Flashback: Winter Light

Flashback: Winter Light

Nattvardsgästerna

Por muitos considerado o melhor realizador de todos os tempos, incluindo a opinião do mestre Jean-Luc Godard, Ingmar Bergman continua a esgotar salas em 2015 sempre que é recordado. Por cá a recordação faz-se pelo Espaço Nimas, em Lisboa, e no Porto no Teatro Municipal Campo Alegre. A propósito algumas linhas sobre Winter Light, a Luz de Inverno, uma das mais notáveis obras de Bergman que é também a segunda obra da sua apelidada «Trilogia da Fé», completa pelos não menos brilhantes Through a Glass Darkly/Em Busca da Verdade e The Silence/O Silêncio, de 1961 e também 1963, respectivamente.

Como na esmagadora maioria dos filmes de Ingmar Bergman não existe sinopse que faça justiça à longa metragem, sendo a oficial a de que um padre de uma zona rural duvida da sua fé. É um facto que é isso que se passa nesta Luz de Inverno, onde este padre, soberbamente interpretado por Gunnar Bjornstrand, começa a duvidar da sua própria fé conforme se desenrola a tarde durante a qual se passa toda a “acção”.

winter light

Não há muitas palavras que sirvam para descrever a técnica de Bergman como expositor de seres humanos, do seu pensamento e consciência (que nunca se confunda Bergman com um contador de histórias). Em Luz de Inverno, tal como nos mais delicados filmes do realizador, vemos, sentimos e pensamos dentro de uma apresentação simples em termos de informação e imagem, aqui sobre o tema da religião. As personagens são apresentadas de forma pausada e oportuna, apresentando questões complexas (complexíssimas) de uma forma simples à medida que vamos conhecendo alguns elementos da vida passada deste padre, apenas os necessários, o que pensa a população desta zona rural e consequentemente o que pensam os agentes da Igreja através situações/questões tão simples e naturais como a própria vida e morte.

A mestria de Bergman, aquela que nos arrebata cada vez que vemos os seus melhores filmes (difícil será encontrar um abaixo do excepcional), está na humildade e habilidade de apenas destapar o véu das profundas questões que procura não explorar mas antes relembrar ao espectador. Nesta Luz de Inverno, Bergman não toma posição sobre questões religiosas, não critica a Igreja nem a enaltece. Ela existe e cabe a nós reconhecê-la enquanto instituição e, mais longe, enquanto característica da sociedade humana. Sim, humana, e é esse o tema principal de esmagadora maioria dos filmes do sueco. Os segredos que escondemos, os nossos medos, as nossas formas de pensar, o terra-a-terra versus o simbolismo e a complexidade de tudo. Basta que paremos um pouco para pensar, e é isto que nos propõe Winter Light.

Desengane-se quem pensa que Luz de Inverno, assim como a obra de Bergman de um modo geral, é apenas dirigida a uma elite de cineastas com demasiado tempo livre. Winter Light é um filme acessível e aberto para todos. Só precisa de o questionar quem quiser uma vez que está construído por camadas, começando na simples narração de alguns episódios da vida deste padre ao destapar de questões mais profundas, de amor, de respeito, de pura religião.

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Este é sem dúvida um dos mais ricos ensaios de Bergman, uma obra-prima digna do seu mestre, que alia a majestosa simplicidade do seu tema à soberba simplicidade da sua realização. Tudo no seu lugar. Tudo com o seu espaço. Económico, respirável, arrebatador, de olhar clínico e exacto. Em 2015 Ingmar Bergman continua impressionante em tudo, sendo difícil de conceber como é que um homem, aparentemente como os outros, deu lições em quase todos os géneros de cinema, do terror à comédia, do drama ao romance, passando por filmes infantis e por épicos históricos. Winter Light é apenas uma das inúmeras obras-primas dignas de nota máxima do realizador sueco que está de volta em mais um ciclo a não perder no nosso país.

David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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