Relatos Selvagens (Relatos Salvages )

Relatos Selvagens (Relatos Salvages )

Relatos Selvagens

Vamos imaginar que um dia teremos a feliz oportunidade de reunir aquelas pessoas, que num passado longínquo ou até recente, mereceram ficar na nossa lista negra, recônditos numa caixinha que de vez em quando se teima em abrir. O (a) ex-namorado (a) que acabou a relação quando mais precisávamos dele(a) e que ainda teve a insensatez de se envolver com o nosso melhor amigo(a), o professor que teve a coragem e arrogância de nos rotular com como um isentos de inteligência ou talento, e,por aí adiante, a lista pode ser extensa e intensa… Vamos também imaginar que por acaso essas pessoas (grupo) não consideraram o seu impacto na nossa pessoa e vamos também imaginar que poderemos estar um pouco desequilibrados a nível emocional ou sedentos de vingança. O que poderá acontecer?

relatos selvages 5

É  desta forma quase barroca e cáustica que Damían Szifron abre as hostilidades com o seu Relatos Salvages, uma desconcertante antologia de seis curtas-metragens como o mesmo denominador comum: a linha ténue que separa o  racional e o instinto, ou talvez mais especificamente, o paradigma homem vs. animal. Oficialmente inspirado na série produzida e realizada por Steven Spielberg, Amazing Histories, exibida nos já distantes anos oitenta, Relatos Salvages também relembra, pela sua comicidade ácida e histrionicamente violenta, Il Nuovi Mostri (1978) dirigido a três mãos por Mario Monicelli, Dino Risi e Ettore Scolla, uma obra com o mesmo conceito e com uma cena antológica (pelo menos para mim) – uma jovem Ornella Mutti no papel de uma hospedeira de bordo, prestes a embarcar depois de uma noite de amor com um forasteiro algo sisudo e de origem árabe, despede-se do seu amante e entra no avião; passado alguns segundos, a câmara foca o forasteiro a assistir atentamente uma notícia sobre um ataque bombista no mesmo avião que a sua amante seguira, esboçando um ar de missão cumprida…

relatos salvajes 3

Além do primeiro episódio (Pasternack) descrito anteriormente, mais cinco histórias acutilantes são contadas nesta produção argentina: Las Ratas, uma história de vingança de uma empregada de mesa frente ao homem que destruiu a sua família; El más Fuerte, um duelo automobilístico de contornos passionais; Bombita, que foca  a ira de um homem farto de ver o seu o carro rebocado e obrigado a pagar multas orbitantes; La Propuesta, a história de uma família burguesa que faz de tudo para proteger a sua jovem “cria”; e finalmente Hasta que la Muerte nos Separe”, uma festa de casamento que acaba num festival de atrocidades. Seis histórias que destilam impulsivamente doses de humor negro, crítica social e simultaneamente constatam que afinal o ser humano é, acima de tudo, um animal em todas as suas epistemologias.

relatos salvajes 7

Nomeado para a Palma de Ouro de Cannes do ano passado e nomeado para melhor filme estrangeiro deste ano, Relatos Salvages é um bom exemplo de cinema feito para render bons resultados de bilheteira e simultaneamente ser irrepreensível na sua qualidade técnica, artística e narrativa. Como é normal neste tipo de ficção, a qualidade das seis histórias independentes oscilam entre si, no entanto o resultado geral é muito bem conseguido e consistente. Talvez o seu único senão seja a vontade de ver alguns episódios um pouco melhor desenvolvidos. Em relação à nomeação da Academia de Hollywood, é interessante e até divertido constatar, ano após ano, que é na categoria de melhor filme estrangeiro o que a dita Academia tenta dar o seu ar de rebeldia, havendo até uma certa tentativa de erudição na nomeação de obras mais conceptuais e subversivas (ao contrário do que acontece nas nomeações para o galardão principal). Aliás, ao lado de Relatos Salvages encontrava-se entre os nomeados Leviatã, uma produção de origem russa prestes a estrear em Portugal que promete ser um “murro no estômago” à sociedade Russa.

relatos selvages 9

Relatos salvages é mais um excelente exemplo do cinema argentino que, lado a lado dos seus vizinhos Uruguai e Chile, esconde uma indústria cinematográfica invejável em todos os sentidos e que não fica a dever nada, muito pelo contrário, aos pesos pesados do cinema mundial. Infelizmente, só somos presenteados com a exibição de algumas surpresas fílmicas oriundas destes países da América do Sul, quando alguma obra é nomeada ou premiada em grandes festivais, como aconteceu com o visceral drama do argentino Juan José Campanella El Secreto de sus Ojos, vencedor do óscar melhor filme estrangeiro em 2009. É triste, mas é a realidade.

8

Paulo Lopes

Paulo Lopes

Mentor do projecto de escrita criativa para crianças e jovens “Escrevinhar”, autor do conto “Desdémona” e de alguns devaneios poéticos… e cinéfilo assumido.