6 Filmes no Feminino

6 Filmes no Feminino

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Assinala-se a 8 de Março o Dia Internacional da Mulher, um dia em honra de todas aquelas (e aqueles) que apoiam a igualdade de género, lutando por melhores condições de vida e trabalho para as mulheres. Numa data que celebra o espírito feminino, as colaboradoras do Arte-Factos produziram uma lista de filmes que homenageiam as grandes senhoras da nossa História e que nos inspiram diariamente.

La passion de Jeanne d’Arc (1928), a escolha de Cláudia Andrade

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Foram muitas as tentativas de limpar da face da terra qualquer tipo de prova de existência desta obra prima, censurada ainda antes de estrear, sendo apenas em 1984, encontrada uma cópia imaculada que permitiu à cinemateca francesa uma reedição da mesma, o mais perto possível do original. A história é-nos familiar: uma mulher que sozinha enfrentou a Inquisição, sem nunca vacilar, nem nunca deixar de mostrar e de acreditar que foi Deus que a enviou à Terra com uma missão – salvar a França. O trabalho de realização de Carl Theodor Dreyer é de uma sensibilidade extrema, contrastes acentuados e a aposta em enquadramentos fechados com ênfase na expressão facial de Maria Falconetti, cria momentos de profunda aflição, tristeza e tensão e faz da sua representação uma das mais bonitas alguma vez gravadas em película.

Sylvia (2003), a escolha de Edite Queiroz

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A propósito do Dia Internacional da Mulher, recorde-se este filme não tanto pela competência mas pelo tema – não deixa de ser espantoso que nenhum outro filme aborde a figura de Sylvia Plath, uma das personalidades femininas mais intrigantes do séc. XX e um dos vultos maiores da poesia americana.

Dying is an art, like everything else/ I do it exceptionally well/ I do it so it feels like hell/ I do it so it feels real/ I guess you could say I’ve a call. As duríssimas palavras de Plath que abrem o biopic da neozolandesa Christine Jeffs (retiradas de um dos seus mais famosos poemas, Lady Lazarus) não apenas circunscrevem o tom da narrativa a que vamos assistir, mas têm sido objecto de discussão por biógrafo e romancistas. Sylvia é respeitoso e fiel à sua biografia, mas revela-se incapaz de comunicar a complexidade da personagem retratada (protagonizada por Gwyneth Paltrow). Descreve a juventude de Plath em Cambridge e o seu encontro e casamento tumultuoso com o poeta britânico Ted Hughes (Daniel Craig), que cedo se converte num autor celebrado. Numa época de um state of affairs literário algo machista e em vésperas da explosão do movimento feminista, Sylvia viveu esmagada entre os papéis de mãe/esposa dedicada e de poetisa emancipada e bem-sucedida. O filme falha na observação das dificuldades do seu processo criativo, como falha também na composição da sua vida interior. O seu cerne dramático é o triângulo amoroso entre Plath, Hughes e Assia Wevill (Amira Casar), caso que levou à ruptura do casamento e contingentemente ao suicídio de Plath, em 1963, algumas semanas após a publicação do seu único romance – de carácter semiautobiográfico e escrito em 1961 sob o pseudónimo de Vitoria Lucas, The bell Jar (A campânula de vidro) conta a história de Esther, uma jovem muito promissora sem capacidade de vingar num contexto social castrador e claustrofóbico, que descreve sua depressão como a sensação de estar presa numa redoma de vidro que a mantém confinada à sua feminidade. A maior parte da obra de Plath foi postumamente publicada, apesar de Hughes ter feito desaparecer parte dos escritos e não ter nunca colaborado de bom grado na compilação do seu trabalho. Alguns biógrafos referem-se a Hughes como uma espécie de assassino, em termos literários e simbólicos. A morte de Plath assombrou-lhe a vida para sempre. Assia acabou por se suicidar (como num eco macabro, exactamente pelo mesmo método que Plath), e mais recentemente também o filho mais novo de Plath e Hughes se suicidou.

Sylvia era uma mulher genial mas de espírito atormentado (lutou toda a vida contra uma depressão espoletada pela morte do pai, quando ela tinha apenas oito anos), apaixonada e possessiva, inconformada com a sua condição e com a falta de reconhecimento da sua escrita, com inclinações sombrias. O poema Lady Lazarus dá conta dos encontros que marcou com a morte, um por cada década de vida. Se o terceiro não fosse o definitivo, não teria sido o último: And I a smiling woman/ I am only thirty/ And like the cat I have nine times to die. Mas apesar das suas circunstâncias (sociais, psicológicas, conjugais), Plath escreveu muito, o suficiente para que o seu legado hoje ultrapasse o deixado por Hughes. Este trabalho de Christine Jeffs (cujo ponto forte é a protagonista, Gwyneth Plathrow) serve aqui de pretexto para recordar a mulher do título, cuja vida e obra representam o espírito feminino de rebelião contra os padrões masculinos do mundo em que vivemos ainda, inspirador de todas as mulheres nas subsequentes lutas que até hoje travamos.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965), a escolha de Estefânia Silva

Faster

É impossível pensar em mulheres de garra sem pensar na actriz Tura Satana. O clássico da curta carreira desta actriz terá de ser este filme, realizado pelo rei do sexploitation, Russ Meyer. Para muitos, o rei da objectificação das mulheres mas que, mesmo sem querer, tornou a actriz num símbolo intemporal de força feminina. O filme conta a história de três jovens go-go dancers (vulgo, dançarinas exóticas) com uma queda para cometer os mais variados crimes que entram numa espiral de violência para conseguir roubar o dinheiro de um velho pai de família preso a uma cadeira de rodas. Até aqui, não parece um filme muito agradável e muito menos feminista, mas mais do que o guião, são as circunstâncias que fazem deste filme um marco. Estávamos em 1965, em plena segunda vaga do feminismo. Formava-se neste ano nos Estados Unidos da América a Equal Employment Opportunity Commission, a comissão para a defesa da igualdade no trabalho. No cinema, estávamos ainda na era do western e realizadores como Ingmar Bergman vão transformando pouco a pouco a imagem da mulher, mas nunca ao ponto deste clássico de Russ Meyer.

Varla é a mulher dos nossos piores pesadelos. Gosta de meter o pé no acelerador de um Porsche e é melhor do que os homens ao fazê-lo. Adora violência e bate melhor do que muitos homens, mata tão violentamente como um homem, e é bissexual (relembro que estávamos em 1965). Isto tudo sem nunca perder a sensualidade. É o Steve McQueen cruzado com a Catwoman/Selina Kyle do The Dark Knight Rises numa roupagem sádica. Violento e politicamente incorrecto, sim, este filme é acima de tudo revolucionário ao dar um papel tão másculo e independente a um personagem feminino. Mesmo que o final seja… “feliz”.

Não se pode terminar sem antes referir  a verdadeira razão do culto à volta deste filme: a protagonista principal. Tura Satana é um exemplo de sobrevivência, uma versão light da Madeleine do Thriller – A Cruel Picture. Japonesa a viver em Chicago pouco depois do término da Segunda Guerra Mundial, foi violada por um grupo de jovens quando tinha apenas nove anos. Segunda a própria, nenhum dos violadores foi condenado (o que não quer dizer que não tenham pago por isso). O pai decide então ensinar-lhe aikido e karaté, ao mesmo tempo que a obriga a casar com John Satana, quando esta tinha apenas 13 anos. O casamento não dura sequer um ano e, tal como a sua personagem, Tura torna-se go-go dancer. Veio depois a carreira de actriz que durou de 1963 a 1973, altura em que foi alvejada por um ex-namorado. Uma vida de tragédias, vinganças, drama, amores e desamores (esquecemo-nos de referir o conhecido romance com Elvis Presley) que dava ela mesma um filme e tanto. Tura chegou a dizer que a personagem Varla foi criada por ela, tendo alterado várias falas do guião, escolhido a maquilhagem e guarda-roupa da mesma e até mesmo sugerido a adição de algumas cenas. Varla foi catalisadora da raiva que Tura sentiu ao longo dos anos enquanto mulher dos anos 40 e 50, partilhada por muitas mulheres ainda hoje.

E se isto não servir para vos aguçar o apetite sobre este filme e esta mulher nada como uma carta de recomendação: para além de já ter admitido inspirar-se na Varla para muitos dos seus personagens femininos, Quentin Tarantino afirmou que daria anos da sua vida para ter trabalhado com a actriz nos anos 60. Melhor carta de recomendação é impossível.

Persepolis (2007), a escolha de Isabel Leirós

Persepolis

O dia que celebramos neste artigo, remete-nos de imediato para a luta, para as manifestações e para as vitórias do movimento organizado. Esquecemo-nos, porém, que esta é ainda uma realidade por existir  em determinadas geografias; que olhando o planeta que habitamos, há ainda demasiadas mulheres segregadas, sem voz e sem força contra o patriarcado que as domina. São mulheres que sentem a dor da opressão, quando nós sentimos a frustração de não encontrar aquele sapato no nosso número. Mulheres obrigadas a cobrir algo tão inofensivo como um rosto, acto tão tristemente desvalorizado no filme Sex And The City 2, em que um grupo de muçulmanas aparentemente contrasta com as protagonistas, mas por baixo do traje negro vestem as mais invejadas griffes.

O filme de animação Persepolis, baseia-se no romance autobiográfico e homónimo da iraniana Marjane Satrapi, que assina igualmente o argumento e a realização da adaptação ao cinema, um olhar que abrange a vida da autora desde a sua adolescência à idade adulta. Acompanhamos a mudança de um país a partir da Revolução Iraniana, o horror da guerra em terreno civil, o retrocesso da liberdade e do pensamento, a imposição das regras mais castradoras sob um véu de moralidade.

Marjane não é uma adolescente fácil, que se manifesta contra ao sistema e se expressa pela voz do heavy metal e do punk rock. Temendo pela sua segurança, os pais enviam a filha para um colégio austríaco em que o choque cultural e a nova privação da liberdade a colocam numa situação de vulnerabilidade e isolamento, tornando inevitável o regresso à terra natal. Porém, o regresso demonstra-se ainda mais intolerável pela desigualdade com que é tratada por ter nascido mulher. E após uma entrada turbulenta na vida adulta, em que o instinto de sobrevivência a leva a cometer erros indesculpáveis e em que lida com a dor de ver amigos dissidentes morrerem nas mãos da autoridade, Marji vê-se obrigada a partir de vez, desta vez para Estrasburgo, onde a autora iniciou um importante trabalho como verdadeira embaixadora da sua cultura. Apesar de ser um filme de animação, não é fácil lidar com o realismo nem tão pouco com o sentimento de culpa por continuamos a ignorar os problemas que não nos tocam directamente.

Iron Jawed Angels (2004), a escolha de Lúcia Gomes

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O telefilme norte-americano de Katja Von Garnier, lamentavelmente, não passou por Portugal. Poucos serão os filmes sobre o tema, ainda menos os que tão fielmente retratam a luta, mas também as contradições do movimento sufragista americano e a sua importância central e global na emancipação das mulheres.

Hilary Swank é Alice Paul, Margo Martindale é Harriot Blatch, Anjelica Huston é Carrie Chapman Catt, Frances O’Connor é Lucy Burns e Julia Ormond é Inez Millholland (a que mais admiro). Nenhuma das personagens é ficcional. Alice Paul, norte-americana, após o fim do curso superior vai para Inglaterra onde se familiariza com a corrente feminista sufragista britânica (onde conhece Emmeline and Christabel Pankhurst, as fundadoras da Women’s Social and Political Union), onde iniciou o seu trabalho militante na luta pela igualdade.

Iron Jawed Angels centra-se no seu trabalho nos Estados Unidos, particularmente na luta pela alteração constitucional para o direito ao voto das mulheres. Iniciado com Lucy Burns, cedo se juntaram mais mulheres, revelando as contradições de uma América que discriminava em função do sexo mas também da raça. De uma América que discriminava em função da classe social. E enquanto se exigia o direito ao voto das mulheres surgia a dúvida: que mulheres? As brancas? Todas? As educadas? As operárias?

O filme tem a vantagem de retratar fielmente os confrontos com as fragilidades das várias correntes feministas do início do século XX e da luta incrível destas mulheres. Desapossadas dos seus bens materiais, avançam na defesa dos seus direitos não só participando em manifestações como acorrentando-se à Casa Branca, acampando em locais onde se realizavam reuniões políticas da classe dominante, entrando em eventos oficiais clandestinamente para protestarem. Valeu-lhes várias cargas policiais, detenções e prisão. Alice Paul entrou em greve de fome e foi violentamente forçada a comer. Saiu da prisão em braços, não se aguentando fisicamente de pé.

A grande manifestação em 1913 pelo direito ao voto das mulheres tem um foco especial: o preconceito e violência a que foram sujeitas as mulheres pelos cidadãos que assistiam – homens e mulheres ridicularizaram a luta, insultaram, escarneceram e agrediram. Woodrow Wilson, o Presidente norte-americano à data, sempre recusou esta reivindicação. As «Sentinelas Silenciosas» mantiveram-se, em Junho de 1917, em piquete contínuo diante da Casa Branca. Após as muitas agressões e várias detenções, em Novembro do mesmo ano, muitas activistas são detidas e nas prisões sofrem ainda mais agressões policiais. Esta brutalidade, inicialmente silenciada, acabou por ser de tal forma evidente que levou a manifestações massivas pela libertação das activistas e a pressão de toda a luta resultou na aprovação da alteração da Constituição em 1920.

Numa interpretação incrível de Hillary Swank (algo que nunca pensei afirmar) e de Frances O’Connor, Iron Jawed Angels é um documento histórico demasiado importante para se ficar por um telefilme. Preciso e assertivo, quase documental, retrata fielmente um momento determinante na luta das mulheres. Uma palavra final para Inez Millholand, interpretada por Julia Ormond: socialista, feminista, advogada, morreu aos 30 anos, após sucumbir no meio de um comício. As suas últimas palavras em público: “Mr. President, how long must women wait for liberty?”. E, tantos anos depois, a igualdade está por cumprir.

The Color Purple (1985), a escolha de Rita Torres

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Numa pequena cidade da Geórgia em meados do Séc. XX, Celie (Whoopi Goldberg), uma jovem de 14 anos vítima dos abusos do pai, é mãe de duas crianças. Celie é posteriormente separada dos filhos e da irmã Nettie, a sua melhor amiga, para ser doada a Albert «Mister», de quem é simultaneamente escrava e companheira. «Mister» revela-se um amo déspota, que na verdade é apaixonado por Shug (Margaret Avery), uma sensual cantora de blues. Por forma a combater a tristeza e solidão, Celie refugia-se nas cartas que envia primeiramente a Deus e depois à sua irmã Nettie (Akosua Busia), que entretanto partiu como missionária para África. A vida de Celie começa a mudar quando conhece Shug, por quem virá a nutrir sentimentos de amor e carinho, sugerindo-se a existência de um amor entre ambas. E é aqui que Celie revela a sua beleza e um espírito que está disposto a arrebatar todas as possibilidades que o mundo lhe oferece. A não esquecer a corajosa Sofia (Oprah Winfrey), aliada de Shug. Ela simboliza todas as dificuldades que se enfrentam quando se é negra, mulher e pobre. No âmbito da tirania dos papéis de género, há que olhar o vilão Albert, que não age por maldade mas é apenas o reflexo da educação patriarcal, machista e opressora sob a qual foi criado. Também a ele não lhe é dada a oportunidade de se comportar de outro modo.

Esta é uma das obras magistrais de Steven Spielberg, baseado no romance do mesmo nome e famoso por ter ganho o prémio Pulitzer. The Color Purple foi nomeado para 11 Óscares, embora não tenha ganho nenhum. Ainda assim não deixa de ser um filme incontornável, daqueles que nos relembram que a História faz parte do nosso presente. De modo suave, o realizador compromete-se a contar em tom de denúncia o peso da discriminação racial, quando os negros eram equiparados a objetos. Este é um filme que nos fala de dominação, de preconceito, do aprisionamento a um corpo, mas é também uma história que comemora a libertação.

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