Entrevista com God Is An Astronaut

Entrevista com God Is An Astronaut

God Is An Astronaut

Os irlandeses God Is An Astronaut vão regressar a Portugal no próximo mês de Maio, para actuar no dia 3 no Hard Club, no Porto, e dia 4 no Armazém F, em Lisboa. Em jeito de antevisão desses concertos e das novidades que estão a preparar para este ano, o Arte-Factos esteve à conversa com o líder e principal compositor da banda, Torsten Kinsella.

Sabemos que o vosso nome foi retirado de um filme dos anos 90, “Nightbreed”. Porque acham que Deus é um astronauta?
Nos anos 90 estávamos desempregados e por isso víamos bastante filmes para passar o tempo. Apenas gostámos de como soava o nome, aquele monstro a dizer “God is an astronaut and Oz is over the rainbow”, a expressão apelou-me e quis usá-la como nome para a banda, mas era bastante longo, então acabou por ficar apenas “God Is An Astronaut”.

Hoje em dia há bastantes músicos a passar pela mesma situação, com muitos projectos mas sem conseguir viver disso…
É um grande debate, por um lado se tiveres um emprego é bom financeiramente porque consegues financiar a tua carreira, mas ficas com muito pouco tempo para compor e te focares nisso. Acho que o dinheiro é uma das coisas mais destrutivas na arte, em geral, porque precisas dele, mas retira-te sempre tempo ao teu trabalho.

Talvez as pessoas não percebam totalmente o trabalho que exige fazer uma música, julgando-a apenas pelo tempo de duração da mesma, sem se lembrarem que existe todo um processo até chegar ao produto final: ensaios, compor, gravar, produção, etc.
Infelizmente a música hoje em dia é um trabalho muito dispendioso, especialmente graças aos downloads ilegais as pessoas escolhem o que querem ouvir e é sempre frustrante para quem passa tanto tempo nos processos de composição, aprendendo como tocar, em gravações, misturas e masterização. Muita gente toma isso como garantido porque, como disseste, eles ouvem algo nos últimos cinco minutos e provavelmente eliminam do Ipod rapidamente.

Em geral, as pessoas têm tantas escolhas hoje em dia que é muito difícil apreciar. Nos tempos do meu pai, ou mesmo nos meus, comprávamos cd’s, tínhamos transmissões, etc., havia mais apreciação, acho que actualmente, com o mp3, as pessoas não conseguem realmente apreciar nada, está apenas lá para eles, acho que é um dos piores lados da indústria musical hoje em dia e a perda desses formatos aumentou o problema.

God Is An Astronaut

Disseste anteriormente que escolheram o nome nos anos 90. Sendo o primeiro álbum, “The End Of The Beginning”, de 2002, isso significa que já tinham começado a trabalhar com a banda há algum tempo.
Sim, tínhamos provavelmente as gravações prontas em 2001 e provavelmente em Janeiro de 2002 tínhamos a impressão pronta. Na altura estávamos com um orçamento bastante apertado, acho que se pudéssemos gastar 200€ entre todos era uma sorte, imprimimos primeiro cd’s single porque não conseguíamos pagar o pacote de álbum, as pessoas pensaram que era um single, mas na realidade era um álbum completo. Mas eram tempos interessantes na altura, a internet ainda não era tão usada, tivemos de ser nós a promover-nos a nós próprios, não haviam editoras, não haviam investidores e tínhamos basicamente uma única opção, que era a internet. Lembro-me que na nossa primeira tour andávamos todos numa pequena carrinha vermelha. Apenas a banda a andar de um lado para o outro com o nosso pai a conduzir-nos.

…Tiveram, portanto, algum tempo antes de lançarem algum material.
Nós começámos mais ou menos em 1996, com um outro projecto mais electrónico, mas como não funcionou muito bem decidimos juntar as nossas influências rock com a electrónica, acho que foi mais ou menos entre 1998 e 1999. Andávamos já a trabalhar em ideias sem ainda nos termos formado. Já tínhamos escrito coisas como “Route 666” ou “Lost Symphony”, provavelmente já estavam compostas mesmo antes de escolhermos o nome, foram como que um começo de todo o conceito.

Passaram dois anos desde que lançaram o vosso último trabalho, “Origins”. Nestes próximos concertos em Portugal vão tocar maioritariamente músicas desse álbum ou vai ser feita uma incursão por todos os trabalhos da banda?
Vamos tocar maioritariamente todos os álbuns. Estamos a preparar um novo álbum e provavelmente vamo-nos focar nele e não tanto no Origins e, obviamente, em todas as músicas que as pessoas querem ouvir.

Já podem adiantar o nome para esse álbum ou a data de lançamento?
Esperamos que saia no Verão, não queremos adiantar muito ainda porque o Niels tem todo um conceito de como o editar e como fazê-lo, então disse-me para não adiantar muito. Apenas posso dizer que vai ser muito diferente do Origins.

Vai ser um álbum “God Is An Astronaut”?
Sim, é diferente, mas vai ter mais em comum com o que as pessoas esperam de nós, mas é definitivamente “God Is An Astronaut”, vai ser muito mais negro e pesado.

Vão ter mais vozes ou continuar com o instrumental mais preponderante?
Não, vai ser definitivamente mais instrumental.

Estamos habituados em Portugal a que as bandas digam muito bem do nosso público. O que acham do público português?
Penso que o público português tem muito em comum com o irlandês. Os portugueses são pessoas bastante inteligentes e é sempre bom tocar em Portugal, as pessoas apreciam música real.

Conhecem Fado ou música típica portuguesa?
Não, não conhecemos a música cultural de Portugal, mas estamos familiarizados com alguns dos grupos e projectos que estão a começar com os quais costumamos tocar e são todos muito bons músicos.

God Is An Astronaut

Nos dois concertos em Portugal a abertura fica entregue a duas bandas nacionais, gostam que assim seja?
Sim, sempre que aí vamos, não importa quem é a banda que toca antes de nós, é sempre tão bom. Lembro-me que da primeira vez tocámos com os Linda Martini e eles são bastante bons, assim como todos esses projectos que estão a começar. É um país que parece ter bastante talento, é sempre um prazer tocar com bandas portuguesas.

Sendo o vosso estilo musical tipicamente conhecido por ser bastante introspetivo e estando o mundo a passar pelas várias crises (económicas, sociais, etc.), especialmente Portugal, de que forma acham que a vossa música ajuda a expressar e ultrapassar os sentimentos da sociedade em geral?
Não sei, a nossa música é obviamente bastante emocional e talvez as pessoas a oiçam de forma a pôr nela algumas ideias acerca de algo… eu não sei se conseguimos resolver alguns problemas mundiais, acho que não é isso que tentamos fazer. A música para nós é apenas uma forma de escapar, esquecer os dias… e colocar-te num espaço melhor se conseguires, mas podemos fazê-lo de outras formas na mesma, muita da música que foi composta foi porque eu estava num espaço negativo e queríamos colocar-nos num local diferente, é apenas uma espécie de escape para que possas sair definitivamente de um momento.

Acaba por ser sempre uma questão de “Porque fazemos música?”, para mim foi sempre uma espécie de terapia, ajuda-me… é bom, é pessoal para mim e, obviamente, acho que muita gente se consegue relacionar com isso. Acho que o grande apelo dos “God Is An Astronaut” é a melodia e isso é o mais importante.

São considerados por muitos uma das boas bandas de rock instrumental / post-rock do mundo, com que olhos vêem esses elogios?
É sempre bom quando as pessoas dizem coisas positivas, mas ao mesmo tempo não quero ouvi-las muitas vezes porque acho que a atenção pública, em geral, é destrutiva para a arte. Quando tens e queres comentários positivos então tens também de aceitar os comentários negativos e, sei que soa engraçado, mas quando começámos haviam menos distrações, o que me faz sentir que quanto maior a popularidade alcançada, mais a banda deixa de ser só tua e de repente tens o público a dizer que devíamos fazer isto ou aquilo de determinada maneira, depois tens algumas pessoas a dizer que és espectacular, outras que és terrível, e na realidade é tudo subjectivo. Pessoalmente não faço música por essas razões, na realidade têm um efeito muito pequeno em mim. Quando vejo uma crítica positiva tendo em nem sequer a ler, as negativas tendem em prender-me mais por uma estranha razão, mas nos últimos anos tenho tentado obrigar-me a nem mesmo para essas olhar. Acho que é melhor manter a cabeça limpa para apenas perguntar a mim próprio o que quero e tenho de fazer, em vez de procurar aprovação do público.

Para mim, no “Origins”, que foi um pouco mais popular, as pessoas diziam que estávamos a fazer o mesmo e que tínhamos de fazer algo diferente, por isso, falei com o Pat O’Donnel, que é produtor aqui na Irlanda, e começamos a trabalhar com ele. De certa forma arrependo-me, porque deveria ter prestado mais atenção ao que queríamos e é isso que estamos a fazer no novo álbum que estamos a preparar, apenas presto atenção ao que queremos fazer, não importa se já o fizemos antes ou não, nada disso importa, é apenas como nos sentimos. Por vezes entramos em jogos do género “vamos fazer isto porque nunca o fizemos antes” e apenas penso que é perder o sentido, penso que apenas tens de fazer o que queres fazer e esquecer o que se passou antes, não importa, apenas importa como te sentes naquele preciso momento. Quando tudo está pronto a questão mais importante que tens que te fazer é se é um disco que compravas, essa é a única questão que importa. Mas não vale a pena falar mais disso porque cada vez que lançamos um novo álbum as pessoas querem que o analise e não há nada para analisar, estou sentado agora no meu estúdio, com o meu equipamento e componho quando quero compor e é isso que sai, o mistério suponho que seja esse mesmo.

Sim, talvez dessa forma seja mais natural do que num espaço de tempo limitado ser obrigado a compor, gravar, e fazer uma certa quantidade de músicas, apesar de por vezes o público começar a perguntar porque é preciso tanto tempo para lançar algo novo e outras vezes tão pouco, talvez esse tempo seja mesmo necessário, talvez venha da falta de bom material / boas ideias, para mostrar.
Exacto, é uma boa perspectiva. Por vezes consegues compor muitas músicas muito rapidamente e outras vezes não consegues. Quando não se consegue talvez seja porque a pessoa não tenha nada para expressar. Eu tenho a sorte de ter muita coisa que gostaria de expressar, isso faz com que componha a toda a hora, mas a pior coisa de um grupo ficar conhecido, se o quisermos pôr dessa forma, é a ideia de que tens de prestar atenção ao género em que te situas, prestar atenção à base de fãs que tens, e antes que te apercebas podes facilmente ser levado a fazer algo e isso é o pior que pode acontecer quando estás sentado com uma folha de papel a tentar antever como o próximo álbum tem de soar. Descobri que isso é a morte da arte e acho que neste novo álbum são apenas os meus sentimentos e os sentimentos da banda em oito músicas.

©Derval Freeman

©Derval Freeman

Oito músicas, portanto um álbum não muito extenso…
Mesmo assim é extenso…

Com músicas longas, portanto…
Algumas são, sim… são quarenta e cinco minutos, é tão longo como os outros álbuns e estou bastante contente com ele. Com os vinis a tornarem-se mais populares, e como após cinquenta minutos um vinil soa horrível, vamos mantê-lo com o tamanho de um LP. Nestes tempos é o melhor.

São também conhecidos por nos vossos concertos terem também todo um espectáculo visual. O que o público português pode esperar nesse aspecto para os concertos que se avizinham?
Sim, os efeitos visuais foram uma grande parte dos God Is An Astronaut durante muitos anos, deixamos de fazê-lo provavelmente há uns quatro ou cinco anos. Apenas sentimos que quando vês o espectáculo uma vez e depois voltas a vê-lo e a montagem é semelhante isso faz com que o espectáculo deixe de ser único. A primeira vez é fantástico, a segunda vez é bom, à terceira começas a ficar um pouco farto. Honestamente comecei a sentir que os efeitos visuais não eram tão bons como a música, falei com o Niels e expliquei-lhe que era uma batalha perdida, que eventualmente íamos ficar sem material para os fazer e iriam ficar aborrecidos, acho que estamos com uma ideia melhor de performance ao vivo agora que temos o Jamie nos teclados. Desde que ele entrou que a banda ficou muito melhor, para mim o Jamie é o melhor instrumentista na banda, é um músico muito talentoso e tem sido muito importante na composição deste novo álbum. Com o Lloyd na bateria e o Jamie nos teclados e guitarras sentimos que somos verdadeiramente uma banda neste novo álbum e esperamos levar essa energia para os concertos como sempre fazemos, podemos mesmo prometer às pessoas um som muito bom, uma banda mais coesa e que vamos tocar todas as músicas que sabemos que as pessoas querem ouvir, assim como novas.

Consigo perceber que a relação entre membros da banda é muito boa…
Sim, o Jamie parece que está na banda desde o início, é estranho uma vez que ele só está connosco nos últimos três anos. Trouxe muita coisa para cima da mesa que nem se quer utilizamos no “Origins” (que já estava escrito com o Pat), este é o primeiro álbum feito apenas com os God Is An Astronaut como essência, apenas com a banda e sem fontes externas, provavelmente desde o álbum com o nome da banda, obviamente com a adição do Jamie. Acho que este novo álbum é um passo em frente fulcral para nós, sem passos atrás, apenas um passo completamente para a frente e eu acho que as pessoas vão ver uma boa química em palco entre os músicos, e tal como fizemos no passado, ter uma performance muito excitante.

És o maior responsável pela composição das músicas e depois os outros membros acrescentam as suas próprias contribuições?
Sim, escrevi com eles. Usualmente costumo escrever todas as partes de guitarras. No “Origins” fiz mesmo algumas partes de baixo, o Lloyd as baterias, mas eu também programei bastantes, e o Pat na guitarra. Neste álbum é muito diferente, porque o Niels tocou todas as partes de baixo, o Lloyd todas as baterias, o Jamie todas as suas partes de guitarra e todas as suas partes de teclados, foi tudo montado como uma banda, é realmente uma performance de banda, basicamente captura o nosso som ao vivo, coisa que nas gravações costumamos mudar para se tornar um pouco mais acessível, neste disco é completamente sem compromisso. Como a banda soa ao vivo é agora também como soa no álbum, estamos entusiasmados por poder finalmente mostrar o verdadeiro som dos God Is An Astronaut ao vivo mas num álbum.

Então o álbum também é muito virado para a performance ao vivo…
Penso que é metade, metade. Metade do álbum é definitivamente mais fácil de tocar ao vivo, vai definitivamente funcionar. A outra metade é mais ambiente, texturas em que também temos trabalhado. É uma espécie de ambos, tanto ambiente como agressividade. Obviamente que o material mais agressivo é o que vamos tocar ao vivo e o ambiente deixamos para uma experiencia de meditação.

Entrevista por João Neves

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube