Entrevista com a Jigsaw

Entrevista com a Jigsaw

a Jigsaw

Foi na recta final de 2014 que nos encontrámos pela segunda vez com os a Jigsaw. Quase três anos volvidos, motivou esta conversa o mais recente acréscimo a uma discografia que lenta, mas seguramente, se vai tornando um rico acervo musical.

À hora marcada lá estávamos nós – e por “nós” entenda-se o tipo solitário com um gravador que escreve estas linhas. A Fnac do Chiado está no seu habitual corropio enquanto na zona de concertos se vai montando o palco onde a banda irá apresentar “No True Magic”. Os entrevistados estão a fazer o que os entrevistados fazem e enquanto acabam de falar com outra jornalista sentamo-nos à espera com o nosso caderninho a rever pontos chave do que queremos perguntar. Olhamos mais uma vez para o “Faixa a Faixa” que recebemos da banda e lemos na diagonal apontamentos que fizemos da nossa última conversa. Reparamos na ligeira agitação na mesa ao nosso lado de quem se prepara para se despedir. Suspeitamos que desta vez será uma entrevista mais curta a julgar pelo tempo que a nossa colega levou.

Não sabemos se é por virtude ou defeito do entrevistador, mas o que justifica a obscenidade temporal entre uma entrevista e a sua publicação são os largos minutos de conversa que há para transcrever. No caso dos a Jigsaw sentimos sempre que podemos continuar a falar ad eternum sem nunca esgotar assunto. A explicação é mais complexa do que a justificação de estarmos a falar com pessoas versadas, cultas e profundamente melómanas, é o nível de empenho e reflexão dedicado a produzir o objecto artístico que temos em mãos. Em “No True Magic” nada é feito ao acaso e ao mesmo tempo soa a algo feito sem esforço, como se num impulso.

Por sabermos que há mais por detrás deste álbum de título algo lúgubre, quisemos que esta entrevista fosse avançando por camadas até ao cerne do álbum. Ao dirigirmo-nos para a mesa onde nos esperam o João Rui e o Jorri, ainda julgando que esta seria uma entrevista curta, avançamos na nossa cabeça a primeira pergunta que indague sobre o que levou os a Jigsaw a fazer um álbum tão soturno, que lida com questões de mortalidade e que nos agradecimentos presentes no booklet contém a seguinte pérola “ Thank you […] to all we have lost and whom we will lose”. Ei-la:

Está tudo bem com vocês? Querem falar sobre alguma coisa?
(risos)

João Rui: Já é algo que fazemos desde o segundo álbum [agradecer dessa forma]. Isto porque temos um grande respeito pelas influências que temos, tanto directas como indirectas. Nunca se sabe o que influencia directa ou indirectamente e quem foi que nos transformou e o que deixaram connosco que formou a nossa identidade. Por isso agradecemos sempre a essas pessoas antes que seja tarde. Mas não é um processo de catarse. Não estamos a carpir ninguém.

Jorri: Não é nada autobiográfico. Claro que como o João diz, tudo o que nos rodeia nos pode influenciar, mas não é um álbum sobre a morte porque tivemos catástrofes na família.

O que é que acaba por ser tão fascinante na mortalidade? Aquilo que fica de nós, ou o que há para lá da mortalidade?
João Rui: A marca que nós deixamos é muito importante. Aquilo que nós fazemos e pelo qual somos responsáveis. No caso especifico da música, tentamos que haja razão por trás de tudo o que está no álbum. Daqui a vinte ou trinta anos vamos estar a julgar-nos a nós próprios e é bom que a convivência com o passado seja boa.

Em relação à questão da mortalidade há diversas perspectivas que as pessoas encontram para lidar com ela. O que nós fazemos em relação à nossa mortalidade, ou imortalidade, é irmo-nos iludindo. Esquecemo-nos que ela existe. Se estivéssemos a todo o momento conscientes do finito dos nosso dias ou estaríamos a fazer muito mais ou nem sequer teríamos coragem para nos levantarmos da cama. Então esquecemo-nos que é uma ilusão e acreditamos na magia da imortalidade. O “No True Magic” relembra por momentos que estamos a suspender o julgamento a esta narrativa.

a Jigsaw

Já muito avançados que vamos na era da reprodutibilidade técnica, não só a aura como o próprio objecto se começam a perder e vocês escolhem fazer uma edição de autor que resulta num objecto cuidado.
João Rui: Este álbum foi uma edição caríssima. O processo de fotografia que incluímos no álbum não é um processo normal. Não há ali processos digitais nem efeitos de photoshop. Foram fotos tiradas através de métodos alternativos, infra-vermelhos e impressões em madeira que depois foram fotografadas. São dispendiosos, mas lindíssimos e nós não nos privámos de poder fazer isso porque queríamos oferecer mais às pessoas. É um álbum que ficou ainda mais caro porque tem um booklet com as letras – primeira vez que o fizemos.

Para nós é muito importante poder oferecer algo mais naquele objecto; agora, a aura ter-se perdido… No caso dos álbuns é ali que eles existem, portanto não se perde. Para nós, é ali que faz sentido. A partir do momento que o copiares para o computador já não vais ter o objecto.

Jorri: Tem a ver com os rituais: o acto de tirar o CD da prateleira, de abrir a caixa e ficares com aquilo. Exactamente como um livro. Acabas sempre por ter ali algo que te ajuda a transportar-te.

João Rui: E ajuda a manter-te ali em vez de ires fazer outra coisa qualquer.

Acaba por ser através da venda de álbuns que vos chega a maior fonte de receita, mas na nossa última conversa dizias que o vosso sucesso se notava pela pirataria. Se calhar houve alguém a prestar atenção e pensou “vamos lá comprar os álbuns que eles merecem”.
João Rui: Sim, é verdade. É curioso, mas ainda não vi o link disponível para o download do álbum. O que me agrada.

Com o “Like The Wolf” esgotaram a primeira edição em três meses, com o “Drunken Sailors & Happy Pirates” em mês e meio. Que sucesso antecipam para “No True Magic” e quando é que acham que esgotam um álbum em pré-venda?
João Rui: No caso deste vai ser diferente. Fizemos uma primeira edição muito volumosa e vai demorar mais tempo a esgotar.

Jorri: E nós nunca pensamos nisso. Acabamos por ter a percepção disso porque ficamos sem cds. Chegamos ao sítio onde temos os cds, vemos que não temos e como vamos em tour temos que fazer mais. É esse confronto com a realidade que nos faz dar conta de que está a ter sucesso. Não vivemos obcecados com isso. Desta vez a única alteração que fizemos foi ter uma primeira edição de 3000 exemplares, já a contar com uma procura grande e não ter que mandar fazer mais numa altura que coincida com um momento em que estejamos na estrada. Foi mais para nos precavermos.

Há pouco diziam que daqui a vinte ou trinta anos íamos começar a julgar o que fizemos. O vosso EP, “From Underskin” saiu há dez anos, já o começaram a julgar?
João Rui: Esse EP começou a ser julgado a partir do momento em que o gravámos. Naquela altura era aquilo que queríamos fazer; não era o que eu faria agora. Talvez a partir do “Like The Wolf”, e de saber que daqui a uns anos ainda vou estar a tocar isto, tenhamos começado a sentir mais responsabilidade em relação ao que estamos a fazer no momento. Agora, antes de começar a gravar um álbum já o tocámos de todas as maneiras possíveis. Já nos afastámos do momento da criação, voltámos a ouvir e perguntamos se faz sentido. Claro que daqui a 20 anos vou ter outra perspectiva.

Jorri: Daqui a 20 anos podemos ser dois Djs de músicas transe e olhamos para trás e pensar “que desperdício de tempo”. É normal que cada passo que se vai dando vai ser mais seguro. Cada passo é mais seguro, mais calculado.

João Rui: E no “Like The Wolf” já sabíamos que tal canção, daqui a cinco álbuns, ainda teríamos que a tocar, porque foi um single desse álbum. Portanto, é bom que haja uma razão muito forte para as canções. Daqui a cinco anos como é que vou justificar tocá-las se pensar “olha que coisa fraca”. Seria uma convivência complicada.

Jorri: É normal que os artistas olhem para trás e pensem “eu hoje não faria aquilo”. Mas deve perceber-se que “naquela altura era aquilo que eu queria fazer”. Os Radiohead ainda tocam a Creep e não deve ser aquela que eles gostam mais.

a Jigsaw

Rejeitam a abordagem bob-dylanesca de não tocar os êxitos?
Jorri: Cada um lida com a sua obra como quiser. Nós sentimos a responsabilidade de, independentemente da nossa relação com a canção passado 20 anos, perceber se faz sentido, sabendo que há pessoas que nos conhecem graças a essa canção.

Sentem que há alguma vantagem em ser uma banda blues/folk, que por estar longe do “berço”, não tem sobre ela o peso do canone e da tradição?
João Rui: É algo de que nos tentamos afastar: da reprodução de algo que já foi feito. Às vezes experimento ideias relacionadas com o “blues” de raiz e apesar de por vezes utilizarmos alguma da mesma linguagem tentamos que não seja colada ao que era feito porque não seria genuíno. Na canção Them Fine Bullets coloquei a guitarra de Coimbra – e com os instrumentos que introduzimos tentamos tocá-los de uma forma diferente da técnica original, mas não a descurando – numa canção que não remete para o Fado.

Tendo lidado com questões de identidade ao incluírem instrumentos portugueses sentem que também podem estar a criar uma identidade portuguesa?
João Rui: São instrumentos com os quais crescemos e que fazem parte da nossa identidade quer o quiséssemos, quer não. Mas grande parte da minha influência literária foram os escritores russos, como Dostoievsky, mas o Pessoa e o Steinbeck também. É demasiado “território” para me restringir ao facto de ser português.

E é quando a suspensão da mortalidade cai por terra que descobrimos quem somos?
João Rui: Não necessariamente. A mortalidade talvez coloque a nu muitas coisas e nos faça estabelecer prioridades.

Poderíamos nós ser o que se reflecte de nós nos outros depois de partimos?
João Rui: “A memória partilhada da nossa ausência”- não sei. Será que enquanto nos lembramos dos outros eles mantêm-se cá? O sonho era não ver ninguém partir.

Como tencionam transpor para o palco canções como Tides of Winter e Hardly My Prayer?
João Rui: Quando estamos em estúdio não nos privamos de nada. Encaramos o estúdio e o palco como coisas completamente diferentes. Se a canção nos pede, nós tocamos. No caso da Tides of Winter pede-nos uma orquestra infernal. Muito dificilmente vamos tê-la em palco como está gravada. Mas também há outro desafio que é manter intacto o coração da canção.

Uma coisa que quisemos fazer com este álbum foi criar uma banda de suporte que nos vai acompanhar nos concertos. Numa sala que o permita, somos os “a Jigsaw & The Great Moonshiners Band”. Dela fazem parte o Victor Torpedo, Pedro Serra, Trancy Vandal, Paula Nozzari, Maria Corte e Guilherme Pimenta.

E gravar com a Carla Torgerson, dos The Walkabouts, foi tudo aquilo com que sonharam?
João Rui: Foi tudo aquilo que eu não podia imaginar. Ela surge neste álbum fruto de uma paixão que eu tive pela voz dela já há quase 20 anos quando ouvi uma canção dos Tindersticks, chamada “Travelling Light”. Vi o nome dela nos liner notes, mas como não havia as alegrias da internet ela para mim era só aquela voz. Anos mais tarde, um amigo nosso disse-nos que lhe fazíamos lembrar os Walkabouts. À segunda vez que eles nos disse isso, fui ouvir a banda e oiço “aquela voz”. Quando começámos a escrever este álbum decidi que ia escrever Black Jewelled Moon para a Carla Torgerson. E quando convidamos uma vocalista não é apenas pela alegria de um dueto, é para virem representar um papel feminino na nossa narrativa. Neste caso – único – foi especificamente para ela. Quando escrevi a canção tinha como referência a “Travelling Light” – a forma como ela a cantava. No final de tudo pensei “bem, agora só falta encontrar a Carla Torgerson”. Consegui entrar em contacto com o produtor dos Walkabouts e expliquei-lhe a história da canção e o que ela representava. Passado alguns dias vi no meu mural do Facebook: “Olá, João. Ouvi dizer que querias falar comigo. E isso agrada-me; já ouvi a música.” Ela gravou-a em Seattle e quando finalmente recebo a gravação para mim foi um momento mágico.

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Foi escolha óbvia para single?
João Rui: Mais ainda porque tínhamos a necessidade de ter a Susana Ribeiro a fazer o vídeo.

Quando compõem que compromissos fazem entre letra e melodia? A letra cede à melodia ou vice-versa?
João Rui: É raro a palavra ceder. Mas muitas vezes uma vai sendo construída em função da outra. Aquilo que lá ficar tem é que fazer sentido. Acontece em palco os vocalistas esquecerem-se das letras; a minha preocupação é que aquilo que inventar faça sentido.

Sentes que em português terias a mesma facilidade em escrever? E nessa nota, como foi a experiência com o “Pedro e os Lobos”?
João Rui: A primeira vez que o Pedro Galhoz me fala do convite eu aceitei o desafio mas não fazia ideia de quais seriam os meus standards escrevendo e cantando em português. Não saberia se ia ficar bom. Ele manda-me a música e foi tão natural que gravei no próprio dia.

As letras vêm ter contigo ou tens que ir atrás delas?
João Rui: Algumas, outras tens que pôr o teu chapéu de mineiro e ir lá bem fundo procurá-las. Durante estes três anos aconteceu surgirem ideias soltas que guardámos. Mais tarde logo se vê. Quando chega o momento de gravarmos revemos o que temos e se passou o teste do tempo. Há muitas canções que eu sei de onde vieram. A Black Jewelled Moon surgiu num soundcheck em Espanha. Estava a tocar uma coisa na guitarra e percebi que “era isto”. Gravei no telemóvel e gravei a introdução do que se tornou a música. Só a usei passados dois anos.

Sentem que há uma maior adesão à vossa música?
João Rui: O “Like The Wolf” transpôs um limiar que não imaginávamos. Com o “Drunken Sailors…” sentimos que as pessoas e os media estavam à espera do que íamos fazer. Quando ele sai tem logo muita visibilidade. Com este álbum, antes de ele sair, os media já estavam a falar dele. Sentimos que há um grande interesse em relação ao que vamos fazer e nós mantemos o nome do álbum oculto propositadamente.

Ainda é cedo e não dá para dizer qual a adesão ao “No True Magic”. Este é um álbum extremamente denso, as pessoas têm que estar disponíveis para o ouvir e abrir o coração da mesma forma que nós abrimos o nosso. É um álbum que precisa de mais tempo.

É o que justifica a inclusão das letras no booklet?
João Rui: Sim. É uma coisa que já queríamos ter feito e a única razão porque não o fizemos é porque sai muito, muito caro. Há sempre duas opções nas edições de um álbum: a jewel box, com booklet e letras, mas que para nós é feia, ou em digipack, que é o mais perto de um livro e para nós é como tem que ser. Ter a edição digipack com o booklet é o que fica tremendamente mais caro. Para este último, decidimos que tinha que ser como deve ser. Para mais, normalmente usamos ilustração, mas neste decidimos que tinha que ser fotografia. Tudo isso encareceu, mas não nos importamos porque para nós seria importante que assim fosse.

Produzir álbuns conceptuais serve como estratégia de longo prazo para não criar saturação?
João Rui: O facto de o fazermos não é a pensar nisso. Gostamos que os álbuns sejam diferentes porque é um processo muito longo e assim que terminamos um álbum queremos estar libertos dele. A partir do momento em que o “No True Magic” ficou gravado começámos logo a pensar em ideias para o próximo.

E já têm o conceito?
João Rui: Claro.

E queres dizer qual é?
João Rui: Obviamente que não.

E nesta nota, uma última pergunta: se “o céu não é uma palavra”, o que é?
João Rui: É curioso, porque este álbum poderia ser o nosso álbum mais religioso. Ou pagão. Mas se o céu não é uma palavra, o que é? É uma promessa quebrada.

Entrevista por Jorge Escórcio de Almeida

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