Top 10 de 2014 por Henrique Mota Lourenço

Top 10 de 2014 por Henrique Mota Lourenço

Em 2014 fez-se boa música, deram-se bons concertos e surgiram festivais de tudo e mais alguma coisa (desde a celebração calórica da francesinha até ao choro coletivo com eyeliner borrado no Entremuralhas, nada pareceu falhar). Aqui ficam os 10 eventos que considerei mais relevantes ao longo do ano. O critério por detrás da escolha foi, tal como em anos passados, o meu inquestionável bom gosto.

#10 Gone Girl

#10 Gone Girl

O Top deste ano começa com um filme, e um dos bons (para figurar aqui, não podia, aliás, ser um filme qualquer). Em Gone Girl, David Fincher volta a provar porque é considerado um dos melhores realizadores da atualidade (não só para a crítica, como também para este que vos escreve). A sublimidade no modo como interliga diálogos, locais e banda sonora não é propriamente uma descoberta recente, mas aqui parece reafirmar-se. É, em vários aspectos, o filme do ano. Esperemos que o casamento Reznor-Fincher-Ross não fique por aqui.

#9 Clã @ Tivoli

#9 Clã @ Tivoli

Portugal devia tratar melhor grupos como os Clã. Compreendo que a tendência deste ano seja a aposta em novas bandas (muitas delas com atuações fantásticas ao vivo, como é o caso dos D’alva ou Savanna), mas não haverá também espaço para as não-tão-velhas glórias? Não quero estar a remar contra a maré, mas juro-vos, de coração, que o melhor concerto português que vi em 2014 veio precisamente destes senhores; e quem lá esteve não me deixa mentir. A presença vocal da Manuela Azevedo continua arrebatadora e as invenções sonoras do Hélder Gonçalves ainda mais interessantes do que no início. Pena que o seu público seja maioritariamente grisalho. Os novos estão a perder, e muito.

#8 Future Islands e Glass Animals @ Jameson Urban Routes

#8 Future Islands e Glass Animals @ Jameson Urban Routes

Ano após ano, as Jameson Urban Routes continuam a trazer o que de melhor se faz cá dentro e lá fora. Nesta edição, a fasquia elevou-se, e bem. Primeiro com a banda de Sam Herring, esse monstro das atuações ao vivo, e depois com os novos príncipes do indie dance britânico (seguro será dizer que os Glass Animals partilham a coroa com os Jungle). “Gooey” e “Seasons” deram-nos alento e energia para o resto do ano. Dos murros no peito aos movimentos pélvicos, não faltou sensualidade e pop fervorosa em 2014.

#7 Wes Anderson @ Leffest

#7 Wes Anderson @ Leffest

Depois da retrospetiva, no Leffest de 2011, Wes Anderson veio finalmente a Portugal. Encheu o Monumental, falou que se fartou, e ainda tirou selfies (algumas delas comigo) no meio do caos. Podíamos pedir mais do homem por detrás de Grand Budapest Hotel e Moonrise Kingdom? Só se estivéssemos a ser pouco sensatos.

#6 Ty Segall @ NOS Primavera Sound e Lux

#6 Ty Segall @ NOS Primavera Sound e Lux

Já todos tínhamos ouvido falar nele, mas até o vermos à nossa frente, em Junho, não imaginávamos o quão demolidoras conseguiriam ser as suas canções ao vivo (excluo, claro, os sortudos que o foram ver ao Barreiro há uns bons anos atrás). Ty Segall assumiu-se, em poucos meses, como um dos novos patronos do garage rock, tal como DeMarco o fez com o psych/jangle pop- ainda que o último o tenha conseguido fazer mais proeminentemente. “Manipulator”, disco novo e aclamadíssimo pelos melómanos da tuga, só viria a ser servido mais tarde, numa sessão intensa de moche e crowdsurf que aqueceu o nosso outono gélido e chuvoso. Foi tão bom que doeu (no corpo todo).

#5 UIVO

#5 UIVO

Ser jornalista, radialista ou divulgador de música em Portugal tornou-se uma banalidade; passou a ser um hobby de adolescentes de Norte a Sul que querem ir a concertos sem gastar os trocos que têm no mealheiro e que pensam ser capazes de largar umas tiradas sobre qualquer banda, quando na realidade acabam todos por escrever o mesmo sobre os mesmos assuntos. Sou contra esse facilitismo, porque não foi assim que comecei, e acredito que o Sérgio, como era conhecido pelos amigos, também se revoltasse contra esta realidade dos dias de hoje. “UIVO” é uma homenagem merecida ao Mestre (com M grande) e uma lição de profissionalismo para todos os que acham que é fácil fazer disto vida. O melhor trabalho do realizador Edu Matracas até à data.

#4 St. Vincent @ NOS Primavera Sound e Vodafone Mexefest

St. Vincent

A Annie Clark é, inquestionavelmente, a artista mais competente que Portugal teve o privilégio de receber neste ano. Questiono-me até se ela poderá ser comparada aos comuns músicos mortais. (aquele sincronismo pleno entre cantorias, shreds de guitarra e passos de dança só pode ser sobre-humano). A miúda dá um baile à antiga à maior parte das novas estrelas pop que por cá andam (Chvrches, Sky Ferreira) e sem precisar de grandes artifícios- apenas um ou outro apontamento cénico são necessários para levar o espetáculo a outra dimensão, mas, mesmo sem eles, o concerto continuria soberbo e incomparável. Nota 10.

#3 Reverence Valada

#3 Reverence Valada

Aqui não há muito a dizer. Foi, sem dúvida, o ponto alto deste verão, a nível musical. Um festival que junta Black Angels, Wytches, Graveyard e A Place To Bury Strangers em dois dias de psicadelismo puro e duro merece um “Shut up and take my money” tão alto que chegue aos habitantes do Cartaxo. Obrigado Nick Allport pelas condições, gestão do line up e preços acessíveis (sei que não vai ler, mas fica o apreço por quem faz coisas boas com a melhor das intenções). Até para o ano, Valada.

#2 20.000 Days On Earth

#2 20.000 Days On Earth

Conto pelos dedos de uma só mão os filmes sobre música que me tenham marcado tanto quanto o “20.000 Days On Earth”. De cabeça, só me consigo lembrar de dois: o “Dig!”, que segue na primeira pessoa a rivalidade Dandy Warhols/Brian Jonestown Massacre, e o “Control”, que lembra a história do falecido Ian Curtis. O primeiro alimentou a minha vontade de fazer mais e melhor música, o segundo deixou-me completamente de rastos (um óptimo soco no estômago, diga-se de passagem).

Com os dedos da mão que me resta aproveito também para contar o número de músicos que atualmente chegam aos calcanhares do Nick Cave (Paul McCartney e David Bowie são dois deles). Não há muitos génios como qualquer um destes 3, e é por isso que este filme se torna especial. Se o propósito era ilustrar um dia na vida de Cave, deixando-nos com inveja da sua genialidade, então foi cumprido com distinção.

#1 Libertines @ NOS Alive

The Libertines

Lágrimas, suor e cerveja (muita cerveja). É assim que vou lembrar, para sempre, o concerto do ano. Ver o Pete e o Carl abraçados e a celebrar a amizade que deu origem a uma das melhores bandas dos anos 00 não tem preço, nem se consegue explicar o quanto aquela imagem nos marca em meia dúzia de palavras. Sempre fui um miúdo do Indie, mais britânico do que americano, pelo que imaginarão o impacto que uma “Don’t Look Back Into The Sun” ou uma “What Katie Did” terão tido para mim naquela noite de Julho. Lembro-me de sair de Algés com um sorriso de orelha a orelha, como quem acaba de receber uma prenda há muito aguardada. O tempo para os meus heróis tinha chegado, e não foi tarde demais.

Arte-Factos

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