Entrevista com Guano Padano

Entrevista com Guano Padano

Guano Padano

Para quem não conhece os italianos Guano Padano, nada como três cartas de recomendação: pertencem ao catálogo da Ipecac Recordings, são apadrinhados pelo Mike Patton e pelos Calexico e têm como ídolo Ennio Morricone. O último disco, Americana, é descrito como uma viagem através do deserto americano, com todos os humores que tal aventura implicaria, numa roupagem que vai do jazz mais experimental até ao country, ao folk latino e ao rock psicadélico. Descrições à parte, ninguém melhor do que o guitarrista Alessandro Stefana para falar sobre as origens da banda, as influências do presente e do passado e os spaghetti westerns, fornecendo-nos também os textos originais das três únicas faixas vocalizadas.

Para quem nunca teve a oportunidade de ouvir a música dos Guano Padano, como a descreverias?
Acho que a nossa música é uma mistura de vários géneros, somos influenciados por muita coisa como os spaghetti westerns italianos, música do deserto, free jazz experimental, música psicadélica dos anos 60 e até punk. Acabamos por misturar um pouco de tudo aquilo que gostamos.

E como se juntaram? De onde surgiu a ideia de formar uma banda?
Acho que começou tudo por volta de 2007, num encontro completamente casual. Eu e o baterista (Zeno De Rossi) já estávamos juntos numa banda com o singer-songwriter Vinicio Capossela e tivemos então a ideia de fazer uma outra banda, nós os dois. Encontrámo-nos com o baixista Danilo Gallo depois disso, numa daquelas situações mágicas em que sem qualquer conhecimento prévio, acabamos a compor e gravar nessa mesma tarde duas músicas do nosso primeiro álbum. E assim surgiu o nosso primeiro álbum, desse primeiro encontro quase mágico.

Podes então descrever um pouco o vosso processo de composição?
Ele desenvolve-se de maneiras diferentes para cada música. Às vezes acabamos por compor uma música juntos, outras vezes é um esforço mais individual, um de nós compõe separadamente e posteriormente fazemos os arranjos em conjunto no estúdio. O primeiro disco, por exemplo, foi escrito em conjunto porque foi todo de improvisação. Juntámo-nos, improvisámos e gravámos. Os discos seguintes já usaram um método diferente, mais individual, mas acabámos por fazer os arranjos juntos. Já nos conhecemos bem uns aos outros, já sabemos como cada um de nós toca, já temos mais liberdade para isso.

[youtube=http://youtu.be/vMXd3hekbYI]

Apesar de serem uma banda instrumental, algumas das vossas músicas têm vocalistas convidados. Como é que escolhem as músicas que serão vocalizadas?
Somos uma banda instrumental, sim, mas às vezes sentimos que uma ou outra música está demasiado “vazia”, que só os instrumentos não chegam. Em cada álbum nosso temos pelo menos uma música em que convidamos um cantor para a complementar. No primeiro álbum tivemos o Bobby Solo, um cantor italiano muito famoso nos anos 60, conhecido por ter participado no Festival da Eurovisão em 1965. No disco seguinte tivemos o Mike Patton e neste último a cantora italiana Francesca Amati (Comaneci).

«A stalk of the earth-sphere
Frail as starlight
Waiting to be drawn once again
Frail as starlight
Waiting to be drawn once again
You may know the seed and the soil
You may feel the cold rain fall
But only the earth-sphere, only heaven knows the secret of the seed
In the nuptial chamber under the soil
You may feel the cold rain fall
You may know the seed and the soil
You may feel the cold rain fall
You may feel the cold rain fall» – The Seed And The Soil

Focando então no último disco como é que aconteceu essa colaboração com a Francesca Amati? Como foi tomada a decisão de a escolher para interpretar The Seed And The Soil?
Não a conhecemos há muito tempo, mas decidimos que queríamos uma voz feminina para esta música e lembramo-nos dela. Eu andava a trabalhar com ela num outro projecto e gostámos todos tanto da voz dela que acabou por ser uma escolha óbvia.

«When the sun sets and the darkness falls, my town is gloomy as a bad dream or as a fatal as a blow to the head. My town is like a boy who hungers and stares from afar looking out at a great abyss of nothingness waiting for something to stir or make a sign. In the daylight my town is the son of the poet. He has shapeshifted into a pool of cool blue water in the desert. He is a companion to gangs, drug dealers, prostitutes and smugglers. He has cut off all ties to his family and now dwells with the underworld. My town is a withered soul who lives in a dome of bent branches made from mesquite and palo verde underneath an overpass to an empty highway. He calls his home first and last house. His teeth are like thorns from ocotillo cactus which make a scraping sound when he chews his food. He cannot find himself a partner so he talks to himself and motions to the ghost of a former friend. He finds still burning cigarette butts outside the oily and sticky streets to soothe the sadness and fill his time. My town lives in the cracks with bats that hang upside down from bridges and from the eaves of vacant and abandoned homes. A woman came to my town once and he barely looked at her, but managed to cast her from the shadows and onto the hot river rocks. Those who live in my town say she fell from venturing too far out on the edge. There is a furious man whose lady is unfaithful. He is my town. My town is tangled in his hair, on his breath, and in his eyes. When he coughs after a night of drinking his breath is the breath of my town. There are many towns connected and lined up row after row. There are towns that sleep, towns that are propped up on sticks in the muddy swamps. There is my town surrounded by darkness and silence. Flat and barren, miles of nothingness, a perfect place to dig a hole and bury something for no one to see. My town is a stranger. It is overtired and shaking like a leaf on a tree. My town has become a woman whose lover is terminally ill. She creeps down the hallways of a rail road house and listens with her ear leaning against the door of a locked room. I cannot decipher my town. My town is a shaman that has been blown in on a wind from South America and heard speaking in tongues at a bus stop. My town is a sweet kiss from the feverish lips of many tired and homeless people. My town is a murmur of voices coming out from a wash after all the summer monsoon rains have come and gone.» – My Town

Guano Padano - Americana

Nas músicas com spoken word, como a faixa My Town, quem é/são o(s) autor(es) dos textos?
Na música My Town quem diz e escreveu as palavras foi o vocalista dos Calexico, Joey Burns. Já o conhecemos há muito tempo, ele foi a primeira pessoa a acreditar no nosso potencial e a ajudar-nos. No Verão passado fizemos a primeira parte de um par de concertos deles em Itália, mais ou menos na mesma altura em que gravámos o disco, e acabamos por perguntar ao Joey se queria escrever a letra para uma das músicas. Na altura tínhamos outro texto, do escritor americano Sherwood Anderson, mas o Joey insistiu em escrever um novo texto inspirado em excertos do livro Dark Laughter do mesmo escritor. É um texto cem por cento original, escrito para aquela música. Na música Dago Red as palavras são do escritor Dan Fante, filho do também escritor John Fante, e é também um texto original dele.

«As a young man John Fante was a ball of fire aimed at the Sun. As a boy in his home town of Boulder Colorado he was called a “wop”, that means a person “without papers”. From the time he was a nineteen or twenty years old he began to write stories about Italian Americans. He also wrote long letters to the great American publisher H.L. Mencken who was the editor of «The American Mercury Magazine» about his Italian parents. These letters to Mencken were crazy. They were the thoughts of a young man who was possessed by the God of words. In these hand-written letters my father talked about his family and his Italian stonemason father who was a gambler and a dreamer from Abruzzo. He wrote about baseball and about his mother who was often thrown out of the local bakery and called “wop” because their family had no money for a loaf of bread. As a boy all John Fante had was his passion for writing and for his people and his need to swallow all of his life in one bite. Finally, the great publisher H.L. Mencken got sick of the long letters from this young crazy Italian-American writer. In a note back to my father he said, “Look Fante, if you will type out this letter I will publish it as a story and pay you one hundred dollars.” The problem was that John Fante did not know how to type and he was too poor to own his own typewriter. But he did have a friend who worked at a newspaper as a sports writer and one night when the staff was gone home my father walked into the newspaper office and asked his friend if he could use one of the typewriters that belonged to a reporter. The fellow looked at the crazy young kid with the black eyes and walked him to an empty desk and sat him down at one of their machines. “Okay paisano,” he said, “here’s the typewriter. Go ahead and write your story.” The next morning, after typing all night, that kid had the manuscript of his first published story.» – Dago Red

Quando se faz uma pequena pesquisa na internet sobre os Guano Padano é quase impossível não nos cruzarmos com uma referência ao Ennio Morricone. De que forma é que o consideram uma influência?
Acho que para qualquer pessoa que toque música instrumental, o maestro Morricone é um rei. É mesmo uma grande influência, está sempre presente. Cada composição é quase um labirinto, são composições perfeitas. Ele próprio já explorou imensos géneros, não só o spaghetti western mas também géneros como o jazz ou a música mais pop.

[youtube=http://youtu.be/2L1iyzpaNGM]

Que outras influências achas que se reflectem na vossa música?
Falando apenas de mim, adoro música “do antigamente” e músicos como Roscoe Holcomb e Charlie Parker. Os músicos dos anos 50 e 60 ligados ao country e ao jazz. É importante para mim ter esta referência no antigamente, toda a música actual é inspirada neles de alguma forma, é natural. Mas gostámos de outros artistas, mais “recentes”, como o Bill Frisell, o Marc Ribot ou o John Zorn. Acabamos por ter influências muito diferentes porque cada um de nós tem um passado musical diferente: o Zeno e o Danilo vêm do jazz, ao contrário de mim, e isso ajuda sempre a criar alguma diversidade criativa. Também sou fã de cinema principalmente dos tais spaghetti westerns. Se puder, vejo um todos os dias. [risos] Encontro muita inspiração nesses filmes como por exemplo no western do Carlo Lizzani, Requiescant (1967), no Day Of Anger (1967) ou no If You Live, Shoot! (1967) do Giulio Questi.

Pegando na influência cinematográfica, se vos pedissem para fazer a banda sonora de um filme, quem gostariam que fosse o realizador?
[risos] Pergunta difícil… Mas acho que o Quentin Tarantino seria a pessoa ideal para fazer uso da nossa música, não fosse ele próprio um grande fã de spaghetti westerns.

Numa visita rápida ao vosso site, percebemos que se contam pelos dedos as vezes que saíram de Itália para actuar. Existe algum plano de uma possível tour europeia ou apenas alguns concertos?
Não, não temos sequer nenhum concerto agendado para a Europa. Temos vários concertos marcados para Itália. Adoraríamos tocar na Europa mas por agora parece ser uma incógnita. Talvez Portugal, quem sabe. Gostámos muito de uma banda portuguesa, os Dead Combo, talvez um dia consigamos tocar com eles. [risos]

Para finalizar: O que reserva o futuro próximo dos Guano Padano?
Por agora queremos dar o máximo de concertos possível, tocar em Itália, na Europa e também nos Estados Unidos. A nossa editora, a Ipecac Recordings, é americana e seria giro conseguir apresentar o disco lá.

Entrevista por Estefânia Silva

Arte-Factos

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