Entrevista com 11Paranoias

Entrevista com 11Paranoias

11Paranoias

Aviso aos fãs de doom metal: os 11Paranoias vieram para ficar. Considerado por muitos como um dos melhores discos do género do ano transacto, Stealing Fire From Heaven tem tudo para conquistar os mais cépticos em relação ao novo projecto do ex-Ramesses Adam Richardson, de Mike Vest dos Bong e do ex-Capricorns Nathan Perrier. Falamos com o primeiro destes, o frontman, sobre as suas influências e métodos de trabalho pouco convencionais, acabando por embarcar numa aula de teorias surrealistas no mínimo curiosa.

De onde surgiu o nome 11Paranoias?
Antes de formarmos a banda andava a ler sobre física quântica e matemática e sobre algumas teorias que referiam a existência de onze dimensões. Achei fantástico que alguém conseguisse apontar um número tão exacto que não fossem as típicas quatro dimensões ou duas dimensões. Depois comecei a pensar como seria “ser algo” em todas as dimensões ao mesmo tempo, o que é obviamente impossível. Daí foi só mais um passo para começar a pensar como seria ser paranóico em todas as dimensões. Entretanto, os mesmos físicos acabaram por concordar que as dimensões são infinitas. Para além disso, formamos a banda a 11/11/11 o que acabou por cimentar ainda mais a ideia. Não nos chamamos 11Paranoias por causa da data de formação, foi apenas uma coincidência bizarra.

Consideras os 11Paranoias uma extensão do teu trabalho com Ramesses?
Nem por isso, é apenas o meu projecto seguinte. Não é suposto ser uma extensão de Ramesses ou Bong ou Capricorns. 11Paranoias é uma entidade própria. Como é óbvio existem algumas semelhanças, principalmente no material mais antigo, mas é algo natural, não estamos a tentar soar a nada em concreto. Aliás, tentamos fazer o exacto oposto: desligar todos os processos de pensamento criativo consciente. É um pouco como uma das músicas do disco, Surrealise, estamos a “surrealizar” a nossa própria existência.

Achas que os dois lançamentos anteriores (Superunnatural e Spectralbeastiaries) foram cruciais para o lançamento de Stealing Fire From Heaven?
Definitivamente. Estamos muito satisfeitos com o resultado final de Stealing Fire From Heaven e principalmente com a evolução relativamente aos dois trabalhos anteriores. Há muitas coisas que gosto neste disco, por exemplo o facto de ser mais etéreo, mantendo a brutalidade e selvajaria. Gosto das “slipping in slow motion time signatures“. A parte destruidora está lá quanto baste, até a mim me satisfaz, mas aquilo que acho mais interessante neste disco é a forma como criamos uma dinâmica que permitisse que essas partes fossem ainda mais perturbadoras aliadas às partes mais calmas e psicadélicas. Estamos felizes com esta evolução e imagino a banda a continuar nesse trajecto de desenvolvimento e experimentação.

Aquando da descrição do vosso processo de composição/gravação, falas de um “processo automático”. O que é e como o explicas?
A escrita e o desenho automáticos foram muito bem documentados por Austin Osman Spare, uma grande influência. O processo automático refere-se ao processo de desligar a consciência e canalizar o subconsciente através das mãos (ou o que quer que seja que estás a usar) para criar o meio/objecto em que estás a trabalhar. No meu caso são muitas vezes rabiscos que faço num bloco de notas. Normalmente não fazes ideia como se geram e o importante é não os questionar e deixar fluir. Desde que não nos desviemos desse processo, vamos acabar por perceber o que criamos, a certa altura. Às vezes há um significado escondido nessas notas. Individualmente, as linhas e ilustrações podem não fazer muito sentido mas quando juntas com a restante produção automática ganham vida.

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Podemos então dizer que não havia qualquer tipo de conceito prévio à composição do disco?
De maneira nenhuma. Para este disco tínhamos um riff quando entramos no estúdio, que acabou por ser a música Surrealise. Tinha a palavra surrealise e um riff quando tudo começou. [risos] Tudo o resto desenvolveu-se nos dois dias que estivemos no estúdio. Chegamos ao estúdio, pusemos o volume no máximo, clicámos em play e começámos a tocar. Normalmente sou eu que começo com um riff que me sai ali da cabeça e partimos daí. E é assim que todas as músicas de Stealing Fire From Heaven começam: o Mike (Vest, guitarrista) ou eu começamos e o resto começa a improvisar à volta disso. É só improvisar, obviamente, é bem diferente de sacar um bom riff para escrever uma música que depois vai ser orquestrada ou o que seja. Nós fazemos o oposto. Atiramo-nos logo de cabeça para a gravação sem perder tempo com tretas enfadonhas. Todo o entusiasmo que retiramos deste processo é como se tivéssemos encontrado uma nova forma de criar música ou até mesmo… quase uma nova forma de arte. Todo o processo “normal” de compor e ir para o estúdio acaba por sugar toda a essência daquilo que gostámos. Foi a gravação mais libertadora que tive em toda a minha vida, não houve praticamente nada que alguém não gostasse. Programámos o nosso novo baterista (Nathan Perrier) para trabalhar através deste processo e tivemos muita sorte que ele conseguisse comunicar nesta linguagem tão bem como nós.

Tendo em conta esse processo, como surgiu então o nome do álbum?
Stealing Fire From Heaven tem na realidade dois significados. O primeiro e mais óbvio refere-se à lenda de Prometeu em que ele viaja até ao céu, rouba a chama dos deuses de Zeus, trá-la para a Terra num ramo de funcho e oferece-a ao Homem. Como castigo acaba por ser acorrentado a uma pedra para toda a eternidade enquanto vê o seu fígado ser devorado diariamente por uma águia… voltando a crescer durante a noite. Por outro lado, o que a maioria das pessoas não deve saber, é que Stealing Fire From Heaven é o processo de escrita automática e uma das frases que o Austin Osman Spare usou na sua escola de magia, também chamada de chaos magic.

Se bem me lembro, já tinhas referido o ano passado qualquer coisa acerca dessa frase. Tinhas dito que o próprio Austin Osman Spare a tinha mencionado num sonho teu…
Sim, tive alguns encontros com ele no meu subconsciente e em alguns sonhos. Tenho uma grande afinidade com ele e ele influencia o meu trabalho de várias formas. Nunca tentei esconder isso e estou muito grato por o ter descoberto. E Stealing Fire From Heaven acaba por ser uma homenagem a ele e à influência que teve sobre mim.

Apesar de já nos teres explicado a raiz do processo automático e o quão vazio de consciência este o é, achas que consegues apontar algumas influências neste disco, para além das supra mencionadas?
Sim, claro. Já referi o Austin Osman Spare mas o álbum não é uma homenagem póstuma a ele. Isso foi apenas o suporte para a compreensão do processo usado para a produção deste disco. O resto não tem uma ligação directa a ele, cada música tem o seu próprio significado ou linguagem. Estas músicas não têm um significado lírico ou poético ou mágico. Gravo as vozes umas semanas depois dos instrumentos e durante esse período de espera ouço a música que gravamos até aí, reúno desenhos e escritos automáticos e a partir daí atribuo significados e sentimentos ao que tenho no papel e escrevo as letras. A música Surrealise, por exemplo, foi tal como disse a primeira e ninguém sabia o que sairia dali. Nessa música fomos em muito inspirados pelo artwork do disco, da autoria do Max Ernst, um pintor surrealista. Ele que é também uma grande influência para este disco porque estávamos de alguma forma a meditar sobre esta imagem quando o compusemos. A Lost To Smoke é quase como que uma sequela à música Reapers Ruin do EP Superunnatural e uma carta de amor à erva entre outras coisas, que quem ouvir entenderá certamente. A At The Cursus foi outro bom momento de escrita: estava a ouvir aquele riff, fechei os olhos e rapidamente me visualizei numa outra vida a caminhar no cursus de Stonehenge. Daí surgiu o título e todo o ambiente dessa faixa. Fez tudo tanto sentido que é como se essa música já existisse e eu me estivesse a apoderar dela, como se a estivesse a roubar do paraíso. Todas as músicas acabam por ter uma vida delas próprias.

Agora que se falou no Max Ernst, no vosso último lançamento, Spectralbeastiaries, foste tu que desenhaste a capa…
Sim, mas não apenas desenhada, também utilizei uma montagem de xilografias. Curiosamente, o Max Ernst era conhecido por usar muito essa técnica e isso acabou por me influenciar na altura. Pode-se dizer que 80% é uma montagem de xilografias e o resto foi redesenho. E tudo isto feito à mão, desde o trabalho em madeira até à digitalização. Depois disto tudo acho que não vou voltar a chatear o senhor Ernst por um bom bocado. [risos] Ele tem sido uma influência tão grande visualmente que acho que chegou a hora de uma transição para a banda, de uma evolução. Achei que seria bom agarrar-me a ele um pouco mais e culminar com este desenho fantástico para a capa de Stealing Fire From Heaven, o qual deu imenso trabalho conseguir uma permissão para o usar mas valeu a pena.

11Paranoias - Stealing Fire From Heaven

11Paranoias continua um projecto 100% DIY?
Sim, praticamente. Temos muita sorte de ter a Ritual Productions a trabalhar connosco, a forma como a editora opera encaixa na perfeição com o nosso método de trabalho. Até este disco gravávamos tudo sozinhos, muitas vezes em locais que não eram propriamente os mais aconselhados para o efeito, não eram estúdios mas sim espaços que transformávamos em estúdio. Para este disco arranjamos um estúdio a sério, o que é algo extraordinário para nós. Conseguimos um som incrível, quando chegamos não precisamos de mexer em nada. foi só tocar. Chamámos o nosso amigo Dan para ajudar na engenharia, misturas e gravação. É um luxo ter alguém a tratar disso, normalmente sou eu ou o Mike que andamos de um lado para o outro a tratar disso. Chegar ao estúdio e só ter de tocar é óptimo. Acho que vamos voltar a fazer isso no futuro. [risos] Acho que não haveria espaço para mais ninguém a partilhar o nosso método de trabalho. Quanto mais pessoas estiverem envolvidas mais impuro é o resultado.

Podemos ler no press release que, para além dos três membros fixos da banda, também tiveram a ajuda do Austin Milne no saxofone. Até que ponto foi fácil integrar um novo elemento no vosso núcleo e método de trabalho?
Por acaso até foi bastante fácil. O Austin é um gajo porreiro, ele tem tocado saxofone em tudo o que temos feito, há sempre um pouco de saxofone em cada disco. Quando não é saxofone é outra coisa qualquer, como os sintetizadores. Enquanto ensaiávamos a música Surrealise, bastou ouvir o riff para pegar no saxofone e começar improvisar a partir daí. E se retirares o saxofone de lá, tens uma música completamente diferente. O Austin também acabou por ser uma enorme ajuda no estúdio, durante todo o processo de gravação. Nos concertos que demos o ano passado no Roadburn e no Desertfest ele estava connosco a tocar saxofone e a passar os samples.

O que se pode esperar do futuro próximo dos 11Paranoias?
Vamos voltar à estrada agora no final de Janeiro e início de Fevereiro para mais umas datas pela Europa. No Solstício de Inverno voltamos ao estúdio para gravar o novo disco. Já andamos super entusiasmados, a preparar toda a logística. Este disco, Stealing Fire From Heaven, foi gravado no Solstício de Verão e fazia sentido para nós começar a trabalhar no sucessor já neste próximo Solstício. Com o nosso método de trabalho não precisamos de esperar um ano para lançar um novo disco: é só entrar em estúdio e gravar. Esperar seis meses para gravar até é uma façanha para nós. [risos]

Já tens alguma ideia para esse próximo disco?
Tenho… mas não posso dizer! [risos] Posso só dizer que não vai ter nada a ver com este último.

Entrevista por Estefânia Silva

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