Não se escreve, não se vê e não se faz cinema sem Manoel

Não se escreve, não se vê e não se faz cinema sem Manoel

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“O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura.”

Era o seu centésimo segundo aniversário.

A Biblioteca Municipal de Santa Maria da Feira vestiu-se de gala, com a única passadeira vermelha que por lá passou. As velas ladeavam o roteiro vermelho onde passaria o mestre do cinema.

O Cineclube estava em peso, cheio de orgulho, com a presença de Manoel de Oliveira no Festival de Cinema Luso-Brasileiro. E lá apareceu a sua silhueta inconfundível. Entrou no auditório onde ia ser exibida a sua curta-metragem A Caça, depois de uma entrevista que lhe havia sido feita por ocasião dos seus 90 anos.

Director Manoel de Oliveira stands on stage during an homage to his career at Cannes

Lembro-me de ficar absolutamente siderada com a argúcia e sagacidade mental, a ironia e o sarcasmo latentes, a memória que ia buscar os clássicos tão rapidamente como citava o presidente brasileiro Lula da Silva. A lucidez que transparecia na sua visão do mundo era avassaladora.

Como avassaladora foi a sua obra. Com rasgos de genialidade absoluta (A Caça, a Divina Comédia, O Gebo e a Sombra, Singularidades de uma Rapariga Loira, Aniki Bóbó, O Estranho Caso de Angélica), misturados com falhanços épicos (a escolha de Ricardo Trêpa como protagonista, Os Painéis de São Vicente de Fora), Manoel de Oliveira é, possivelmente, o nome maior do cinema em Portugal.

Pelo número de filmes que fez, pelos filmes que fez, pela duração dos filmes que fez.

É verdade que, para a maioria dos portugueses acha que os seus filmes são ou uma grande estopada ou absolutamente incompreensíveis. E não fogem muito da verdade em relação a alguns deles. Não é menos verdade que sempre foi um visionário e muitas vezes, como todos os que vêem além de si mesmos, incompreendido.

Manoel de Oliveira passou por todo o cinema e todo o cinema passou na sua vida. Sobre O Velho do Restelo, de 2014, disse:

«Fazer este filme é como ganhar uma batalha: É difícil. A conjuntura económica trava e fragiliza a montagem financeira do filme». Na entrevista, feita pelo investigador António Preto e publicada na edição de Novembro da revista Cahiers du Cinéma, Manoel de Oliveira afirmou: «Eu penso que no país há uma grande indiferença pelo que já realizei. Tanto faz que o meu cinema exista ou não exista».

Director De Oliveira holds a news conference for the film "O estranho caso de Angelica" at the 63rd Cannes Film Festival

Mas, claro, em Portugal decretam-se três dias de luto na sua morte, mas pouco ou nada terá sido feito em vida pela exibição e fruição do seu cinema, do ponto de vista da política cultural. Um lamento que deixa não só envergonhado (ou devia deixar) todo um país e uma grande interrogação sobre os caminhos do cinema.

Nascido no Porto, freguesia da Cedofeita, oriundo da burguesia nortenha, adorador de Chaplin, viciado em carros e velocidade, campeão nacional de salto à vara, preso no Aljube, único realizador vivo que fez a transição do cinema mudo para o sonoro até dia 2 de Abril de 2015.

Mantinha como seus actores de eleição Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Rogério Samora, Miguel Guilherme, Isabel Ruth e, lamentavelmente, o seu neto, Ricardo Trêpa.

Podemos elencar os filmes todos e tornar este artigo chato, mas para juntar ao que muitos achavam do seu cinema, talvez na chatice de lerem tantos títulos, encontrem, precisamente, a raíz desse tal preconceito. Ora cá vai:

terral o gebo e a sombra manoel_de_oliveira

As longas:
1942- Aniki-Bobó, 1963 – Acto da Primavera, 1971 – O Passado e o Presente, 1974 – Benilde ou a Virgem Mãe, 1979 – Amor de Perdição, 1981 – Francisca, 1985 – Le Soulier de Satin, 1986 – O Meu Caso, 1988 – Os Canibais, 1990 – Non, ou a Vã Glória de Mandar, 1991 – A Divina Comédia, 1992 – O Dia do Desespero, 1993 – Vale Abraão, 1994 – A Caixa, 1995 – O Convento, 1996 – Party, 1997 – Viagem ao Princípio do Mundo, 1998 – Inquietude, 1999 – A Carta, 2000 – Palavra e Utopia, 2001 – Porto da Minha Infância, 2001 – Vou para Casa, 2002 – O Princípio da Incerteza, 2003 – Um Filme Falado, 2004 – O Quinto Império – Ontem Como Hoje, 2005 – Espelho Mágico, 2006 – Belle Toujours, 2007 – Cristóvão Colombo – O Enigma, 2009 – Singularidades de uma Rapariga Loura, 2010 – O Estranho Caso de Angélica, 2012 – A Igreja do Diabo, 2012 – O Gebo e a Sombra.

As curtas e médias: 
1931 – Douro, Faina Fluvial, 1932 – Estátuas de Lisboa, 1938 – Já se Fabricam Automóveis em Portugal, 19.8 – Miramar, Praia das Rosas, 1941 – Famalicão, 1956 – O Pintor e a Cidade, 1964 – A Caça, 1965 – As Pinturas do meu irmão Júlio, 1966 – O Pão, 1982 – Visita ou Memórias e Confissões, 1983 – Lisboa Cultural, 1983 – Nice – À propos de Jean Vigo, 1985 – Simpósio Internacional de Escultura em Pedra – Porto, 2010 – Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética, 2011 – “Do Visível ao Invisível” em Mundo Invisível, 2014 – O Velho do Restelo

Os documentários:
1937 – Os Últimos Temporais: Cheias do Tejo, 1958 – O Coração, 1964 – Villa Verdinho: Uma Aldeia Transmontana.

Hoje, não há órgão de comunicação social, câmara municipal, site, blogue, página de facebook, declaração pública que lhe preste, e bem, homenagem. Já ele próprio o dizia, «Se há uma coisa que nos torna pacíficos, para o bem e para o mal, é a morte». Vários Cineclubes já anunciaram a exibição dos seus filmes. E ainda bem que assim é. Talvez esta pacificação da morte traga o cinema de Manoel de Oliveira a todos os que ainda o não viram.

O Arte-Factos presta a devida homenagem: vejam o seu cinema.

Texto por Lúcia Gomes

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