Selma

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Durante muitos anos, a luta anti-racismo e temáticas como a escravatura viveram afastadas dos grandes palcos de Hollywood, só recentemente tendo sido destapado o véu com filmes como 12 Years a Slave e Django Unchained. O trauma da nação Norte-Americana, a escravatura, foi sendo escondido e raramente abordado pela sua especial sensibilidade. A Guerra Civil Americana, também conhecida como Guerra da Secessão, que teve lugar entre 1861 e 1865, opôs os Estados do Norte (a União) aos Estados do Sul (a Confederação), tendo como motivo fracturante a escravatura praticada legalmente no Sul, tal como ditavam as leis desses Estados. Mais especificamente, a eleição do presidente Lincoln em 1860, cuja filosofia eleitoral era a abolição total da escravatura nos Estados Unidos. No cinema, muitas vezes se refere esta Guerra, mas raramente os ideais que estiveram por trás são explorados. Ora passados 100 anos sobre a abolição da escravatura nos Estados Unidos, a segregação racial (inexplicavelmente para os modelos actuais de sociedade) ainda existia. Os afro-americanos não conseguiam votar, não tinham acesso à educação, não viviam em igualdade, não viviam com verdadeira dignidade. E é precisamente passado 100 anos, em 1963, que Martin Luther King Jr. profere o seu famoso discurso I Have a Dream, em Washington, perante cerca de 250 mil pessoas, naquele que foi provavelmente o mais importante momento na luta pelos direitos civis na América.

Selma

É nesse momento que descola Selma, um dos mais importantes filmes que a indústria de cinema Americano já produziu acerca da temática racial e igualdade de direitos nos Estados Unidos. Selma aborda a luta liderada por Martin Luther King (imperialmente interpretado por David Oyelowo), após ter recebido o prémio Nobel da Paz em 1964, pelo direito ao voto dos cidadãos afro-americanos nos Estados do Sul, mais concretamente o episódio da marcha de protesto entre Selma e Montgomery, Alabama. Selma demonstra com hábil precisão o método de actuação de King pelos direitos civis. Os discursos, a conquista da população, os jogos políticos com o Presidente Lyndon Johnson… No entanto, esse é apenas o véu de algo mais profundo. Selma não é apenas sobre métodos e bastidores. É um estudo da comunidade afro-americana dos anos 60 em si, o que ela viveu e sentiu, a sua forma de actuar, a sua forma de cantar, a sua forma de erguer a cabeça, chorando, por um ideal que alguém, finalmente, passados 100 anos, conseguiu defender com eficácia.

O assunto que Selma trata é difícil de trabalhar em cinema. Existem muitas armadilhas no género, e uma tentação quase arrasadora de obter a lágrima fácil, o sentimento de pena, enfim, a romantização do anti-racismo para agradar ao vasto público. O outro lado também existe: por vezes a excessiva demonstração de violência e atitude racista acaba por provocar uma repulsa fácil perante o tema, ao invés de o explicar (o chamado shocker movie ou filme para chocar). Selma tem a destreza necessária utilizar com eficácia o melhor destas duas abordagens e a inteligência adequada para perceber que um filme social como este vive do despertar de emoções no público. Ava du Vernay, a realizadora (afro-americana), não se aproveita disso para fins comerciais (a prova disso é que ninguém sabia da existência do filme antes de ter ser nomeado para os Óscares), mas sabe como usar esse método para despertar atenção, atenção verdadeiramente informada, naqueles que vão ver o seu filme, e isso é a vitória mais importante de Selma. Saímos da sala e o filme vem connosco, transportando o sentimento de que se calhar ainda existe algo que tem que ser feito acerca da igualdade racial, após 50 anos sobre o discurso de King. Selma foi um esforço cinematográfico que valeu a pena como poucos. Se por um lado é verdade que a sua nomeação vem na linha dos filmes “alerta” que têm vindo a receber atenção da Academia, por outro lado é também verdade que o filme consegue suster com firmeza a qualidade necessária para ser objectivamente considerado um dos melhores do ano.

7David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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