Poltergeist

Poltergeist

Poltergeist

Foi em 1982 que Tobe Hooper, o mítico realizador de Texas Chainsaw Massacre (1974) que até esteve no MotelX de 2013, realizou o original Poltergeist, um filme de terror que se veio a tornar de culto e que traduz na perfeição a noção de cinema de terror americano na década de 80. É neste ano de 2015 que Gil Kenan, assumido fã de Poltergeist, realiza o seu remake (na verdade não será bem um remake, como adiante veremos).

Quando esta nova versão de Poltergeist foi revelada a excitação foi muita. De entre a desconfiança habitual perante remakes de clássicos de horror ao puro entusiasmo de rever algumas cenas marcantes de um dos ícones dos anos 80, gerou-se a adequada antecipação perante um filme que a mereceria pelas circunstâncias. Mais tarde, surgiu o trailer que anunciava o novo Poltergeist como um filme apontado a um público mais jovem, com um terror mais contido e reminiscente do sentimento de respeito e ingenuidade que caracterizou o género na década de 80. Essa direcção encontrou duras críticas perante um público de 2015 cada vez mais impaciente e sedento de imagem que vai alimentando uma larga fatia das receitas do cinema do género. A dualidade entre a direcção que o filme inicialmente pretendia e a que uma larga fatia de público que se manifestou contra essa abordagem queria acabou por criar neste Poltergeist um produto desequilibrado, mesmo dentro da sua própria estrutura, com uma primeira metade totalmente diferente da segunda.

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Com efeito, a primeira metade do filme procura alimentar essa sede cinema de horror actual que vê Insidious ou The Conjuring como grandes pilares, e as influências são notórias (não só na primeira metade como em todo o filme). Poltergeist arranca apressado, com muita coisa para dizer em apenas 90 minutos, e em pouco mais de 5 minutos expõe a “trama” clássica de terror em que uma família se muda para uma nova casa que está assombrada. A primeira metade preocupa-se em criar susto de forma atabalhoada, e infelizmente sempre fácil e previsível, ainda que essa forma de fazer terror tenha também o seu charme quando a sua linguagem é bem entendida. Nota-se que Gil Kenan a entende (nem que seja vagamente), mas é visivelmente feita de forma apressada e ineficaz.

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Despachada a fase de sustos, Poltergeist toma o rumo que sempre pretendeu, demonstrando um espírito totalmente diferente do oferecido na primeira parte, relaxado e brincando até com alguns chavões do cinema de terror que ele próprio cometeu antes de aqui chegar. É finalmente nesse momento que Poltergeist se torna interessante, com uma ou duas cenas realmente bem executadas. Infelizmente é pouco mais que isso. Não temos tempo nem desenvolvimento para extrair verdadeiro talento do bom leque de actores (de Sam Rockwell espera-se sempre muito) ou para sentir suspense ou medo, se bem que essa não era claramente a intenção do filme. É provável que muitas cenas tenham ficado de fora do produto final, o que justificaria o desequilíbrio de comportamento ao longo do filme.

Poltergeist não é tão mau como muitos o pintam. Tem espírito suficiente para se perceber que está presente amor e respeito pelo filme original, demonstrando que este não é apenas um projecto para fazer dinheiro. Por vezes, particularmente na segunda metade, o filme resulta, mas o produto final acaba por ser muito desequilibrado por não ter tido a coragem suficiente de seguir o rumo que queria até ao fim. Fica a lição para o género: nem sempre o que o público pede é o que o filme deve dar. Perdeu-se aqui uma oportunidade de fazer algo realmente interessante.

5estrelas

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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