Snot no RCA Club (24/06/2015)

Snot no RCA Club (24/06/2015)

#44 Snot

Texto por Raquel Silva / Fotos por Hugo Rodrigues

É Verão. Se há altura boa para revivalismos, é nesta estação. Numa noite fresca e de céu limpo, foi tempo de assistir ao regresso dos Snot, numa altura em que o acordar de bandas adormecidas parece ser cada vez mais regular.

O motivo da dormência destes californianos não é dos mais comuns. A perda do vocalista ainda em tenra idade da banda conturbou-lhes o percurso e a evolução. Get Some, no entanto, ganhou o seu lugar icónico na cronologia da música pesada. E por isso, sabíamos ao que íamos.

A arrancar a noite, pouca coisa seria mais assustadora. Os Sunflower Dead são uma aposta de Mike Doling e Dave Fortman, e acompanharam os conterrâneos na tour europeia (assim como os Kyshera, que não actuaram em Lisboa). Exibem um estilo bastante desconcertante – figuras negras e bizarras, sem expressão no olhar e com pinturas faciais aterradoras, assim se apresentaram a um RCA ainda a meio gás e reticente em aproximar-se – não que isso viesse a ser problema para Michael del Pizzo, que prontamente se chegou aos presentes. A iniciar a sessão, o vocalista entra em palco com um acordeão ao peito, sorrindo ao pequeno público e dando início a um concerto disturbed vs godsmack-esco que contou com uma cover de Every Breath You Take dos The Police. Se na voz de Sting percebemos que é claramente uma música romântica, o tema interpretado por del Pizzo e companhia ganha uma dimensão completamente diferente. Imaginem ter esta pessoa a olhar-vos bem fundo nos olhos e a cantar “Every breath you take / every move you make / every bond you break / every step you take / I’ll be watching you”. Estás basicamente fodido, perdoem o meu francês.

Quem viveu os tempos aureos do nu metal (e quem não?), terá certamente cruzado caminhos com os Snot. Deles, não se esperava menos do que ofereceram. Não há uma forma fácil de encaixar um membro tão central numa banda que perdeu a sua cara, e os Snot bem o tentaram nos últimos anos. Agora não têm uma cabeça, são uma unidade. Carl Bensey assume perfeitamente o papel no centro do palco, enquanto o recinto se compõe e Lisboa se aproxima da banda, destruindo o centro da sala ao som de “Snot”. De nada servirá correr a setlist que os californianos escolheram para o concerto. Podemos antes elogiar a simpatia e presença da banda e podemos elogiar o público que não se permitia parar (mas hey, também nada pedia que se parasse). Com “Deadfall”, e a parelha “Tecato”/”Br. Brett” nos pontos mais altos de pancadaria, a sala teria deixado Lynn Strait (e Dobbs) orgulhoso. Não havendo mais Get Some, terminou-se uma noite gloriosa com “Absent”, de Strait Up, album de colaborações a celebrar 15 anos.

Nem todos os regressos valem a pena, mas este não é certamente o caso; dificilmente alguém saiu desiludido da sala – público e banda. Se assim não foi, olhem: Fuck the record! And Fuck the People!

Multi-tasker no Arte-Factos. Ex-Director de Informação no Offbeatz e Ex-Spammer na Nervos. Disse coisas e passou música no programa Contrabando da Rádio Zero.

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