IndieLisboa 2015 - Éden

IndieLisboa 2015 – Éden

Éden

Os três filmes anteriores de Mia Hansen-Løve eram marcados pela ausência. Pela perda paternal nos dois primeiros e pela paixão ardente no último Um Amor de Juventude. Em teoria, Éden seria diferente, um relato semi-documental da ascensão da french touch, da explosão da electrónica francesa nos anos 90, com os Daft Punk como inevitáveis porta-estandartes. Só que a ausência continua a marcar o filme. Uma ausência diferente, mais subtil e mais complexa.

Éden II

Éden está dividido em duas partes. A primeira chamada Paradise Garage, em homenagem ao mítico clube nova-iorquino. É o período da euforia e da descoberta, em que somos transportados para as pistas de dança parisienses, para o house e para o disco (mesmo que não se suporte estes estilos de música). Uma viagem eficaz, quase alucinogénia a breves espaços, muito graças aos efeitos das luzes e da filmagem palpitante de Mia Hansen-Løve. A personagem principal é Paul (Félix de Givry), um DJ desta época, que abandona os estudos literários na universidade para se concentrar apenas na música.

Contudo, é na segunda parte que Éden se revela. Chamada Lost in Music, mostra a queda vertiginosa depois da euforia desbragada. É aqui que a perda e o vazio, fundamentais nos filmes anteriores da realizadora francesa, mais se acentuam. Há pequenos vestígios de Um Amor de Juventude nos reencontros de Paul com Júlia e Louise, duas ex-namoradas. Mas aqui o vazio não é romântico, é ainda mais profundo. É um vazio interior, sobre uma existência fútil, sem rumo, perdida nas drogas e na efemeridade artística.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=lgtB-JeYs5I]

Este é um filme sobre música, tanto quanto não o é. Há uma dimensão espiritual que não julgávamos possível quanto falamos de um estilo tão desprezado como o house (se bem ou se mal, não vem aqui para o caso). E, neste sentido, os Daft Punk são apresentados de uma forma prodigiosa, como algo à parte. São omnipresentes, como destaca a colega do curso de escrita criativa de Paul. Mas são também seres anónimos e desconhecidos, barrados na porta de uma discoteca. Musicalmente, surgem em dois dos momentos fulcrais de Éden. Sentimos Da Funk como um momento fundador, segundo o olhar dos DJs. E depois temos o piano de Within, que simboliza tanto a tristeza interior de Paul como a reinvenção artística.

Aliás, os filmes de Mia Hansen-Love são profundamente nostálgicos e melancólicos, mas não são, de todo, um tratado pessimista. Há um espaço para a redenção, para uma história que fica em aberto, como o rio que corre sem destino conhecido no final de Um Amor de Juventude. E é aí, nesse lado poético e metafórico, que Éden ganha uma beleza muito especial.

The rhythm which projects
from itself continuity
bending all to its force
from window to door,
from ceiling to floor,
light at the opening,
dark at the closing.
         (Excerto de “The Rhythm”, poema de Robert Creeley)

8Texto por João Torgal

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