Entrevista com Álvaro Fernandes (Dementia 13/Pitch Black)

Entrevista com Álvaro Fernandes (Dementia 13/Pitch Black)

Dementia 13 playing live at Metalpoint

©André Henriques

O veterano Álvaro Fernandes é a mente criminosa por detrás dos Dementia 13, banda portuense de death metal que se prepara para lançar o seu primeiro longa duração. Dois anos volvidos desde a saída do EP “Tales For the Carnivorous”, os Dementia 13 continuam a fazer-se valer da sua sonoridade, ameaçadora e trucidante, para prosseguir a caminhada num trilho lúgubre que homenageia os clássicos universais do cinema de terror.

Os Pitch Black encontram-se em stand by há já algum tempo, mas não encerraram por completo o seu dossier. Sabes o que sentem os outros membros desse grupo? A paragem foi planeada?
Tudo começou porque a banda teve que parar forçosamente. Nós ficámos sem baterista e sem guitarrista no início de 2011 e os Dementia 13 surgiram nessa altura. Os Pitch Black ficaram parados enquanto procurávamos um baterista e eu comecei a trabalhar com o novo guitarrista somente no projecto Dementia 13. Decidiu-se que os Pitch Black ficariam em stand by durante um ano ou, pelo menos, até acabarem os concertos e todo o trabalho de promoção do primeiro EP dos Dementia. O grande problema é que depois de arranjarmos um baterista ficámos sem vocalista. Portanto, neste momento os Pitch Black estão a compor e têm ensaios, mas falta encontrar um vocalista para a banda.

Tanto os Pitch Black como os Dementia 13 têm tido uma boa recepção por parte da crítica especializada e parece fácil concluir-se que não há motivos para grandes razões de queixa. Gostas de críticos?
Eu tenho muitas cunhas! Estou a brincar (risos). Mas sim, gosto de críticos. É claro que há críticas e há críticas… e há críticos. Normalmente, não tenho uma má relação nem com os críticos nem com aquilo que dizem. Regra geral, é bom e aceitável o que têm a dizer. Quando é algo de muito negativo não aquece nem arrefece. É normal que isso aconteça. Como é óbvio, não gosto de críticos de bancada, mas agrada-me o crítico que tem argumentos.

Discografia Pitch Black

Consideras a sonoridade dos Dementia 13 ameaçadora ou desafiante?
É um bocado complicado responder a isso. Acho que é um pouco das duas coisas. Nós não temos pretensiosismos e não queremos ser mais do que aquilo que realmente somos. A nossa sonoridade é fruto das nossas influências e daquilo que fazemos. O que nós compomos e criamos resulta de toda essa inspiração. Se tiver de escolher uma das opções, direi que a nossa música talvez tenha mais de ameaçador.

Dementia 13 já tem um número considerável de seguidores. Achas que são os mesmos dos Pitch Black, ou parece-te que a banda conseguiu criar uma legião de fãs muito própria, diferente e independente da dos Pitch Black?
Alguns fãs serão os mesmos, como é óbvio. Porém, acho que essa fatia até nem é a maior. No que diz respeito ao metal, as coisas estão bastante segmentadas em Portugal e o público está muito dividido. Há pessoas que só vão a concertos de death metal, há outras que só vão ver concertos de black metal, há malta que só vai a concertos de hardcore. Sendo assim, houve pessoas que conseguimos chamar para Dementia 13 que nunca conseguiríamos chamar para Pitch Black.

Em 2013, referiste numa entrevista que os Dementia 13 eram “apenas” um projecto paralelo. Ainda continuam a sê-lo, ou a banda já ganhou uma dimensão que te faz encará-la com outros olhos?
Ao início a ideia era mesmo a de criar um projecto com pouca durabilidade. E não deixámos de ser um projecto paralelo. Tirando eu, o baixista Zé Pedro, dos Holocausto Canibal, e o Marco na guitarra, continua a ser um projecto com músicos convidados. Para já ainda é um projecto paralelo, embora tenha ganho contornos de algo mais sólido e duradouro. É claro que tudo fica mais sério quando se consegue despertar o interesse de uma editora estrangeira que, por seu lado, vai ser responsável pelo lançamento do nosso álbum. Acho que só não deixa de ser um projecto paralelo pelo simples facto de termos outras bandas. De contrário seria a banda principal.

A saída do primeiro álbum está agendada para o Outono deste ano. Antes disso vai-nos ser servido um aperitivo em vinil, no formato 7”. Qual é o título do single e qual o seu conteúdo?
O single vai sair brevemente, chama-se “Children Shouldn’t Play With Zombies” e tem duas faixas. A primeira, “The Damned, the Dead and the Demented”, é um dos temas novos, embora já o tenhamos tocado ao vivo algumas vezes. A segunda chama-se “Disorder”, é uma versão de um tema dos Profane, uma banda portuense dos anos 90, e vai ter a participação de um vocalista convidado.

“Ways of Enclosure vai ser o título do vosso primeiro longa duração. Qual é a editora que o vai colocar no mercado?
Agora estamos a trabalhar com a Memento Mori, uma editora espanhola especializada em death metal. Eles ouviram o nosso trabalho, gostaram imenso da sonoridade e demonstraram interesse imediato na nossa banda, ainda antes da saída do “Tales For the Carnivorous”. Nós mantivemo-nos em contacto e, depois de lançado o EP de estreia, a editora propôs-nos a gravação de um álbum que deverá sair no Outono. O disco vai ter distribuição mundial através da britânica Plastic Head.

A gravação do primeiro EP dos Dementia 13 foi um pouco atribulada, tendo mesmo passado por diversos estúdios. Desta vez as coisas já correram de uma forma mais simples e tradicional, ou nem por isso?
Desta vez ainda foi pior! Neste momento, o nosso vocalista vive em Manchester, portanto foi tudo mais complicado. Basicamente, fizemos as coisas da maneira que nos foi possível. Temos pouco dinheiro, somos pobres. Optámos novamente por gravar as guitarras e o baixo em casa, e recorremos a um ou outro estúdio para gravar a voz e a bateria. Sendo assim, a bateria foi gravada aqui no Porto pelo João, músico nosso convidado e que mais frequentemente trabalha connosco, e a voz foi gravada num estúdio em Manchester. As misturas vão ser feitas novamente na Moita. A capa vem da Indonésia.

E como é que foi o processo criativo do novo material?
Nós deixámos de tocar ao vivo precisamente para começarmos a trabalhar seriamente no álbum. Os últimos concertos que demos aconteceram em Julho de 2014, com os Obituary, no RCA Club e no Hard Club. O processo criativo passou todo por mim. Claro que, por vezes, as outras pessoas ajudaram-me com algumas ideias, ou então deu-se o caso de eu estar em bloqueio e de pedir conselhos. Mas, de uma forma geral, toda a composição passou por mim.

O universo fílmico, em particular o do terror, continua a ser um elemento fundamental na estética musical dos Dementia 13? Isso é uma coisa da qual vocês não prescindem, uma imagem de marca?
Um dos conceitos principais da banda prende-se com o facto de cada tema ser directamente inspirado num determinado filme de terror. O tema fala sobre um filme específico e há muitas frases que são de lá retiradas e incluídas na letra. Depois também há a utilização de certas falas para a criação de intros e outros. Isso é um conceito mais do que assente e as coisas hão-de funcionar sempre dessa forma. Para além disso, toda a imagética da banda, quer seja a capa de um trabalho ou uma fotografia do grupo, vai estar sempre relacionada com o cinema de terror.

Independentemente dos vários subgéneros, os discos das bandas de metal têm sempre um design muito próprio e característico. O vosso esteve a cargo de quem?
Estivemos a trabalhar com a Mahdi Artwork, da Indonésia. O Mahdi é um desenhador que não terá um currículo enorme, mas que já trabalhou com alguns grupos relevantes. Caso dos holandeses Sinister, por exemplo. Quero sublinhar que o Mahdi esteve apenas incumbido do desenho da capa. O layout vai estar a cargo de uma outra pessoa.

O Tales For the Carnivorous” teve uma excelente aceitação, inclusive lá fora, o que vos deu a possibilidade de estarem agora a trabalhar com uma editora estrangeira. Neste momento, em que ponto está a vossa internacionalização?
Neste momento, a nossa internacionalização resume-se ao gajo que fez a capa! (risos)

E também à editora…
E à editora, claro. Agora mais a sério, há que dar um passo de cada vez. É claro que o que nós fazemos é, inevitavelmente, direccionado lá para fora. O nosso meio é muito restrito e não há assim tantos fãs do cinema de terror que possam compreender e gostar da nossa música, ouvir uma letra e identificar o filme a que ela se refere, etc. Contudo, lá fora temos um feedback muito grande no que diz respeito àquele conceito de associar um tema a um determinado filme. No que diz respeito a concertos, e a possíveis digressões pelo estrangeiro, essa é uma matéria que já foi pensada, já foi falada e temos até alguns contactos nesse sentido. Porém, como isso é algo que requer uma disponibilidade de tempo muito grande por parte de todos os elementos, tem que ser tudo muito bem planeado. Será um passo a dar no futuro.

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Sempre gostaste dos suportes retro. O lançamento físico do novo single vai ser feito em vinil e o próprio “Tales For the Carnivorous” teve uma edição em cassete, para além da tiragem em CD. Qual o motivo para apostar tanto nestes formatos?
Porque cresci a ouvir cassetes, cresci a abri-las e a trocar as fitas, cresci a desmagnetizá-las e a rebobiná-las com as canetas BiC, e porque ver uma capa de um vinil não é a mesma coisa que olhar para a capa de um CD. Para além disso, ouve-se sempre aqueles estalinhos da agulha a passar durante as faixas. Não há comparação possível.

Os Dementia 13 tendem a tocar algumas covers ao vivo, um pouco à imagem do que já acontecia com os Pitch Black. Como é que são escolhidas e qual é para vocês a importância de lhes conferir o vosso cunho?
Em primeiro lugar, tem que ser uma música que nós sejamos capazes de tocar, esse é o ponto principal. Posto isto, tem que ser aquela música que encaixe bem num set ao vivo, sem destoar, independentemente do género. Fizemos isso nos Pitch Black, com um tema dos Obituary, e os géneros são diferentes. Depois temos que ir buscar bandas que realmente nos digam algo, bandas que nós conhecemos bem, que gostamos e, principalmente, escolher aquele tema que se vai enquadrar da melhor forma na nossa sonoridade. Por outro lado, não gosto muito de retirar o cunho da banda original. Seja qual for a cover, o nosso dedo estará sempre lá, mas não gostamos de “assassinar” os originais. É engraçado porque há alguns casos em que as nossas versões até soam melhor que as originais. Isso acontece principalmente com temas antigos, originais de bandas que gravavam mal, ou que tocavam mal. Já houve alturas em que tivemos de aprender a tocar mal (risos). Aprender a desaprender. Isso acaba por ser natural porque estamos a falar de uma época em que as coisas eram gravadas com poucas condições, sem dinheiro, e os próprios músicos não tinham muita experiência.

Vou deixar-te alguns nomes à consideração e gostava que, de uma forma sucinta, tecesses os comentários que eles te merecem:

Francis Ford Copolla
Dementia 13.

Snake Plissken
Kurt Russel. Essa personagem é icónica!

Allan Woldsworth
Eh pá, como é que te foste lembrar disso? É um guitarrista de jazz de fusão que eu ouvia bastante há muitos anos, mas tenho que redescobri-lo.

James Murphy
É daqueles gajos que, se calhar, fez coisas melhores sob o efeito do álcool do que depois de ficar sóbrio. Às vezes, esse é o problema de muita gente. Sinceramente, não sei bem o que é que ele anda a fazer agora.

Basil Fawlty
“- There’s too much butter on those trays.”
“- No, no, no, señor: uno, dos, tres”
É impossível superar o John Cleese. Então aquele episódio do simulacro de incêndio no Fawlty Towers é qualquer coisa. Às vezes gostava de poder ser assim para muitas pessoas.

Scott Burns
É o mestre, o mestre da escola americana de death metal. Sem querer, foi ele quem criou tudo, quem gerou aquela sonoridade. Cancer, Deicide, Sepultura… Para mim, em termos de som, de produção, de estúdio, ele é do melhor que há.

“Children Shouldn’t Play With Zombies” é o single de apresentação ao primeiro álbum dos Dementia 13, álbum esse que deverá estar no mercado durante o Outono deste ano, com o selo da espanhola Memento Mori. Numa altura em que os thrashers Pitch Black permanecem inactivos, depois de dois álbuns editados e de vários anos a partilhar palcos com gigantes como Napalm Death, Destruction, Exodus, Nuclear Assault, The Haunted ou Mastodon, os Dementia 13 parecem assumir-se, definitivamente, como um projecto sério, sólido e duradouro.

Entrevista por Pedro Gomes Marques

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