Respire (Respira)

Respire (Respira)

Respira

Lembram-se da judia francesa Shosanna de Inglourious Basterds (Quentin Tarantino, 2009)? Pois Mélanie Laurent cresceu e aventurou-se noutros domínios. O seu segundo trabalho atrás das câmaras, que nos chega disfarçado de drama juvenil, é na verdade um drama multi-camadas sobre a (co)dependência emocional. O argumento, escrito por ela e por Julien Lambroschini a partir do best-seller homónimo de Anne-Sophie Brasme, descreve a ascensão e queda de uma amizade complexa entre duas adolescentes. Charlie (Joséphine Japy) é uma jovem sociável e boa aluna, mas fragilizada pela relação amor/ódio entre os pais, que lhe impõe uma tendência para a introversão e melancolia. A chegada à escola da bela Sarah (Lou de Laâge), dona de uma personalidade provocadora e quase selvagem, com um background familiar adverso (que não desvenda), produz no grupo o fascínio típico das condutas desviantes. A amizade desenvolve-se de forma meteórica e converte-se num vínculo fusional, firmado no deslumbramento de Charlie e no comportamento manipulativo de Sarah, que depressa se apercebe do poder que exercer sobre a primeira. Quanto tal acontece, a presumida ligação hermética começa a exibir pequenos sulcos, até que o fosso entre elas será intransponível.

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A evolução das personagens afasta o tom liceal que os verdes anos das protagonistas fariam antever e a acção adquire, ao longo do filme, uma dimensão simbólica que discute aspectos da psicologia do abusador e do abusado, os seus predisponentes e as suas consequências. Charlie é claramente a representação da vítima, cujo comportamento resignado e altruísta (possivelmente provocado por uma aprendizagem errada de códigos relacionais) traduz uma necessidade de afecto, aceitação incondicional e segurança. Sarah, mitómana e narcisista, é o protótipo do agressor que não conhece como não agredir e se alimenta da drenagem emocional da sua presa, empregando mecanismos clássicos de humilhação, violência verbal e imposição de culpa. As duas jovens actrizes (Japy, de 21 anos, e de Laâge, de 25), que receberam nomeações para o César em 2014, são admiráveis na composição dos paradoxos das suas personagens e da relação. Lou de Laâge, em particular, é uma força da natureza.

O filme parece reunir dois géneros específicos. O primeiro aproxima-se do melodrama coming-of-age – apresentando as personalidades contrastantes das raparigas, os aspectos disfuncionais dos respectivos sistemas familiares (que naturalmente as aproximam), o equilíbrio viciado que estabelecem (a dicotomia fascínio vs. manipulação) e até uma componente de atracção sexual que levemente impregna a relação. O segundo vai beber ao melhor do thriller psicológico e transforma o drama relacional num jogo de forças, somando ao colorido da primeira parte ingredientes de obsessão, tortura psicológica e violência. A urgência de respirar a que o título alude, reforçada pelos ataques de asma (ou pânico?) da personagem de Charlie (que se vão tornando cada vez mais frequentes), refere-se porventura a esta fina transição de género – a atmosfera inicial lembra o estrondoso La Vie d’ Adèle (Abdellatif Kechiche, 2013), para depois se instalar na fronteira da psicopatia de Single White Female (Barbet Schroeder, 1992). O ambiente de suspense que se instala a partir da segunda metade é de facto irrespirável.

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Para além de uma grande actriz, Mélanie Laurent prova aqui ser uma cineasta com grande sensibilidade para seleccionar as suas histórias e as suas actrizes (num filme feito por mulheres, temos ainda que destacar a presença de Isabelle Carré no papel da mãe de Charlie). Respire não deixa de ser uma história vulgar (apesar dos seus contornos psicóticos, as obras cinematográficas com narrativas deste tipo são muitas), mas Laurent conta-a com um olhar amplo e compassivo (e porque não feminino?), honrando a cadência dos acontecimentos, o crescimento das personagens e as múltiplas dimensões que as compõem (tudo isto em cerca de 90 minutos de filme). Produto final? Um estudo psicológico muito interessante sobre cicatrizes desenvolvimentais, a partir de uma matéria-prima que lhe concede algum simbolismo (a adolescência, idade que tudo é imediato, visceral e amplificado), com um remate inesperado – e ainda uma afirmação: Mélanie Laurent como uma grande promessa para o cinema francês contemporâneo.

7,5estrelas

Edite Queiroz

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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