Super Bock Super Rock - 1º dia (16/07/2015)

Super Bock Super Rock – 1º dia (16/07/2015)

#1 Ambiente

Fotos por Hugo Rodrigues

Crónica do dia 1, com Perfume Genius, Noel Gallagher, SBTRKT ou Sting. Dia do renovado lenhador, dos velhos anos 90 ou da electrónica explosiva vinda de terras britânicas.

19:30h, caos e filas imensas para trocar bilhete pela pulseira. Altura também para perceber que, embora envolva o antigo Pavilhão Atlântico, há um recinto fechado de festival. Não é um conjunto de espaços vedados, como sucede no Mexefest.

Uma hora de espera depois, altura para entrar no recinto. Já lá vai a frescura pop dos Duquesa, o projecto mais veraneante de Nuno Rodrigues, dos Glockenwise. Também só se ouvem os últimos temas de Perfume Genius. Dá para sentir a alternância entre a enorme garra interpretativa vocal e a timidez do jovem por detrás do músico. Fechou com “Queen”, talvez o seu tema mais conhecido, e parece que sentimos a voz demasiado ao longe. Uma questão de acústica do espaço, em que alguns sons são levados pelo vento e… pela pala do Pavilhão de Portugal.

#23 The Vaccines

Entretanto, hora de dar o primeiro salto ao palco principal do antigo Pavilhão Atlântico. É lá que estão os The Vaccines. Recordações de 2011, quando alguma imprensa britânica os apelidou da última coca-cola do deserto, de novos Oasis, etc, etc. Não o foram e não o demonstraram no Super Bock Super Rock desse ano, num concerto muito verdinho. Agora parecem ter a fórmula mais apurada, mais enérgica e, é objectivo, levaram o público ao rubro com “If You Wanna” e “Norgard”, temas do primeiro disco e com que se despediram do público português. Por falar em Oasis, um deles foi o senhor que se segue neste palco, mas entretanto é hora de entrar numa odisseia electro-psicadélica.

Cinco losangos em fundo, uma japonesa florida com óculos de sol, um ermita nos teclados, um baixo e uma bateria. A electrónica dos Little Dragon é bastante orgânica ao vivo. E vive muito do show performativo da vocalista sueco-japonesa Yukimi Nagano, que compensa algumas falhas técnicas (ampliadas pela acústica) com uma pose de puro espectáculo. No esoterismo, no psicadelismo místico, terão alguma semelhanças com os Gang Gang Dance. Mas são menos cerebrais e, acreditamos, com menos talento musical. Cativam algumas centenas de festivaleiros, mas ainda longe de qualquer enchente.

Continuando por terrenos psicadélicos, ainda menos espectadores têm os Gala Drop, no palco da Antena 3. Uma pena, quando parece que o corpo musical que falta aos Little Dragon é profundamente atingido pela banda portuguesa. Um psicadelismo musculado e frenético que, estando longe de ser catchy, funciona muito bem ao vivo. Basta ouvir a aceleração de “Sun Gun” para percebermos do que falamos. Há muito o espírito de não vermos algumas bandas nacionais em festival, porque teremos outras oportunidades de o fazer (mesmo que acabemos por não o fazer). Uma pena.

#45 Gala Drop

Voltamos ao antigo Pavilhão Atlântico e escutamos “Champagne Supernova”. Logo a seguir temos “Whatever”. À entrada, ouvimos o comentário de uma jovem dos seus 18 anos: “Isto é música para gente mais velha”. Enfim, já não estamos nos anos 90 e estes já não são os Oasis. São os High Flying Birds, de um dos manos Gallagher, de Noel. A seguir aos dois temas da banda mãe, regressam os originais da nova banda e os ânimos acalmam. Foi competente, não foi excêntrico (e vindo de um destes manos endiabrados, não é coisa garantida), mas também não foi entusiasmante. E fica a nota do calor que se começa a sentir no espaço.

Do rock para a electrónica, voltamos à pala do Pavilhão de Portugal. Quem ouve os SBTRKT dias depois de ouvir os Disclosure, percebe que, no domínio de uma espécie de house britânico, estamos noutro campeonato. Para melhor, neste caso. Para francamente melhor. Aqui sentimos que estamos realmente num concerto. Não só pela voz ao vivo de Sampha em alguns temas, mas também porque a bateria tem mais impacto e há uns impulsos de ruído e umas variações de frequência com outro nervo. Em vez de um DJ set com passagens em falso, é música que se expande ao vivo e com sentido de espectáculo (o “momento estátua” foi disso exemplo). Uma boa surpresa na noite de arranque do festival.

#58 SBTRKT

Quem passa de SBTRKT para Sting, pode suspeitar que mudou de festival. A diferença de idades é gritante. E vê-se uma massa humana que parecia ausente do SBSR (muita gente terá visto apenas Sting nesta primeira noite). Gordon Summer terá aderido à moda de lumbersexual? Com uma barba farta, surge em palco com um toque mais jovial e mais interventivo do que há uns anos no Rock in Rio. Os concertos a meias com o grande Paul Simon andam a fazer-lhe bem. E houve mais Police que Sting a solo, o que foi uma boa e surpreendente ideia. “Walking on the Moon”, “Message in a Bottle”, “So Lonely” ou um “Roxanne” mesclado com uma versão do clássico “Ain’t No Sunshine”. Tudo num concerto mais rock, menos acomodado, com um violinista surpreendente e uma banda ultra-rotinada, capaz de jogar devidamente com as emoções. Houve coisas menos boas, como um ou outro solo de guitarra escusado ou uma tentativa pavorosa de Sting substituir Cheb Mami, em “Desert Rose”. Não foi perfeito, mas surpreendente para quem estava à espera de um concerto “adulto” (no pior sentido do termo).

Quem procurava outros sons, mais electrónicos, tinha os Toro y Moi na Sala Tejo. Entramos e parece quase um concerto de shoegaze. Muito mais da acústica do que do som em si, apostamos. Ouvimos que parece um concerto de garagem. Palavras sábias. Até porque pouca gente ficou para ouvir a chillwave (ainda se lembram do termo?) de Chaz Bundwick. Foi, assim, um concerto muito morninho, pouco entusiasmante, com espaços entre os temas pouco preenchidos. Houve algum impulso dançável nos temas mais funky, como “New Beat”, mas, diríamos, uns furos abaixo do que, há uns anos atrás, apresentaram num Mexefest.

No regresso à sala principal do Pavilhão Atlântico, houve ainda o jovem francês Madeon, de apenas 21 anos. Uns pozinhos de french touch e um imponente arsenal de luzes e imagens não chegam para mascarar o lado histérico característico de um Hardwell e de Avicii (e isto não é o Sudoeste). Tempo haverá para Madeon escolher se fica ou não do lado bom da música electrónica. Electrónica que continuaria também na Sala Tejo, com os bem interessantes Mirror People, de Rui Maia, e com Xinobi. Mas era momento de recuperar forças para o grande dia, o de Damon Albarn e companhia.

João Torgal