Kraftwerk no Coliseu de Lisboa (19/04/2015)

Kraftwerk no Coliseu de Lisboa (19/04/2015)

Kraftwerk

Texto por Cláudia Filipe

O dia começou com a notícia que demorava chegar: os bilhetes para o concerto de Kraftwerk em Lisboa esgotaram, por fim. E pobres dos que deixaram a decisão para a última da hora porque podem ter perdido o concerto da vida deles. Onze anos afastados de palcos nacionais são muitos anos. Se calhar foram os suficientes para parte de uma geração que ali se encontrava poder aprender a desfrutar daquelas duas horas e meia como deve ser.

O regresso adivinhava-se especial dado que para esta tour prepararam um espectáculo 3D com direito a óculos e tudo. Parecia que estávamos no cinema, mas com uma diferença: o quarteto lendário liderado por Ralf Hütter que é, aliás, o único membro fundador que ainda resta na banda, estava mesmo ali à nossa frente.

A maior parte das projecções não são novas, a avaliar pela quantidade de vídeos de outros espectáculos ao vivo. Houve um ou outro ecrã azul pelo caminho, mas que é que isso importa? Foi genial na mesma. E genial é dizer pouco.

O concerto, que arrancou com Numbers, foi uma viagem pela discografia dos Kraftwerk, que revolucionaram as décadas de 70 e 80. A magia é descobrir que, em 2015, o seu trabalho continua intemporal. A banda que influenciou milhares de projectos de música electrónica que seguimos hoje em dia, continua com o mesmo espírito vanguardista.

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©Everything Is New

Computer Love teve direito à primeira grande ovação da noite, ou não adorássemos todos a presença de um computador. Ou não fossem as linhas Another lonely night / stare at the TV screen / I don’t know what to do / I need a rendezvous facilmente identificáveis em qualquer altura da nossa vida.

The Man Machine manteve a intensidade do serão acelerado, para depois seguirmos numa viagem pela galáxia com Spacelab, que terminou com uma invasão à Assembleia da República. E, por falar em viagens, ainda tivemos direito a percorrer a Autobahn na sua versão mais longa, uma delícia para quem escolhe sempre o caminho mais longo para casa.

Em Radioactivity homenagearam-se as vítimas de vários acidentes nucleares, incluindo o caso mais recente de Fukushima, porque há assuntos que não deveriam sair das agendas políticas. E, pouco depois, um dos momentos mais aguardados da noite: Tour de France 1983 e 2003. Um clássico de Hutter, eterno apaixonado pelo ciclismo mesmo após um grave acidente que lhe podia ter custado a vida. E porque a sociedade moderna e o frenesim das máquinas que nos rodeiam sempre foram um tema central para a banda alemã, Trans Europe Express na recta final da primeira parte do concerto, a levar-nos o coração mal ouvimos o som dos carris recriado pelos sintetizadores.

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©Everything Is New

O primeiro encore foi um momento especial. “Falta a Robots“, ouvia-se. E fizeram-nos a vontade. Quatro bonecos em palco vestidos a rigor, com a famosa camisa vermelha e a gravata preta, a dar vida a mais um clássico que nos relembra como podemos usar as máquinas conforme quisermos. Ou para nos lembrar que, muitas vezes, os robots somos nós, com tantas atitudes automatizadas que nos vão preenchendo o dia a dia.

Para o segundo encore haveriam de ficar Aéro Dynamik, Techno Pop ou Music Non Stop, que encerrou de forma grandiosa um concerto perfeito.

Esta é uma noite para recordar para sempre: não só pelo prazer que foi poder assistir a um grande espectáculo de uma bandas mais influentes de sempre, mas também porque foi irrepreensível. E quem nos dera não ter de esperar mais onze anos para poder voltar a ver algo assim.

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