Wado no Musicbox (01/04/2015)

Wado

Texto por Sèrgio Neves

Não há fotógrafos e contam-se pelos dedos as pessoas que às dez e meia da noite esperam o brasileiro Wado, que segundo conta Samuel Úria ainda à porta do Musicbox, e deitando por terra as nossas ilusões, se lê como um ‘vê’ e não como um “u” – e se há alguém que saberá é ele – naquele que é o primeiro concerto do Bloco, a série de quartas-feiras planeadas pelo espaço lisboeta com a produtora Arruada, e preenchida de música brasileira ascendente.

Já com uns bons e contados quinze anos de música debaixo da barba grisalha, estamos perante um artista que se serve da oportunidade e da penumbra do reconhecimento para se reinventar a cada lançamento. Esta noite, Wado viria espreitar o novo álbum, mas acima de tudo apresentar uma amostra do reportório que colecionou ao longo dos anos, e que extravasa a música popular em que sempre se apoiou. Neste que é o seu país irmão, e onde de resto já havia tocado com companheiros de estrada e de estúdio como Marcelo Camelo ou Cícero, viu a sala demorar-se mas compor-se, para o aplaudir, apoiar, cantar e dançar consigo.

De voz caracteristicamente quente, macia, convidativa, de sorriso largo e acompanhado de três músicos ao teclado, bateria e guitarra, Wado começa o set pelo que de mais recente criou e pelo que de maior êxito teve. “Rosa” é a primeira e o single maior do álbum de há dois anos atrás, “Vazio Tropical”, de cunho meloso, e porque não, fofinho, e que ecoou um pouco pelo mundo e fez com que o músico aparecesse finalmente no radar de mais e mais gente, também embalado pelo recente hype em torno da nova música brasileira, que afinal ajudou a criar e inspirar. Até porque a maior parte da discografia de Wado é partilhada com outros músicos, convidados a participar nos seus temas e a adicionar o seu próprio “gostinho” à mistela. É escolhê-los, dizer um nome ao acaso e ele provavelmente lá estará, adornando um dos temas, desde conterrâneos como os nossos bem conhecidos Mallu ou Momo, até à mexicana Graciela Maria ou ao lusitano O Martim.

E por nossos e por colaborações, e à falta das restantes, que a vontade só não reúne por culpa da geografia, a noite também se fez do já mencionado Úria, ele que é o único convidado desta noite e que reparte o palco com Wado para cantarolarem de forma alegre e descomprometida “Deita”, faixa em que colaboraram para o novíssimo álbum do brasileiro, que retira o nome ao ano do seu nascimento, “1977”, e que revela uma abordagem mais electrónica roqueira e desgarrada, um experimentalismo consciente e afoito que se inicia em pleno com “Lar”.

Estava ainda guardada na bagagem transatlântica uma viagem no tempo, já que festa é festa, e Wado leva-nos pelos álbuns mais antigos, aqueles que pouca gente conhece, para além do senhor, e senhor sim, que antes do concerto fez questão de dizer que acompanha e colecciona os álbuns do brasileiro desde o início dos anos 00. E fazendo a atenção, recuamos então para esses tempos longínquos, em que o samba e o funk se impregnam pelo populismo da sua música, e o abanão da cintura substitui largamente o acenar da cabeça e o bater do pé. Já a última malha é um afincado e afiado palavreado de Wado, reminiscente das influências do início do século a puxar o hip-hop. No fundo, todo um crescimento de um artista que faz da sua redoma um canto de exploração.

Todo o concerto se pode resumir a um canto quentinho, como se estivesse a ser dado num jantar de família, daqueles em que há queixas dos vizinhos quanto ao barulho, claro. Há sorrisos e cumplicidade entre público e músico, e quando este dá o último pé de dança, o último adeus, deixando a banda terminar a actuação com o instrumental, eis que a plateia volta a chamá-lo para junto de si. “Só mais uma, vá lá.” Para que a festa não termine já.

“Samuel, vamos mais uma vez então”.

E assim a noite termina com um encore da “Deita”, ambos cantando alternadamente, as longas pernas do Samuel Úria a bailar e o ainda maior sorriso na cara de Wado, deixando uma sensação de bem-estar em todos os pés dançarinos da sala. Do cacete.

Arte-Factos

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