Joan Baez no Coliseu dos Recreios (01/04/2015)

Joan Baez no Coliseu dos Recreios (01/04/2015)

Joan Baez

Texto por Andreia Vieira da Silva

Era o dia 1 de Abril, mas poder assistir ao elogio da paz e da liberdade pela voz da mítica Joan Baez, não foi mentira nenhuma. Pelas 20h30, hora em que as portas abriam, já se via duas filas enormes a sair pelo Coliseu fora. Um público maioritariamente maduro já marcava lugar para entrar o mais rapidamente possível.

Passavam poucos minutos das 21h30, quando pudemos vislumbrar Joan Baez, com o seu sorriso enorme e grata pelas nossas palmas. Começa com “Donna, Donna”, canção cujo público acompanha suavemente numa só voz e desde logo nos consegue chegar ao coração. Segue-se “God is God”, um tema mais recente, do álbum de 2008, Day After Tomorrow e “There But For Fortune”. Até aqui, Joan apenas se fazia valer da sua voz doce, com um travo rouco e da sua guitarra, fazendo-se depois acompanhar pela restante banda: Dirk Powell na guitarra, entre outros instrumentos que foi usando ocasionalmente, como o piano ou o violino e Gabriel Harris na percussão.

Sabendo-se que Joan se tinha dirigido ao público em português, aquando da sua presença no Brasil, era de esperar que assim o fizesse por terras lusas. “Eu sei que falar português é muito difícil, mas quero agradecer por estar aqui”, diz num português um pouco enrolado, mas bastante perceptível. Continua a interpelar-nos na nossa língua descrevendo a canção seguinte: “Esta canção é sobre dois homens, uma mulher. Eles lutam por ela. Eles morrem. Ela fica livre.”, O público aplaude com entusiasmo e comoção e segue-se “The Lily of the West”, uma das faixas mais antigas e acarinhadas, lançada em 1961.

Diz que vai cantar Bob Dylan, motivo de mais palmas por parte da audiência e traz “It’s All Over Now, Baby Blue” para o certame. “Cantei isto no Woodstock e também vou cantar aqui”, referindo-se a “Joe Hill”. É aquele momento em que nos beliscamos e pensamos  especialmente a geração que veio mais tarde – estarei mesmo a ver uma pessoa que esteve no Woodstock ’69?

“Jerusalem” é a canção seguinte, apenas com Dirk no piano e uma Joan sem guitarra. Esta dirige-se mais uma vez ao público, falando do seu percurso enquanto activista e apelando a um mundo sem violência, pois só assim se atingirá a “good fortune”. Lendo um papel, exclama “25 de Abril sempre!”, trazendo mais um momento de comoção generalizada. Inacreditavelmente, estamos a ouvir da voz de Baez “Grândola, Vila Morena” e rapidamente todos a acompanham e gera-se um momento para a eternidade. Um momento que celebra a liberdade e a paz e que a nós nos toca profundamente. Assim que a canção avançava as pessoas batiam com os pés no chão, recriando o som de marcha, algo que nos é tão particular que é impossível não deixar chegar a emoção.

Depois deste momento, especialmente forte, talvez o ponto mais alto de todo o serão por ser tão inesperado, voltamos às canções de Baez, desta vez com a ajuda da assistente Grace Stumberg. “Esta é a minha assistente. Ela dobra os meus pijamas, arruma as minhas malas, traz-me chá… e também canta.” As duas cantam “Diamonds and Rust”, outro hino da cantora folk, do álbum com o mesmo nome, de 1975. A candura inteligente das duas vozes em conjunto ecoa perante um Coliseu completamente rendido. “Swing Low, Sweet Chariot”, mais antiga ainda, é o tema seguinte.

Baez é uma cantora completa e conhece muito de várias culturas e depois de cantar uma música tradicional da Tunísia, uma pessoa da plateia diz que já a viu cantar em russo. Ela acede ao pedido e canta em russo. “Esta é uma típica canção folk. Alguém está miserável, a morrer, blá blá blá.” E mais uma vez explica o que vai cantar a seguir, contando-nos histórias. Trata-se de “Seven Curses”, que fala de um juiz corrupto. “Eu sabia que vocês iam perceber esta!”.

Ficamos também a saber que há canções folk que não revolvem em torno da tristeza, pois há algumas em que “toda a gente está feliz”. Ela dança com Dirk, temos um solo de percussão por parte de Gabriel, um “House of the Rising Sun” muito acarinhado e ainda a faixa “Suzanne” de 1971. A banda sai de palco mas regressa rapidamente. O primeiro encore engloba “Forever Young” pedido insistentemente por uma senhora da plateia e uma das maiores canções sobre a paz alguma vez escritas, “Imagine” de John Lennon. Mais uma vez, as vozes de centenas de pessoas unem-se. Depois de mais uma saída de palco, a banda regressa e tocam por último “Blowin’ in the Wind”, a canção de 1967 que a junta a Bob Dylan. O público aplaude de pé  já o tinha feito por duas vezes – e sente-se uma recepção mútua de carinho.

Não foi mentira, ninguém me contou, eu vi e ouvi Joan Baez, um ícone mundial, um exemplar vivo do que foi o Woodstock ’69, a cantar “Grândola, Vila Morena”.

Arte-Factos

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