Adeus à Linguagem (Adieu Au Langage)

Adeus à Linguagem (Adieu Au Langage)

Adeus à Linguagem

Desde que Godard abandonou um estilo de realização (como o dizer) mais tradicional na década de 80, o realizador francês, que já conta com 85 anos de vida e 60 anos de cinema na bagagem, tem vindo a desafiar barreiras linguísticas e imagéticas, desconstruindo o próprio conceito de cinema.

No entanto, não é preciso conhecer a obra de Godard para perceber que ao ver Adeus à Linguagem estamos a assistir a um exercício fílmico único. Adeus à Linguagem é uma peça incómoda mas desafiante para o espectador. O realizador usa o 3D de uma forma que nenhum cineasta havia utilizado antes: aquilo que vemos no grande écran é uma sucessão de segmentos, uns puramente imagéticos/fotográficos, outros vagamente narrativos, não necessariamente ligados. O que aqui importa não é o conteúdo, mas a forma (ainda que a forma seja, com efeito, o verdadeiro conteúdo do filme), e mais importante ainda, não é preciso ser um “entendido” ou pretenso especialista em cinema, muitas vezes mal apelidado como o tal cinema intelectual que parece fechar a porta do seu próprio visionamento ao público em geral (e muitas vezes ridiculamente orgulhando-se disso), para ver e sentir este Adeus à Linguagem.

Adieu au Language

Adieu au Language

É engraçado ver como um cineasta como Godard, de 86 anos, continua, após tudo o que já fez pelo cinema, a empurrar as barreiras daquilo que o entendemos ser. O 3D e o som obrigam o espectador a constante atenção e dedicação. Ambos vão e vêm e Godard não se inibe de “brincar” connosco, experimentando algumas ideias como usar o 3D para oferecer uma imagem a cada olho (será preciso fechar um dos olhos escolhendo que imagem queremos ver, ou não conseguiremos ver nada de todo) ou, mais uma vez aproveitando o 3D, colocar um cão a ocupar todo o écran, ali, nas nossas barbas. Estes são apenas alguns exemplos. Mais que a mensagem que o filme transmite, esse adeus a uma linguagem que Godard define ser vírus, Adeus à Linguagem é um filme sensacionista, armadilhado, indefinível, e assim, para quem o quiser, único.

7David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

Facebook