dignas de uma qualquer parada, cantando a plenos pulmões sobre a volatilidade da relação humana e dos seus mais ínfimos pormenores.

#4 Sun Kil Moon – Benji

#4 Sun Kil Moon - Benji

Polémicas à parte, o Mark Kozelek é um compositor imenso e um belíssimo contador de estórias, e disso não há dúvidas. Ainda que possa ser, no conforto da sua vida privada, um bocado besta. Mas mão à palmatória, uma pessoa que transmite tamanho sentimento, tamanha dor e saudade, a um conjunto de acordes simples e a um tom monofónico, a ponto de fazer vibrar o hipotálamo e de nos encher os olhos, colando-nos a cada palavra, terá o seu direito a virar-se contra quem seja, e aos restantes, restará assistir com um saco de pipocas.

#3 Ricky Eat Acid – Three Love Songs

#3 Ricky Eat Acid - Three Love Songs

Em todos os sentidos a surpresa do ano, naquilo que me toca a mim julgar, e a autêntica musicalização da travessia que foi todo o ano. Quarenta e cinco minutos que se estendem e se sabem estender pelo infinito, compostos por marés graduais e remoinhos hipnóticos, e de momentos crescentes de ansiedade ou equilíbrios de descontracção. Dentro deste álbum estão três músicas de amor que nos compete encontrar, e o restante são exercícios de paciência entre períodos tempestuosos e soalheiros, que se conjugam num eco arrepiante.

#2 Woods – With Light and With Love

#2 Woods - With Light and With Love

O meu maior arrependimento durante este ano foi provavelmente ter perdido o concerto da banda no Ribatejo, e pelas piores razões possíveis. Ainda assim, a consistente banda de contornos quentes e delicodoces ascende a um confortável número dois, graças a um álbum sólido e mais limpo que nunca, que desliza entre melódicos viciantes através de um folk lo-fi e uma acidez que nos abraça, que nos embala, através das suas guitarras rústicas e vocais acinéticos.

#1 The War on Drugs – Lost in the Dream

#1 The War on Drugs - Lost in the Dream

Inegável lançamento do ano, o imenso Lost in the Dream há muito que soltou âncora e se instalou bem perto das docas a que chamamos coração. Delicada e minuciosamente esculpido pela trupe liderada por Adam Granduciel, o álbum do ano é muito mais do que a própria viagem – é tudo aquilo que podemos desejar quando a terminamos. É o final da travessia, através da imersão em si. É o cansaço feliz, as histórias, o companheirismo e a inimizade, o sucesso e ao mesmo tempo a desilusão, o balanço, debitados sem pudor ao orgulhoso leme de uma banda de corpo inteiro. Despido de expectativas e assumidamente frontal, o álbum é um marco de equilíbrio e sobriedade instrumental, seguro, tenso, mas confortável.

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