Mundo Jurássico (Jurassic World)

Mundo Jurássico (Jurassic World)

Mundo Jurássico

Jurassic Park, de 1993, foi sem dúvida um marco no cinema de entretenimento americano, liderado por um Steven Spielberg ciente que aquilo que estava a fazer se iria tornar uma marca. Mas mais que elogiar o filme original pela sua magia, suspense, mistério e fascínio pelo desconhecido, a verdade é que Jurassic Park marcou uma geração, e principalmente uma geração de crianças que passaram a ver nos dinossauros um mundo fascinante e único do qual queriam fazer parte. Provavelmente nunca se falou tanto de dinossauros como nessa altura. Desde os inúmeros brinquedos ao icónico poster do filme (fundo preto com o símbolo do parque a vermelho), passando por exposições, Jurassic Park ficou na História e foi visto e revisto ao longo dos anos. Era pesada a herança que o realizador Colin Trevorrow trazia às costas ao propor-se fazer Jurassic World, ainda que ninguém espere mais que um filme de entretenimento assente nos valores modernos do género, principalmente depois do pouco apreciado Jurassic Park III (e cuidado, já lá vão 14 anos…).

jurassic world 3

Consciente de que tudo pode correr mal, como regra geral acontecia nas sequelas directas dos êxitos de bilheteira dos anos 80 e 90, Jurassic World sabe que está a lidar com um público exigente que não irá perdoar facadas no filme original. Felizmente, e mesmo não sendo as expectativas muito altas de forma geral, Jurassic World faz um bom trabalho. É inteligente o suficiente para se aproximar da magia do filme original e para lhe injectar uma nova vida e novas personagens, ainda que não resista a um ou outro toque de preguiça para agrado de um público talvez menos exigente.

Jurassic World começa bem, muito bem até. É saborosamente lento a desenvolver-se e a apresentar o parque de dinossauros, as personagens e o enredo que sempre soubemos qual iria ser (qual é o mal disso? afinal não estamos ali para ver pessoas a fugir/enfrentar dinossauros?). Apesar de Jurassic World tentar criar algum deslumbramento com a revelação das incríveis criaturas, a verdade é que nunca seria o mesmo que tivemos com o primeiro filme, e não há nada de errado nisso. Aliás é só humilde que o filme não o tente fazer, preferindo outras abordagens como mostrar algumas das atracções do parque tal como a alimentação do gigante dinossauro marinho, ao estilo golfinhos do jardim zoológico. No que toca à revelação do Indominous Rex em específico a história já é outra… Seria tão bom que este parque existisse realmente…

jurassic world

A primeira metade do filme é forte, muito forte, em termos da construção de suspense e da apresentação das personagens. Insere-nos num mundo excitante de onde não queremos sair e é por aí, a meio do filme, que temos uma ou duas cenas, provavelmente as melhores do filme, que transpiram inteligência e respeito pelo género do thriller de suspense. Infelizmente, é depois desse momento que o filme se desequilibra um pouco, pois se foi sóbrio, tenso e compacto até aí, a verdade é que a tensão e o respeito pelo enredo e pelo género não se mantém até ao fim, preferindo Jurassic World tomar uma direcção mais favorável a um público generalizado, desdramatizando a coisa, e pontuando a trama com momentos de humor que talvez fossem desnecessários mas que se aceitam. Será na verdade um pouco à imagem da aproximação humorística de Missão Impossível IV: Ghost Protocol em comparação à aproximação tensa, séria e sóbria de Missão Impossível III. De resto, a certo momento, o filme torna-se apressado, confuso, com muitos planos para resolver o problema que se coloca e muita gente de um lado para o outro. Se a primeira metade homenageia o Jurassic Park original em termos de ideia, a segunda é sem dúvida referente à aberta, pouco contida e repleta de acção (e pessoas) sequela The Lost World: Jurassic Park.

Sem dramas e sem tabus, Jurassic World finalmente existe e não é uma porcaria, apesar de também não ser excelente. Não estraga o filme original nem se substitui a ele. Acima de tudo respeita-o, reciclando-o para uma nova geração, exigente, seguindo modelos seguros no género de entretenimento que Hollywood nos vem oferecendo e bem nos últimos tempos. É muito excitante, por vezes desequilibrado, mas inteligente e de bom gosto. Diverte, diverte muito, e é para isso mesmo que ele serve e para que os dinossauros em CGI servem. A existir outro filme, que saiba ter a humildade e o respeito que este teve, porque está sem dúvida de parabéns. Expectativas superadas.

7estrelasDavid Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

Facebook