Faixa a Faixa: “Terra Concreta” de Afonso Pais

Afonso Pais

O mais recente álbum de Afonso Pais, “Terra Concreta“, nasceu da ideia de levar a música de volta à sua primeira origem, a natureza. Fora do estúdio ou da habitual sala de espectáculo, cada uma das composições foi registada nas zonas mais remotas dos Parques Naturais nacionais, e também na ilha do Bornéu (Vale do Danum), onde a floresta intocada é a mais fértil na paisagem sonora que apresenta. Logo à partida isto torna este álbum algo único e rico em detalhes, alguns dos quais desvendados aqui faixa a faixa pelo músico.

#1 Renovação e Concílio
Viajei inicialmente sozinho com o propósito de compor e de fazer um levantamento de sons que pudesse depois usar como separador entre as faixas do disco. Fui até ao Bornéu Malaio, onde permaneci cerca de quinze dias no “Vale do Danum”, um daqueles locais naturais de floresta tropical onde o Homem nunca se fixou, não cultivou nem cortou árvores… continua a ser um éden, um exemplo esmagador e brilhante do que o nosso planeta produz quando não é sufocado pela nossa espécie e suas pretensas necessidades. Acabei por gravar “Renovação e Concílio” em plenos trópicos, como uma peça para guitarra solo. À abertura do disco corresponde também a energia tranquila da alvorada, numa canção que me agrada pela certeza de que nos une um reinício, no qual todas as existências poderão intentar de novo o seu lugar de harmonização, interior e exterior.

#2 Canção de Enganar
Foi gravada em pleno ocaso, no Vale do Guadiana. Os laranjas e amarelos-dourados do final da tarde primaveril dão lugar ao violeta fugaz no poente, e a descida repentina da temperatura traz uma aragem que desperta os primeiros grilos, aguçando o olfato e a audição. Esta canção fala da beleza do poético e musical, e da forma como podemos ser seduzidos a ponto de crermos no porto-seguro ilusório que a nossa imaginação cria, quando nos sumimos no fluir da criação e do pensamento. A Rita Maria canta esta letra, a qual escrevi no Bornéu.

#3 Desaire
Tem um lugar especial na colecção de canções que integram o “Terra Concreta”. Foi gravado na nossa primeira incursão pelas reservas naturais, e foi o primeiro “take” em que senti que a simbiose e integração música-natureza foi plena, e plenamente patente. Estávamos no inverno, em Montesinho, e gravámos com temperaturas de quatro graus e uma humidade muito elevada. Tudo aconteceu de forma certeira e a canção, com letra da Joana Espadinha e um improviso meu acompanhado à guitarra por João Firmino, flui por entre os sons dos pássaros a meio da manhã: mocho e rolas em destaque.

#4 Desde Sempre – Parte I
No alinhamento dos temas do disco, a chegada a este improviso-introdução centrado tema “Desde Sempre” corresponde também à chegada ao Gerês, onde para mim as condições acústicas  e tímbricas naturais da floresta arborizada se destacaram mais dos ambientes de estúdio. As primeiras notas musicais do piano anunciam a calmaria de uma manhã muito particular, após vários dias de tempestade e chuva torrencial. O Paulo Pimentel, meu companheiro desta aventura no Gerês, pegou num dos seus melhores pianos, e arriscou tudo, nestas circunstâncias. Correu tudo tão bem que os transportadores do piano foram à Vila do Gerês comprar um lanche para nos oferecer, tal foi a surpresa quando se aperceberam que os levámos para um dia solarengo na natureza, contra todas as probabilidades! Albert Sanz improvisa dois curtos momentos deliciosos, com inspiração nas gotas de água, que ainda caíam das árvores, com base na harmonia da canção por enquanto sem voz “Desde Sempre”.

#5 Lisboa Antiga
É a minha parceria com a Luísa Sobral: a letra é dela, a música é minha. Tem um ambiente meio urbano, meio rural, para mim representa o lado atávico e etéreo da nossa cidade mãe, mas também tudo o que de antigo é mais próximo à natureza e à natureza das relações humanas. De Lisboa vê-se o rio Tejo, que é um reduto de riquezas naturais e de memórias que são despoletadas pelo crescimento da cidade em seu redor.

#6 Tema para a Rita
Mais especificamente para a Rita Maria. Foi a viagem mais curta de todas as que fiz no disco, mas nem por isso desprovida de surpresas. Gravámos em Sintra, tão isolados quanto possível da paisagem humana… O dia estava encoberto, a brisa quase que se tornava forte demais para permitir a captação do momento musical, a passagem de aviões a cada cinco minutos desafiava o nosso sentido de oportunidade, e a Rita tinha um voo rumo ao Equador no próprio dia. Quando ao fim de umas quantas tentativas insatisfatórias registámos a versão ideal, tomei consciência da proeza da minha convidada: a de cantar uma música com este grau de dificuldade, sob pressão, melhorando a prestação musical sem esquecer a entrega ao momento. Poderia chamar-se “Tema da Rita”.

#7 Pode Ser
É um dos momentos mais memoráveis do disco, para mim. Gosto muito da música, da letra também (Joana Espadinha), e da interpretação. Em boa verdade esta canção partiu da ideia que eu e a Joana tivemos de concorrer um dia ao festival da canção. Se ao menos a votação pudesse ficar a cargo da passarada…

#8 Dos Últimos Dias
Vem da sessão de gravações no Gerês. É um tema mais introspectivo, que evoca um estado de espírito de alumbramento induzido pela natureza e pelo reconhecimento da nossa pertença aos seus domínios, numa serenidade e entrega humilde mas não conformada ao âmbito do indeterminismo. A capacidade que temos de colectivamente lidar com as perguntas maiores, aquelas que vêm não tendo resposta e se nos afiguram para sempre indecifráveis, é cada vez mais surpreendente para mim. Como podemos ser curiosos e sensíveis ao longo de uma vida, na qual a saciedade do intelecto é um ponto em que possivelmente equidistamos da ignorância e do conhecimento, e simultaneamente temos as ferramentas com as quais, progredindo rumo ao conhecimento, podemos aprofundar esta consciência, ainda que nunca a um ponto de resolução no definitivo?

#9 Desde Sempre – Parte II
É a música que conclui a faixa #4, com voz e piano no Gerês. Compus esta canção ao piano, a Joana Espadinha escreveu a letra, que adoro. Só tenho pena que não seja possível transpor para a guitarra a parte musical, pois é um dos temas mais certeiros, dos que compus, e tocaria com certeza mais vezes em concerto também acompanhado pela Joana.

#10 Dom do Indizível
Foi gravado no Tejo Internacional, junto à fronteira com Espanha. Na viagem até ao local de gravação avistamos veados, e toda a reserva natural é de uma beleza enorme. Esta canção confronta a inocência do imaginário de criança com a antecipação e experiência do olhar de um adulto sobre os mesmos assuntos, distinguindo-os através de diferenças subtis na letra e música, da exposição para a re-exposição do tema. A Beatriz Nunes interpreta à sua maneira a canção, usando a sustentação das notas finais de cada frase como ênfase do que vai sendo dito, de forma incrível. Foi sem dúvida na versão por ela cantada que a identidade da música se cimentou na minha imaginação e memória.

#11 Knochenfisch
Resultou de um episódio cómico com amigos, num restaurante em Lisboa. Todos (excepto eu) queriam pedir carapau grelhado mas só havia uma dose, e a generosidade de cada foi tão grande e competitiva que ninguém aceitou ficar com o peixe, pelo que eu aceitei, achando graça à situação. No final de contas o peixe (Knochenfisch em alemão) estava quase estragado e fui castigado pela minha presunção. Esta faixa, que conclui o disco, foi gravada no Vale do Guadiana, com a Rita Maria, ao início da noite. Fomos presenteados com um vento quase impossível, que se ouve bem na gravação nos canaviais dançantes, no último dia de gravações. Mais uma vez, a versão que ficou foi a última do dia de gravações, no limite do possível, sem nos vermos, mas sentindo o calor da terra meio árida quase junto ao Guadiana, influenciados quem sabe pela proximidade da Extremadura Espanhola, donde nos veio um improviso ibérico absolutamente espontâneo, e exclusivo do “take” que decidi usar no disco.

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