The Clouds of Sils Maria (As nuvens de Sils Maria)

The Clouds of Sils Maria (As nuvens de Sils Maria)

As Nuvens de Sils Maria

O muito elogiado The Clouds of Sils Maria, último trabalho do cineasta francês Olivier Assayas, é uma narrativa tripartida (prólogo, desenvolvimento e epílogo) que convida a uma divagação sobre o teatro, o cinema, a passagem do tempo e o processo de envelhecimento. Juliette Binoche interpreta Maria Enders, uma actriz consagrada na casa dos quarenta que deve grande parte do seu sucesso ao seu primeiro papel – a adaptação cinematográfica de Maloja Snake, uma peça de Wilhelm Melchior (com um enredo vagamente inspirado n’ As Lágrimas Amargas de Petra von Kant, de Rainer Werner Fassbinder) sobre a relação de uma executiva de meia-idade com uma jovem. Duas décadas volvidas e após saber do suicídio de Melchior, de quem era próxima, ela é convidada a regressar nos palcos ao texto que a celebrizou. Mas com um ligeiro twist: em lugar de desempenhar a jovem Sigrid, Maria deve agora assumir o papel de Helena, a mulher mais velha. O papel de Sigrid é atribuído a Jo-Ann Ellis (Chloë Grace Moretz), uma estrela em ascensão celebrizada pela participação em blockbusters e pelo frisson que provoca na impressa cor-de-rosa.

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O filme vive sobretudo da sua segunda secção, que explora o processo de preparação da peça nas montanhas de Sils Maria, onde Maria se isola com a jovem Valentine (Kristen Stewart), sua assistente pessoal e confidente que a ajuda a encarnar Helena lendo as falas de Sigrid. Os ensaios e conversas entre ambas permitem deambular pelas temáticas do filme, reflectindo dificuldades transversais ao conflito geracional. Há um confronto de vivências, atribuições e valores que partem das circunstâncias (por exemplo, resistência de Maria em utilizar a Internet) e se alargam a um debate mais alargado que discute o choque entre o passado e o presente. Em muitos momentos, o texto da peça e as palavras da vida real são difíceis de discriminar, formando um jogo de espelhos entre real e ficcionado que oferece uma perspectiva endurecida do meio artístico e dos vícios que habitam os bastidores do cinema e do teatro: o ego exacerbado dos actores, realizadores e dramaturgos (ou as suas singulares inseguranças), a frivolidade do meio, a permeabilidade da arte às exigências do contexto, o preconceito da indústria cinematográfica em relação às suas actrizes mais velhas, a precariedade intelectual de algum cinema. A própria escolha das actrizes não poderá ter sido acidental. Binoche é também uma actriz consagrada, que representa um certo estilo clássico que o cinema tem vindo a perder. Stewart é a mais recente enfant terrible da nova geração de actrizes, com um percurso próximo do da personagem de Jo-Ann Ellis, cujo valor e popularidade dependem não apenas do seu trabalho mas da sua visibilidade nos tablóides. A química entre as duas actrizes funciona realmente e beneficia em muito destas particularidades. É preciso dizer que se a prestação de Binoche não é surpreendente (o papel assenta-lhe como uma luva e tem mesmo algo de autobiográfico), a de Stewart consegue sê-lo (em grande parte, isso deve-se a uma expectativa diminuída pela sua trajectória e pelos filmes que a popularizaram). O seu desempenho confiante e maduro valeu-lhe o César para melhor actriz secundária e tornou-a na primeira americana a receber este galardão.

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No entanto, o aspecto interessante da relação entre Maria e Valentine prende-se mais com as conexões entre as personagens e as actrizes do que com o conteúdo do debate, onde os temas acabam por ser esmiuçados em demasia sem acrescentar nada de novo à discussão – ao contrário do que acontece em abordagens recentes do mesmo universo, como o corrosivo Maps to the Stars, de Cronenberg. Além disso, as belas imagens do filme – como as que nos mostram a serpente de Maloja, um fenómeno natural da região de Sils Maria, nos alpes suíços, onde uma densa formação de nuvens lembra a forma de uma serpente e sinaliza o mau tempo – não sustentam as duas horas de duração e a estranheza do ritmo (que não é o do teatro nem o do cinema). Em particular, a transição da secção central para o epílogo, marcada por um acontecimento misterioso que a narrativa não resolve, falha redondamente, provocando uma alteração brusca no ambiente e um salto incómodo na narrativa. Em suma, The clouds of Sils Maria vale pelo exercício de mise en abyme e pela confirmação de Kristen Stewart como muito mais do que a Bella de Twilight, mas não será tão sumarento como prometia.

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Edite Queiroz

Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra.
Psicóloga. Cinéfila.
Vive em Lisboa.

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