Entrevista com Azevedo Silva

Entrevista com Azevedo Silva

©Cláudia Andrade

©Cláudia Andrade

O cantautor Azevedo Silva editou no final do ano passado o seu quinto álbum, apropriadamente intitulado “V“. Agora em versão duo, com a colaboração do seu primo Filipe Magalhães, Azevedo Silva falou-nos um pouco do seu álbum mais pessoal até à data, do tempo passado em estúdio na preparação deste novo trabalho, da forma como está a abordar a sua carreira actualmente e a encarar o futuro ao vivo do projecto. Tudo para ler em baixo.

Editaste no final do ano passado “V”, o teu quinto álbum. Como é que achas que está a ser recebido?
Para mim é difícil. Às vezes sinto que não pertenço inteiramente a este Novo Mundo porque não sou uma pessoa muito dedicada às redes sociais. É normalmente aí que posso recolher mais facilmente as opiniões dos meus fãs. Assim de repente, registei que alguns disseram que é o melhor de todos, outros gostam mais dos discos acústicos. Há muita gente que gosta muito do Carrossel e, por exemplo, estive em Lisboa com uma fã que veio da Argentina e que adora o Autista. Ela disse-me que os meus discos requerem algum tempo a digerir. Por isso vou esperar uns anos para ter essa percepção. O single “Idiotas” é que foi recebido com muito entusiasmo por algumas rádios e isso foi interessante. Nomeadamente a Antena 3.

Como cantautor, sempre cantaste sobre ti, o que te rodeia, os teus ideais, a forma como vês o mundo. Mas este parece-me ser o teu álbum mais pessoal até à data, é algo com que concordas? Quanto de ti é que deixaste neste disco?
Sim, tenho de concordar que sinto o mesmo. Se algum dia alguém se interessar realmente pelo que escrevi, acho que com este disco vai perceber um pouco de mim. Falo um pouco sobre a minha rotina não ser em torno da música, da minha adolescência, dos amigos que já não estão em Portugal, da minha atitude positiva, embora não seja conhecido por isso. O tema mais introspectivo acaba por ser sobre a história da minha família. Falo um pouco sobre isso na música Luena. Sobretudo pelo facto do meu pai conseguir ter uma atitude bem disposta perante isso tudo. Eu não consigo encarar essa situação (descolonização de Angola) com o mesmo à vontade. A mim custa-me perceber que eles tiveram de deixar tudo para trás, começar noutro país, do zero. Isso deixa-me orgulhoso deles, porque sempre seguiram os objectivos que tinham – os de criar a sua própria família, sobreviver, resistir, lutar para dar o melhor aos filhos. E no entanto, mesmo depois de terem de passar pela experiência de chegar a um país que não era o seu e serem tratados de maneira pouco cordial, eles alcançaram o que queriam. Agora olham para a experiência com alguma mágoa, creio eu. Só que não têm o mesmo sentimento que eu tenho. “Lembras-te daquela vez que os soldados entraram na nossa casa e disseram que isto agora é nosso?” – eles contam estas histórias com um sorriso na cara.

©Cláudia Andrade

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Tens algum receio que ao abordares esses assuntos te possas expor em demasia? Pegando num termo muito em voga, tens algum limite em relação aos temas que abordas nas tuas letras ou fazes algum tipo de auto-censura automática na tua cabeça?
Bom, acho que todos temos os nossos limites. Às vezes penso que não tenho os mesmos que outras pessoas impõem em sociedade. Ou seja, penso que revelo demais. Claro que não tenho muito interesse em contar o que se passa na minha casa. Do ponto de vista artístico ou humano. Mas acho que tenho de incluir na minha obra os temas que me ocupam os dias. Acho que só assim poderá ser uma obra verdadeira, se esse termo faz sentido. Há algum tempo atrás percebi que não podia ser activista e músico. Talvez depois do Autista. Então se o que me enche a cabeça é termos um Presidente da República com poucas qualidades humanas ou políticas, é sobre isso que me vou pronunciar. Isto por oposição ao que fazia antigamente, em que mantinha um site de opinião mas depois não abordava esses temas nas músicas que cantava. Depois também há um pouco a noção de que ninguém quer saber, de uma maneira geral, sobre o que andamos a cantar porque deixou de ser relevante para as pessoas.

A música “Luísa de Jesus” tem uma história bastante peculiar, para quem não a conhece podes falar-nos um bocado mais sobre ela? Onde é que te inspiraste liricamente para este álbum?
Foi uma história que me passaram há alguns anos, não te sei dizer quem ao certo. Sei que estava envolvido com um grupo que era o Polvo. Numa reunião ou em alguma apresentação, houve alguém que falou desse assunto. Fiquei curioso com a personagem. Estamos sempre a ir buscar imaginários distantes e sempre tivemos à mão a Luísa! Agora apeteceu-me falar dela porque nas viagens que faço com o meu primo (e mesmo nos ensaios que tivemos de composição), acabamos sempre a falar de extraterrestres ou fantasmas. Daí pensar em falar dessa senhora que vinha para nos assombrar. Segundo o que li, ela foi a última senhora a ser condenada à fogueira em Portugal. E porquê? Porque ia buscar bebés à Roda a troco de uma recompensa financeira. Só que em vez de cuidar deles, matava-os, para viver dessas recompensas. Os números não me pareceram consensuais mas há quem diga que, utilizando este esquema, matou 33 crianças. Sobre a segunda pergunta, não sei onde me inspirei. Como dissemos ainda agora, é um disco em que as letras são um pouco mais pessoais. Acho que deitei cá para fora alguns dos sentimentos que resultaram de tudo o que foi a experiência com o Monja Mihara.

©Cláudia Andrade

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Por falar no teu primo (Filipe Magalhães), para além de te acompanhar ao vivo, neste disco contaste também com a sua ajuda na preparação do álbum, que papel teve ele na composição deste “V”?
Para começar, simplifica muito o processo de composição, por motivos muito básicos: é só mais uma pessoa, sabe tocar guitarra e teclas, tem a mesma motivação para compor, quer criar algo e os horários acabam por ser quase sempre em função da música e não uma espécie de “último escape”, quando já não há nada para fazer. Só isso ajuda bastante para quem tem um objectivo de composição. Depois, creio que o papel dele foi semelhante ao que o Grácio também desempenhava no início: alguém que tem a capacidade de pegar nos esboços que eu produzo e dar-lhes uma vida extra mas indo ao encontro do que pretendo. Também foi bom ser uma mente mais fresca, mais jovem. Se às vezes o caminho parecia disparatado, nada melhor que um cortex pré-frontal em desenvolvimento para dizer: “não pá, vamos a isso, gosto mesmo da ideia deste beat hip hop”. Não há tempo para recear nada.

Para a gravação voltaste aos The Pentagon Audio Manufacturers, onde mais uma vez trabalhaste com o Fernando Matias, com quem já colaboras há alguns anos. É já quase como um elemento de Azevedo Silva? Que importância assume ele no produto final?
Sim, sem dúvida. Acho que essa ligação está para durar enquanto os meus discos forem, propositadamente, mais produzidos. À semelhança do meu primo, o Fernando também tem um espírito aberto e gosta das pré-produções que nós lhe levamos. Quando chegamos ao estúdio, ele dá a opinião dele e funciona mesmo como mais um músico: ou porque completa uma ideia ou porque faz um riff de baixo ou porque cria connosco as sequências de percussão. Por isso, só abandono o Fernando quando ele quiser ou quando deixar de fazer sentido ter um disco tão cheio. Mas às tantas é mais que isso: tornou-se também um amigo a quem acabo por confessar alguns dos meus dilemas bipolares em relação à minha “carreira”. Isso para mim é também muito importante – entrar no estúdio e saber que não estou só a entregar-me a uma relação profissional.

Encontras-te a trabalhar de momento com a Music In My Soul, como artista habituado ao DIY, sentes que é importante ter uma editora por trás que facilite o abrir de algumas portas e ajude o teu trabalho a chegar mais longe?
Sim, eu diria que, à excepção de alguns casos (que nem sei bem nomear, honestamente), tem de haver alguém com um certo número de conhecimentos para te ajudar. É isso mesmo que dizes: alguém tem de abrir as portas. Sempre gostei muito de controlar todo o processo e a palavra que escolhi não foi ao acaso. Às vezes controlo demasiado mas é essa a minha natureza, porque quero proteger os meus interesses e o que criei. No entanto, chegou um ponto em que se tornou impossível controlar todos os aspectos – marcação de concertos, ensaios, fazer a contabilidade, fazer discos, gerir músicos, tratar de pormenores com promotores, promoção, entrevistas e tudo o mais. Por isso, sim, a ideia é de trabalhar com alguém que me possa facilitar o trabalho de músico, que me dê espaço para criar, ensaiar e tocar ao vivo de cabeça tranquila.

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O singleIdiotas” é um excelente cartão de visita para este novo álbum, e revela igualmente uma faceta que não é tão habitual na tua música, mas que se encontra também em outros momentos do disco. É um “baralha e volta a dar” em relação aos teus trabalhos anteriores, com a electrónica e os teclados a assumirem um papel tão importante como o da guitarra?
É giro que digas isso porque nós estivemos quase a abandonar este single. Sempre tivemos dúvidas até ouvir a versão final. Se interpretei bem a questão do “baralha e volta a dar”, acho que é isso que costuma acontecer quando já não é o primeiro nem segundo disco. Às tantas uma banda cria o seu estilo e identidade e isso passa a ser chato para o público. As minhas atmosferas vão ser sempre densas, a guitarra vai ser sempre o meu instrumento predilecto e a electrónica, até agora, foi ganhando um papel relevante nos discos. Quem sabe se o computador não vai mesmo ter ainda mais relevância que a guitarra num próximo registo.

Na sequência do que te perguntei anteriormente e do que já referiste na sua boa aceitação, via por exemplo a “Idiotas” a facilmente ter tempo de antena na rádio. Sabendo-te um apreciador desse meio, achas que tem existido espaço suficiente para a música portuguesa nas frequências FM? O que é que poderia mudar neste aspecto?
Depois de termos o tema finalizado também achámos o mesmo e avançámos com ele. As reacções à nossa volta também foram de entusiasmo e isso deu-nos confiança. A verdade é que nunca pensámos que ele vingaria por causa da mensagem mas a Antena 3 passou a incluir o tema na playlist. Já apanhei também noutras rádios, quando vou a conduzir ou algum amigo me avisa. Sinceramente, não te sei responder a essa questão. Logo no início, quando te disse que estou um pouco desligado deste Mundo, não é só da Internet. Tu sabes que tenho uma paixão por rádio mas hoje em dia oiço muito mais podcasts e raramente oiço rádio em directo. Só para saber quanto está o Benfica ou como está o trânsito. E sim, adoro esse meio mas não me identifico com as programações actuais. Sei que há alguns anos ficaram estabelecidas quotas para a música nacional. Eu não gostava da medida mas parecia-me um passo no caminho certo. Por isso, tudo me leva a crer que, provavelmente, mais do que nunca, espaço para a música portuguesa não deve faltar. Claro que isso nunca quis dizer que as rádios vão passar toda a música só por ser nacional. Há sempre alguém que fica de fora. Se não por outro motivo, porque os programas de autor e as rádios não são obrigados a passar a música que não gostam. Se ninguém gostar de Azevedo Silva, não tenho muito por onde reclamar. A única maneira de isso mudar era impondo um regime autoritário de 100% de música nacional. E mesmo assim podiam continuar a não passar Azevedo Silva!

©Francisca Veiga

©Francisca Veiga

Em Dezembro passado apresentaste o disco ao vivo pela primeira vez num muito bem composto Auditório Carlos Paredes, em Lisboa. Nessa data explicavas que usavas o humor como mecanismo de defesa contra os nervos. É algo que ainda te aflige antes de subires a um palco?
Acho que depende muito das circunstâncias. A resposta mais comum é que não me aflige nada mas tenho alguns concertos especiais, onde a exigência aumenta. Se for o primeiro da tour, se for o que tiver mais público ou se for num país diferente. É sempre o meu projecto e eu sou a cara desse projecto. Ninguém quer saber se o meu primo se vai enganar nas teclas mas todos notam se eu falhar na voz ou na guitarra. Mesmo que reparem, vêm falar comigo sobre qualquer tipo de pormenor. E acredita que as pessoas falam de tudo. No entanto, quando toco com o projecto do David Francisco (When the Angels Breathe) não fico nada nervoso. Sinto-me muito bem em palco, até porque as preocupações são todas dele. Eu só tenho de chegar e tocar.

Nessa mesma data, talvez resultado do que já falámos anteriormente, tiveste público a perguntar-te se se podiam levantar e dançar. Já te tinha acontecido ou foi uma primeira vez? Já tiveste outras peripécias engraçadas em concertos que possas partilhar connosco?
No passado, até ao tempo do Autista, eu e o Grácio aceitávamos muitos concertos porque era mesmo isso que procurávamos – fazer estrada, conhecer pessoas e locais, partilhar a música que criamos no estúdio. Lembro-me de ir tocar a uma aldeia perdida no Alentejo. Era a Aldeia das Amoreiras. Havia na altura um projecto de recuperação da vida social da aldeia e para o efeito criaram um fundo comunitário para atrair jovens, povoar e revitalizar aquela povoação. Nessa altura fomos lá tocar e o público eram jovens como nós e alguns miúdos que viviam por lá. Lembro-me de estar a tocar músicas tristes e uma das crianças estar muito contente a dançá-las. Acho que ela se chamava Inês. No entanto, acho que uma das melhores é mesmo em Castro Verde quando, logo no primeiro tema, um senhor já bem bebido começou a gritar: “Não cantas nada”. Foi um belo momento.

©Cláudia Andrade

©Cláudia Andrade

Para além do bom humor com que encaras uma plateia, gostas também de ir explicando as tuas músicas conforme vão surgindo, achas que é importante manter esse contacto com o público e é uma boa forma de aproximá-lo mais do teu universo musical?
Eu sempre considerei que sim, embora me tenham dito várias vezes que nem sempre resulta como eu espero. Uma coisa é certa: quando funciona e o público está mesmo com vontade de interagir, os concertos tornam-se memoráveis. Bom, pelo menos para nós, em palco. Se queres que te diga, nem sei bem onde fui buscar essa pancada porque as minhas origens estão no Rock e não me lembro de ver essa malta a comunicar muito com a plateia. Talvez em alguns momentos os Nirvana ou Pearl Jam o fizessem. Se calhar está mesmo na minha família e nas reuniões de Natal, onde todos contavam histórias sobre as aventuras que tiveram.

Tens contado ao longo da tua carreira com várias formações/convidados ao vivo. Há espaço neste “V” para manter a tendência?
Não deverá existir espaço para isso, não. Tudo isso era possível se houvesse vontade e capacidade para manter essa logística. Se calhar até ficava bem mais pesado ao vivo. Mas repara que eu estou na tal liga “faz tu mesmo”. A perspectiva é a de que não vai ser fácil conseguir que me paguem o necessário para eu levar baixista, baterista e outros músicos. Não sei se é um mal geral mas eu não posso propor aos músicos que toquem comigo só pelo prazer de tocar. Quer dizer, essa fase já passou e foi muito boa. Depois também tenho um problema que é o de gostar de trabalhar com as mesmas pessoas ou de esperar que todos tenham a mesma motivação. Isso é complicado porque há outros músicos com expectativas diferentes. Por isso optámos por, finalmente, recorrer às máquinas. Era um desejo antigo, embora tenha de admitir que a vibração de tocar com outros seres humanos é totalmente inigualável. O que pode acontecer, sim, é em determinados espectáculos com as condições que queremos, termos uma ou outra surpresa.

Para terminar, onde podemos apanhar o Azevedo Silva em breve?
O mais fácil agora é encontrarem-me a jogar futebol com o Sintra Football. Honestamente, estamos a encarar este disco de outra maneira e essa mudança afasta-me um pouco daquele que era o nosso processo ao vivo até 2010. Não tenho pressa para aparecer em muitas datas, quero tocar em locais com os quais possa combinar as condições que desejo, com promotores novos, em localidades onde ainda não fui ou para um público que quer estar presente para ouvir mesmo o concerto. Não tenho de satisfazer sempre todas essas condições mas pelo menos uma delas tem de se realizar. Por isso, estamos a sondar o mercado. Nos próximos meses tenciono voltar a Setúbal, que me recebe sempre de braços abertos, e estrear-me em Vila Franca de Xira. Para além disso, estou a trabalhar com os When the Angels Breathe e também tenho de coordenar datas com eles. Sei que vamos ao Porto brevemente mas há mais datas para anunciar.

Foi entretanto anunciado o concerto de Azevedo Silva em Setúbal, o músico actua na Casa da Cultura da cidade a 26 de Abril, pelas 18h.

Entrevista por Hugo Rodrigues

Arte-Factos

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