Entrevista com ATILLLA

Atillla

ATILLLA, que vai estar presente no festival Um Ao Molhe, no próximo dia 1 de Abril, no Sabotage Club, editou recentemente o seu novo trabalho “V“, o motivo maior que nos levou a estarmos à conversa com Miguel Béco de Almeida, a mente criativa por trás deste projecto. Mas não se esgota aqui o assunto da entrevista, espreitem em baixo.

Como começou o teu percurso na música? E qual a importância que teve até chegares ao conceito explorado em Atillla?
O meu percurso na música começou de pequeno. Tive alguma formação musical em piano, nada de especial, e depois comecei a explorar um bocado de tudo, outros instrumentos, formas de conseguir outros sons e também muita coisa com guitarra, como é normal na adolescência. Atillla foi um bocado o resultado das primeiras experiências com coisas mais electrónicas e do que eu ouvia na altura, e também foi quando me senti confortável para mostrar alguma coisa cá para fora. Foi uma combinação de tudo o que eu absorvi até esse momento misturado com algum facilitismo em produzir este tipo de música, na altura.

Quais foram e quais são as influências que trazes para Atillla?
Eu ouvi muito black metal, doom e outras coisas mais negras quando era novo e acho que isso transparece sempre e há sempre de ter alguma presença. Entretanto fui descobrindo a música electrónica e com aquilo que fui descobrindo fui aplicando no que faço e acho que aquilo em que mais me foco é a atmosfera final e não tanto o método ou a semelhança a algum género. Tanto vejo ali techno, como drone, noise, metal, witch, house e muita coisa diferente.

Num curto espaço de tempo gravaste muita música e este é, como o próprio nome indica, o teu quinto registo de originais. É fácil para ti compor e gravar música?
Acho que sim, que é fácil. É pelo menos uma coisa muito intuitiva. Quando começo a fazer uma música não faço ideia se vou lançar, se se aplica a Atillla ou se simplesmente vai para o lixo, mas quase todos os dias em que tenho tempo pego e começo a fazer alguma coisa, ou trabalho nalguma coisa que tenha começado, acho que é a forma mais confortável que tenho de me expressar e de fazer alguma coisa de obra e quanto mais fazes mais facilidade e conforto acabas por ganhar neste método.

Há um conceito definido para o que queres atingir com Atillla ou a exploração é que vai ditar o futuro deste projecto?
Tem vindo a ser sempre mais uma forma de exploração do que propriamente algo com um objectivo final definido. A cada lançamento procuro explorar coisas novas que não tinha feito antes, não me interessa muito repetir-me e se calhar daqui a 2 anos vai ser uma coisa totalmente diferente, o que não me preocupa minimamente.

Este V tem edição em cassete pela Bisnaga Records. Como surgiu a associação entre a editora e Atillla?
Esta associação surgiu já num lançamento anterior, o IV, em que já algum tempo depois de ter lançado o disco online o João, da Bisnaga, veio falar comigo em como gostava de lançar a minha música. Depois disso o contacto já estava feito e este álbum já estava apalavrado para ser lançado.

Os teus discos são cronologicamente numerados. São capítulos que fazem parte de uma história maior?
Não os interpreto como capítulos de uma história maior mas sim uma indexação das explorações que vou fazendo. Há uma evolução inerente a cada um dos discos e eu gosto de manter as coisas organizadas desta forma. E gosto também de manter alguma abstração no que toca aos títulos. Cada um tem a sua micro-história que nem eu sei qual é mas gosto de ouvir as interpretações.

Atillla

Há um conceito inerente ao V?
Há um conceito vago de um ciclo de criação e destruição e isso reflete-se nos títulos das músicas. Há a formação da matéria das partículas até ao homem, há a sua propagação e depois morte e colapso da matéria de novo em partículas. Creio que o disco funciona de uma forma bastante sólida como um todo e que estas sensações estão lá, ainda que de forma muito abstracta.

Tocaste no mês de Fevereiro em Aveiro inserido no festival itinerante Um ao Molhe. Como é que correu?
Correu bastante bem, a casa não estava muito cheia, mas quem esteve gostou e ficou. Foi porreiro porque o pessoal até se levantou. Estou cada vez mais confortável com o set que ando a tocar e os concertos têm vindo sempre a ser melhores. Também foi bom poder tocar com outras coisas mais díspares do que faço e acho que é essa a graça deste festival, poder mostrar um bocadinho de tudo o que se faz com um homem só.

Um dos pontos altos de um concerto de Atillla são os efeitos visuais. Como surgiram?
A Guida Ribeiro, que faz os visuais, já é minha amiga há algum tempo e isto surgiu originalmente no contexto do projeto final do curso dela em Multimédia, em que quis fazer uns visuais para concerto ao vivo que fossem reativos ao som mas também com alguma parte de controlo da parte dela. Acho que o trabalho que ela faz é incrível e é fascinante que seja quase tudo código. Já é parte da “banda”.

Encontrei-te no Maus Hábitos num concerto de Kuduro. Qual é a relação que tens com a música que está no espectro oposto àquela que fazes em Atillla?
(risos) É sempre chato ter uma figura semi-pública, não posso ir ver Kuduro sem ser julgado. Ainda assim, o trabalho da malta na Príncipe Discos é muito bom e reconhecido e ultimamente ando mais aberto à música electrónica mais dedicada ao clubbing e à pista e sabe-me bem ir ouvindo e descobrindo coisas novas para desenjoar. Ainda assim não estabeleço muita relação com aquilo que faço, embora não meta as minhas mãos no fogo a dizer que Atillla nunca dará cadeirada.

Se pudesses escolher alguém que cria música nos antípodas da que tu fazes para colaborar contigo, quem seria?
Primeiro acho que tinha de perceber quais são os antípodas da música que faço, mas vou imaginar isso algures no universo da pop. Sempre tive alguma curiosidade em trabalhar mais com voz por isso talvez alguma diva como a Beyoncé ou a Lana del Rey para sair uma coisa totalmente descabida.

E para quando uma colaboração com o guru Attila Csihar?
Quando ele quiser eu estou disponível, mas acho que ele ainda não ouviu falar de mim nem tenho a certeza se ia gostar que lhe tenha apropriado o nome.

Quais são aqueles discos, livros, filmes, que te têm acompanhado ultimamente?
Confesso que não tenho lido muito ultimamente, mas costumo andar com uma coleção de contos e poemas do Edgar Allen Poe comigo. De filmes tenho andado mais a rever clássicos mas recomendo muito o “What we do in the Shadows” do ano passado que é um mockumentary sobre vampiros incrível. Quanto a discos recentes tenho andado a rodar o Punish Honey, de Vessel, o Scar Sighted de Leviathan, o Ark Work de Liturgy, o Faith in Strangers do Andy Stott e o Want dos Wreck and Reference. E o Deathconsciousness dos Have a Nice Life continua sem me largar, apesar de já ter uns anos.

Agora que o V está cá fora quais são os teus planos para o futuro no que concerne a Atillla?
Os planos são bastante simples e indefinidos, quero continuar a fazer e lançar música, explorar coisas novas, não ficar parado e continuar a dar concertos e mostrar-me. Acho que o objectivo é sempre crescer.

Entrevista por Carlos Vieira Pinto

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