Flashback: Ocean's Twelve

Flashback: Ocean’s Twelve

Ocean's 12Ocean’s Eleven de Soderbergh marcou o início do século com uma nova abordagem ao thriller de peripécia, ao jeito de espiões que se tentam infiltrar num local de alta segurança, mas que aqui são ladrões. Foi um muito bom filme de entretenimento, um daqueles em que no final do filme dizemos “sim senhor, foi giro, gostei muito”. Aqueles que esperavam ansiosamente por Ocean’s Twelve  passados 3 anos, como um filme semelhante ao tão adorado Ocean’s Eleven, acabaram por ficar desapontados, acusando o filme de ser confuso, inconsequente e amador. Mas porque foram essas características levadas num sentido negativo quando são precisamente essas as fabulosas virtudes de Twelve? Ocean’s Twelve simplesmente não é Ocean’s Eleven, é uma experiência completamente diferente e que foi amadurecendo com os anos como um bom vinho refinado. Esperava-se mais um roubo grandioso da autoria da equipa de Ocean, mas ao invés disso, aquilo que acontece em Ocean’s Twelve é a devolução de todo o dinheiro roubado no filme anterior.

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O que traiu Ocean’s Twelve na sua estreia em 2004 foi a sua pouca “acessibilidade” perante um público alvo que se esperava ser o mais abrangente possível, mas que na verdade passou a ser outro bastante diferente, ou antes apenas uma pequena parte do anterior. A exposição do enredo é propositadamente verdadeiramente confusa, vivendo de um humor de situação e de personagem, optando o minucioso Soderbergh por um estilo de comédia glamour que se demarca totalmente do thriller perfumado mas correcto e educado do episódio anterior. Em Twelve, apenas o perfume é transportado. A educação ficou em casa. A associação que o espectador precisa de fazer entre cada cena para perceber o enredo muitas vezes simplesmente não está lá. Por que há de estar? O que importa é a individualização de cada cena, os caricatos momentos de refinada comédia que não vem nos livros tradicionais. Momentos de cair o queixo, tal é a ousadia de Tess, a personagem de Julia Roberts, a disfarçar-se de Julia Roberts por ser parecida com a própria apenas, para ser desmascarada por Bruce Willis, também a fazer dele próprio.

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Todo o elenco estelar entrega deliciosas interpretações que gozam com a sua própria imagem enquanto actores, um pouco ao estilo recente de This Is The End, embora em Ocean’s Twelve as personagens sejam de facto personagens e não versões dos próprios actores. Não há forma de escapar a um sentimento de comiseração perante esta trupe de ladrões que na verdade são super estrelas de Hollywood (pessoas “inatingiveis”) em que parece que tudo corre mal. Soderbergh insere ares de aparente amadorismo técnico (que está longe, muito longe de o ser na realidade) que fazem com que não apenas a estilosa parvoíce das personagens pareça amadora, mas também tudo o resto. O propositado movimento de câmara irrequieto que segue as personagens, como se se tratasse de um reality show, falas que se atropelam, planos singulares tirados da cartola, tudo cria um sentimento de hilariante espanto no espectador que se irá regozijar com todos os pequenos detalhes. Há espaço para tudo, desde vermos Brad Pitt e George Clooney a ver uma novela às 5h da manhã enquanto bebem vinho, a Soderbergh filmar um avião a aterrar na horizontal. Quase todas as cenas do filme são memoráveis e aqui não há ironias (essas, fantásticas, dá-nos o próprio filme).

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Ocean’s Twelve não foi nem será um filme para todos os públicos e menos ainda para a maioria do público rígido de Ocean’s Eleven, que tanto insistiu numa sequela semelhante ao primeiro episódio que acabou por levar com a xaropada ensossa que foi Ocean’s Thirteen. É um filme que amadurece verdadeiramente com o tempo, recheado de cenas inesperadamente marcantes, de um perfume glamoroso que raramente se sente, de uma aproximação a um estilo amador pontuado por pequenos luxos. Ocean’s Eleven será sempre um pequeno marco, mas Twelve é o cinema de autor hollywoodesco despido de preconceitos que tão raramente obtemos e que Steven Soderbergh, de vez em quando, lá nos vai oferecendo (recordo neste seguimento o fantástico Haywire). É aquele que vai ser lembrado pela sua originalidade e ousadia, e que felizmente já é cada vez mais aceite entre o público. É de longe, muito longe, o episódio mais interessante da trilogia. Que repita muito mais vezes na televisão.

David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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