Entrevista com Marco Marzocchi (Fotógrafo)

Entrevista com Marco Marzocchi (Fotógrafo)

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Fotógrafo, ex-skater patrocinado e entusiasta do movimento hardcore-punk, Marco Marzocchi trocou e-mails connosco e respondeu a algumas perguntas a respeito do seu trabalho, uma deambulação voyeurista pelas ruas de Ferrara, em Itália.

Quando começaste a fotografar e porque continuas a fazê-lo?
Tudo começou com o skate. Eu adorava as fotografias nas revistas de skate, e quando encontrei a antiga câmara do meu pai comecei a levá-la sempre que ia andar de skate. No entanto, as minhas fotografias não saíam bem como as das revistas. Não tinha dinheiro suficiente para comprar o equipamento mais adequado, então tive de adaptar a minha maneira de fotografar – usava muito filme a preto e branco. Mas nunca levei a coisa muito a sério. Tudo aquilo fazia parte do jogo, tendo em conta que também escrevia para revistas de skate italianas. À medida que os anos foram passando, continuei a fotografar e encontrei a minha linguagem: rápida, prática, instantânea.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Tendo crescido ligado ao skate e ao movimento hardcore-punk, achas que a ética D.I.Y. dessas subculturas influenciou de alguma forma a tua atitude perante a fotografia?
Comecei a andar de skate por causa da liberdade de expressão que isso me dava – apenas eu e o meu skate. No skate tu aprendes com os teus próprios erros e estás sempre a desafiar-te. É, acima de tudo, um desafio. Acontece o mesmo com a fotografia.

As tuas imagens são cruas e viscerais, mas parece não haver necessariamente uma mensagem definida, isto é, parecem-me ser imagens muito introspectivas, mas não ‘abstractas’. Fotografas só para ti, ou há alguma espécie de statement?
Como todas as pessoas, tenho vivido e passado por inúmeras experiências; isso ajuda-me a definir o meu tom. Acho que não há muito mais do que isso a acrescentar, para ser sincero. Tento representar a realidade como a vejo. A fotografia é o que é: apenas fotografia. Não tento ‘criar’ uma realidade; não há no meu trabalho qualquer intenção de deformar a realidade à minha volta, apenas para conseguir uma boa imagem. Fotografo o que vejo e acho interessante. Não há respostas por detrás das minha fotografias – muitas perguntas, talvez.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Na introdução a um dos teus projectos, “Forsaken”, escreves, “I’ve seen it [Ferrara] change but rarely evolve”, “(…) instead of fighting my demons, I chose to dance with them”. Essas imagens parecem conter uma certa ideia de desapego, mas ao mesmo tempo também uma de procura de um lugar a que se possa chamar “casa”. Pelo menos é essa a interpretação que faço. Também sei que estudaste filosofia, isso influenciou de alguma forma o teu trabalho?
Costumava detestar o sítio onde vivo por uma série de motivos, e julgo que esse projecto procura representar essa ideia, a de me sentir perdido no sítio onde nasci e cresci. “Forsaken” é a minha luta individual com este lugar. Isto não evoluiu; é como se estivesse sempre a viver o mesmo filme, sempre rodeado pelas mesmas personagens… para sempre! A dada altura, percebi que estava demasiado cansado, exausto de tanto combater estes demónios no meu coração, e decidi render-me. “Forsaken” foi um projecto muito difícil a vários níveis, porque tive de me focar em tudo o que há de negativo neste sítio. Por isso, passados dois anos, tive dar o projecto por terminado – estava a sugar toda a energia que me restava. Estudei filosofia, sim, mas julgo que isso não influenciou a minha fotografia de maneira alguma; a fotografia é algo que tem mudado comigo.

Tens um novo projecto, “Dark Matter”, queres partilhar alguma coisa sobre isso?
“Dark Matter” são as minhas entranhas; é o que o mundo exterior me faz sentir: as perguntas, os sentimentos, o medo, a alegria. Tudo, de uma maneira ou de outra, está a acontecer neste lugar, aqui e agora, rodeado por um universo composto em 95% por matéria negra. Partilho a minha visão; as pessoas que retrato são aqueles que passam tempo comigo. Nutro um interesse genuíno por elas, pela sua timidez e pela sua bravura.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

No teu facebook e no teu blog é frequente encontrar citações de vários autores, principalmente do Charles Bukowski. Dirias que a literatura é uma fonte de inspiração para a tua fotografia?
Adoro Bukowski. Gosto da sua crueza, do realismo e adoro os personagens e o mundo que ele descreve. Ele inspirava-se na realidade que o rodeava. Tento fazer o mesmo. No entanto, não diria que a literatura me inspira, não mais do que a minha rotina e as pessoas à minha volta me inspiram.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Olho para os teus projectos e, no meu parco entendimento, tento perceber do que tratam – pelo menos chegar a uma interpretação pessoal, para a coisa fazer sentido na minha cabeça. No entanto, não o consigo fazer com “Vampyres”. Parece-me mais negro e misterioso que os outros.
“Vampyres” é dedicado a todos os que olham para a lua e ainda conseguem ficar admirados com a sua beleza. É para aqueles que decidiram ser eles próprios independentemente do que o resto do mundo lhes diz que é o “correcto”. É sobre aquelas pessoas que nos deixam desconfortáveis com o seu desassossego e a sua beleza não-convencional, aqueles que nos assustam por serem livres. Eles são os “Vampyres”.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Sei que és fã do sistema Contax G, que as pessoas geralmente ou adoram ou detestam. O que te fez optar pela G2, para além das magníficas lentes que encaixam nela?
Tenho uma G2, mas infelizmente não a uso tanto como gostaria, uma vez que de momento só tenho a 28 mm que não é propriamente a minha lente preferida. É uma câmara espectacular, muito agradável de utilizar. Adoro câmaras mais pequenas, pois são compactas e discretas. Uma câmara pequena é a melhor opção, gosto de andar quase sem sentir o seu peso. Gosto da G2 porque não deixa as pessoas tão desconfortáveis como outras câmaras maiores. Também tenho uma Contax T3, mas nos últimos dois anos tenho trabalhado essencialmente com a digital, uma Fuji X100s.

Apesar de neste momento trabalhares maioritariamente com o formato digital, costumavas trabalhar muito com filme. Porquê?
Basicamente, porque é daí que venho. Infelizmente, é muito caro trabalhar com filme hoje em dia. Além disso, revelar e digitalizar os negativos consome muito tempo. Faço um grande esforço para obter resultados semelhantes com a minha câmara digital.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Estás envolvido na publicação de várias zines e livros, algo que antigamente era muito comum no pessoal ligado ao skate e ao hardcore-punk. Estás à vontade para falar dos teus projectos mais recentes. 
Esforço-me por fazer apenas o que me dá gozo, o que acho interessante e o que é levado a cabo por pessoas que respeito. Sinto-me lisonjeado por ter os meus trabalhos  em publicações como Black Lie e Archivo. Neste momento, estou a trabalhar num novo projecto/livro com o Gabriele Lopez, chama-se Flaneur. Estou a começar outro projecto chamado Oscura, onde trabalho com o Filippo Massellani e o Mattia Borghi. Também faço parte do Micro Photographers Collective. Quem me dera ter mais tempo em mãos, como não tenho tento fazer o melhor que posso.

Como vês o skate hoje, com eventos como o Street League a dar uma imagem mais “limpa” da modalidade, mas também associando-a ao universo das grandes marcas e empresas multinacionais?
Comecei a andar de skate no final dos anos 80 e continuei ao longo de toda a década de 90. Posso contar-te detalhadamente o que quiseres a respeito dessa década. Não havia dinheiro para os skaters naquela altura: davam-te muitas coisas de borla se fosses bom, e no fundo tudo que nós precisávamos era de material de skate. Eu era mesmo um grande entusiasta do skate, adorava aquilo – éramos todos assim. Só deixei de andar de skate quando já não me era fisicamente possível fazê-lo – mas ainda adoro tudo o que tem a ver com skate. Muitas coisas mudaram nos últimos anos: o universo do skate transformou-se em algo gigantesco e a comunidade é muito diversificada; também há muito dinheiro envolvido – não sei se isso é bom ou mau. Ainda assim, continuam a haver as pequenas marcas independentes que fazem as coisas com a mesma paixão e atitude de antigamente. Na fotografia passa-se a mesma coisa: há muitos tipos de fotógrafos, há as grandes agências e há as pequenas que continuam a fazer o melhor que podem e sabem.

©Marco Marzocchi

©Marco Marzocchi

Para terminar, e assim de repente: quais os fotógrafos, skaters e bandas que aprecias?

Fotógrafos: Anders Petersen, Jacob Aue Sobol, Michael Ackerman, Daido Moriyama, Ed Templeton
Skaters: o Brian Lotti era o rei!
Eis a minha playlist: Chamberlain – Magnetic 62nd
Jimmy Eat World – Crush
Tilt wheel – Make Like a Tree and Fuck Off
Texas is the Reason – Back and to the Left
Sparta – Red Alibi
Samiam – Bad Day
Shift – Pinprick
Pete Horn – Black
Peg Boy – Witnessed
Ozzy Osbourne – Crazy Babies
Capricorn – He Who Walks alone
Morrisey – Speedway
Minor Threat – Out of Step
Lifetime – Irony is for Suckers
kyuss – Asteroid
The cult – She Sells Sanctuary
Johnny Cash – Ain’t No Grave
The Doughboys – Melt
Jawbreaker – Oyster
Jawbox – Savory
Husker Du – Hardly Getting Over It
Hot Water Music – She Takes It So Well
Helmet – Pure
He is Legend – Suck Out the Poison
Garbo – Il Fiume
Fugazi – Cassavetes
Firehose – Windmilling
Farside – Silver Anniversary
Failure – Undone
Egghunt – We All Fall Down
Dinosaur Jr. – Let it Ride
Face to Face – disconnected
Def Leppard – Hysteria

Entrevista por Ricardo Almeida

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube