Flashback especial: O Barão

Flashback especial: O Barão

O Barão

Em homenagem ao actor Nuno Melo, que precocemente nos deixou no passado dia 9 de Junho, a RTP2 exibiu este fim-de-semana um dos trabalhos mais icónicos da sua carreira: O Barão. A abertura refere o remake de um filme proibido pela ditadura fascista. Valerie Lewton, uma produtora estrangeira refugiada em Portugal nos anos 40, teria casado com um actor português e realizado um filme maldito que seria censurado pelo regime de Salazar. Depois do exílio da equipa, os actores teriam sido enviados para o campo de concentração do Tarrafal, onde viriam a falecer. O material, descoberto após o 25 de Abril, teria sido então recuperado no cineclube do Barreiro…

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Adaptado por Edgar Pêra e Luísa Costa Gomes a partir do conto homónimo de Branquinho da Fonseca, O Barão conta a história de um tirano sinistro (Nuno Melo, distinguido por este papel pela SPA) que domina uma pequena aldeia no interior do país – um lugar povoado por ruídos e sombras, onde parece ser sempre de noite. Um inspector escolar (Marcos Barbosa) desloca-se ao local a pretexto de investigar o caso de uma professora problemática (Marina Albuquerque), acabando por se tornar seu hóspede e quase prisioneiro – circunstâncias que lembram a visita de Jonathan Harker à Transilvânia no livro de Bram Stoker. Como Dracula, o barão recebe o seu convidado dando-lhe de jantar – mas não se alimenta – numa sala onde existe um quadro que o representa e denuncia uma particular passagem do tempo. Adivinha-lhe os medos e pensamentos, rosna como se pudesse transformar-se num animal, a sua voz confunde-se com os uivos de animais nocturnos que rodeiam o seu “castelo”. As semelhanças com o Dracula de Bram Stoker ou o Nosferatu de Murnau não se ficam por aqui. O barão é atormentado por um amor incumprido, no caso o amor à elegante e também sinistra Idalina (Leonor Keil), uma criada que deambula pelo castelo como um fantasma. O seu delírio de poder é em parte reacção ao ressentimento provocado por esse amor frustrado, mas transforma-o num autocrata embriagado da sua megalomania.

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Pelo tema, pela extravagância na forma (onde consegue ser altamente original mantendo uma aura de objecto vintage), pelo preto-e-branco de alto contraste ou pela utilização peculiar da legendagem (as legendas fazem parte da composição cénica, movendo-se pelo ecrã), O Barão é uma experiência cinematográfica rara no panorama português. É verdade que a montagem e o recurso exagerado aos fumos e à distorção/sobreposição das imagens se tornam, a espaços, algo cansativos. Mas fotografia de Luís Branquinho (neto do autor do conto) é exímia na concepção daquela atmosfera espectral e no tratamento da personagem do título. Os permanentes jogos de iluminação vão transmutando a figura do barão ao longo do filme, revelando-o ora vulnerável, ora implacável e enlouquecido, transformando Nuno Melo num Dracula lusitano memorável. À alusão vampiresca acrescentam-se elementos bem portugueses: a referência ao despotismo decadente em pleno Estado Novo, aos “amigos de Coimbra” ou a performance inesperada de uma tuna (interpretada pelos Vozes da Rádio), um dos momentos mais inusitados do filme.

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Estamos perante um dos poucos exemplares de um trabalho português no género do terror – embora esta classificação não deixe de ser um equívoco, ou pelo menos um reducionismo. Na verdade, O Barão é muito mais do que isso: Trata-se de uma fantasia gótica neo noir (temos o submundo, a luz e a sombra, o investigador e o investigado, a mulher fatal) que homenageia uma personagem literária intemporal, o expressionismo alemão no qual a estética noir se inspira e o cinema americano de terror de classe B (em particular, os filmes de Ed Wood e seus caricatos “efeitos especiais”). Com poucos sustos e uma larga dose de humor ácido, estamos perante uma sátira política e um filme-tributo que assume as suas óbvias referências e as suas fontes de inspiração – ver um filme assim é um deleite para qualquer cinéfilo. Nuno Melo, o “actor fora da norma”, consegue aqui o momento dourado da sua carreira, num papel que tira o máximo partido do seu semblante estranho, da sua articulação vocal particular, do seu carisma, do seu porte de vagabundo aristocrata e de uma teatralidade que lhe era tão natural. Se em tempos idos ele foi Caniço, nos últimos anos ele era o Barão. Será difícil esquecer as palavras que nos deixou no grito dessa personagem, que agora lhe assentam como nunca: “Aqui quem manda sou eu”.

Edite Queiroz

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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