Super Bock Super Rock – 2º dia (17/07/2015)

Super Bock Super Rock – 2º dia (17/07/2015)

#85 Blur

Fotos por Hugo Rodrigues

Dia 2, com Benjamin Clementine, Jorge Palma e Sérgio Godinho, Bombay Bicycle Club ou Blur. Entre a elegia ao piano e o regresso a Portugal do músico mais genial das últimas décadas.

Viveu-se um momento idílico ao final de tarde. Benjamin Clementine parece perdido, ausente. Tem momentos de deambulação e, quando fala com o público, parece muito mais uma conversa interior do que outra coisa. Só que depois canta. E, quando o faz, entramos no caminho dos deuses. Uma voz que nem a pala do Pavilhão de Portugal consegue minar. Só ao piano ou com outros pequenos elementos instrumentais, com destaque para o violoncelo, sentimos uma beleza que nos arrebata e que nos arrepia vezes e vezes a fio. Até porque, palmas para o público, há globalmente um silêncio respeitador. Quando fecha com “Condolence” (não houve, infelizmente, “Cornerstone”), sentimos ter ouvido uma soul muito, muito particular e ter assistido a algo mágico. Para além de ter sido concerto certo na hora certa, o que é óbvio, quase que comparávamos este momento à sensação única que foi ouvir Charles Bradley no ano passado. Pode ser exagero, mas não importa.

#6 Benjamin Clementine

Seguem-se, no mesmo palco, os Kindness. São, como já tinham mostrado no Mexefest, uma malta bem divertida. Temos quase uma dezena de músicos, com várias vozes, baixo e teclados funky.  Passam por “Somebody to Love”, de Whitney Houston, põem a malta a cantar em “House” e o líder Adam Bainbridge, com um imponente fato azul, espalha charme junto da plateia. São, excepto ele, miúdos na casa dos 20 e poucos anos e deixam no ar uma sensação de frescura, de festa agradavelmente descontrolada. Descontrole que terminou com uma apropriada e prevista invasão de palco.

Não poderia haver maior contraste entre os Kindness e as Savages. Depois de tonalidades funky adolescentes, a claustrofobia. Depois de Prince (um pouco), o fantasma de Siouxsie Sioux. Música e iluminações austeras, muito “in your face”, capaz de gerar um profundo desconforto e que parece ter sobrevivido bem ao difícil teste de som da pala do Pavilhão de Portugal.

Perdidos os The Drums e a pop electrónica nacional de Da Chick (da qual ouvimos dizer muito bem) e Best Youth, vamos até ao antigo Pavilhão Atlântico para o mais aguardado momento português desta edição do Super Bock Super Rock. Jorge Palma e Sérgio Godinho juntos. E, mais que juntos, cúmplices. O sempre imprevisível Palma parece, sem ofensa, domesticado por um Godinho ao comando das operações. E isso é bom. Passam por “Só”, “Terra de Sonhos” e “Frágil” de um. E por “A Noite Passada”, “Elixir da Eterna Juventude” e “Mudemos de Assunto” (que já tinham cantado juntos no disco Irmão do Meio), de outro. E entre o piano, a guitarra ou só as vozes, acompanhados por diversos músicos, fez-se história. Com menos público do que julgávamos, especialmente atendendo a uma forte presença mais velha no festival.

#45 Jorge Palma & Sérgio Godinho

Abandonamos a meio Palma e Godinho (a custo) para ir espreitar e dançar um pouco com os Bombay Bycicle Club. Não nos surpreende a eficácia daqueles teclados, das harmonias vocais com um toque sonhador, da electro-pop dos britânicos. Mesmo com o som abafado (imagem de marca de todos os palcos), é uma festa bonita, com um vestígio vagamente melancólico. Mas não sabíamos que tinham uma legião de fãs assim, com centenas de pessoas a entoar as letras. Foi o que sucedeu com “Shuffle” ou “Your Eyes”. Já não vimos “Feel” (com um toque oriental) e “Carry Me”, dois dos temas mais entusiasmantes do último So Long, See You Tomorrow. Não vimos e fizemos certamente mal.

Há memórias guardadas, com muito carinho, de um certo concerto dos dEUS. Foi há 3 anos na Aula Magna. Já longe dos tempos áureos, portanto. Ao segundo tema, “The Architect”, as cadeiras foram deixadas para trás e o público levantou-se para praticamente não mais se sentar. Neste Super Bock, “The Architect” foi também o segundo tema. Mas envolvido numa massa sonora indistinta (e cheia de feedbacks), como se os dEUS estivessem a tocar dois andares abaixo, com muito betão pelo meio. A lindíssima “Little Arithmetics” é uma sombra. “Fell Off The Floor Man” uma enorme confusão. E, aí com culpas claras para a banda, “Instant Street” perde muito sem guitarra acústica (falta o intimismo inicial). A acústica e o som estiveram quase sempre do medíocre para baixo, mas poucos terão sofrido tanto como os belgas. Valeu o final. Porque a aceleração sónica de “Bad Timing” conseguiu preservar toda a tensão. E porque “Suds and Soda” será daqueles singles rock dos 90s que nunca soará mal.

#76 dEUS

3 da manhã. Quase esquecemos tudo o que ouvimos para trás (até Benjamin Clementine parece já distante). Só contaram as últimas duas horas. Ou seja, os Blur. Peguemos na dupla “Song 2” e “To the End”. Uma é o momento moche de Albarn e companhia. A outra é dos mais maravilhosos temas de amor alguma vez feitos. Surgem colados e tudo faz sentido. Como faz juntar a beleza mais melancólica do novo “Thought I Was a Spaceman” com o ritmo mais tenso e misterioso do arrepiante “Trimm Trabb”. Ou como há um sentimento tão especial quando cantamos todos, mas todos, o refrão de “Tender” (“Oh my baby…”). Há dois anos, o concerto do Primavera foi incrível. Este pode ter sido ainda maior. Porque esquecemos completamente o calor e todas as deficiências de som. Que existem especialmente no início, quando o novo “Go Out” surge muito confuso ou, por exemplo, a voz de Graham Coxon quase não se ouve em “Coffee and TV”. Porque há uma empatia com o público como se estivessem a dar o primeiro e o último concerto das suas vidas. Porque se sente, tantos anos depois, um prazer vindo do palco que é único. Porque os ligeiros sopros dão ao momento uma carga épica incrível. Porque a guitarra de Coxon é intemporal e única. Porque Damon é o maior e partilhou a interpretação de “Parklife” com o anónimo João. “It really, really, really, really could happen”, cantam eles (e nós) em “The Universal”. Aconteceu mesmo. Orgulho de estar presente. Concerto de uma vida e para a vida.

A seguir, há uns demasiado fritos Gramatik, com um som electrónico chapa, em que o trompete surge  de forma demasiado esporádica e pouco afirmativa. Mas, depois dos Blur, todas as percepções são difíceis. E qualquer missão seria ingrata.

João Torgal