Blackhat: Ameaça na Rede

Blackhat: Ameaça na Rede

Blackhat

Após a sua incursão pelo mundo dos gangsters de Public Enemies, o realizador Michael Mann regressa ao estilo sóbrio, estilizado, tonalizado e minimalista que criou visualmente e ritmicamente para Miami Vice, que chegou a ser considerado por alguns como um dos melhores filmes do ano de 2006. Infelizmente, esse foi também um filme que não conseguiu conquistar a generalidade do público, da mesma forma que um prato de maior requinte e especificidade não consegue conquistar uma boca com gostos culinários mais  frugais. Blackhat segue essa fórmula, a fórmula de uma aparente incursão no género do thriller de acção, estilizada apenas o suficiente para mudar os seus pilares característicos e criar uma diferente, e quase única, experiência no género.

Blackhat é sobre a incorporação dos velhos símbolos dos thrillers de acção (Chris Hemsworth é, com efeito, um tipo musculado e atraente, tal como os critérios dos anos 80 e 90 definiram) num pano de fundo moderno (além de musculado e atraente é também um experiente hacker), um mundo de computadores e cibercrimes, entre outras recentes formas de perigo. Por outras palavras, são os elementos clássicos do género readaptados à realidade palpável e moderna que temos hoje, uma realidade que apesar de sabermos existir e até sentirmos na pele,  é apenas compreendida no seu âmago por alguns de nós. Afinal, quantos de nós sabem escrever uma linha de código de programação?

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Na verdade, apesar de Michael Mann não nos estar a tentar ensinar nada (felizmente, o realizador de 72 anos é humilde e inteligente o suficiente para não se deixar cair na armadilha do pretensiosismo cinematográfico bacoco de realizadores como Iñarritu ou Nicolas Winding Refn), este é efectivamente um dos filmes mais exactos e dedicados a explorar esta temática tão recorrente no cinema de hoje, não se limitando a rotular as suas personagens como hackers ou indivíduos inteligentes: em Blackhat podemos realmente ver linhas de código a ser escritas.

Blackhat é, no entanto, muito mais que isso. É um filme que respira movimento, que requer atenção e que, assim que a agarra, só a abandona quando estiver terminado, com uma segunda metade de grande intensidade. É um filme real e que vai directo ao assunto, ainda que contenha elementos como um interesse amoroso. Não se julgue todavia que Mann decora o filme com esses elementos. O seu propósito não é decorativo, mas antes o de respeitar um legado de um certo tipo de linguagem de cinema comercial que quase abandonada neste ano de 2015. Um “statement” cinematograficamente formal e quase pessoal daquilo que é (ou deveria ser) um thriller de acção. É esta a magia clássica que Michael Mann consegue de forma exímia recriar ao seu próprio estilo, na mais pura acepção do termo.

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A cinematografia é contemplativa e o movimento de câmara traduz-se num equilíbrio praticamente perfeito entre o “shaky cam” de filmes como os da série Bourne, e os planos mais tradicionais, muitas vezes com cunho de autor, sempre acelerando o ritmo numa corrida contra o tempo, ainda que o verdadeiro perigo esteja mais no mundo digital e menos no mundo real, um mundo dos tiroteios e combates físicos (que aqui também existem, e são de uma soberba categoria).

O estilo minimalista de Blackhat não deve ser confundido com vulgaridade ou apatia. Os seus elementos precisam de ser individualmente apreciados e só depois saboreados como um todo. Este é um dos melhores filmes do género nos últimos anos. Não é feito para ser apreciado por todos, nem o será com toda a certeza, mas para aqueles que gostaram do estilo de Miami Vice, Haywire (de Soderbergh) ou mesmo do mais recente John Wick (ainda que Blackhat não contenha de todo o sentido de humor negro deste último), este é um filme obrigatório. Nem que o seja apenas pelas cenas de acção física, Blackhat é obrigatório.

8

David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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