Super Bock Super Rock – 3º dia (18/07/2015)

Super Bock Super Rock – 3º dia (18/07/2015)

#83 FFS

Fotos por Hugo Rodrigues

A chegada do recinto deste que vos escreve só se deu às 21:30h. Motivo: os habituais casamentos de Verão. E coisas interessantes terão ficado para trás: o psicadelismo dos Modernos (projecto paralelo de alguns dos Capitão Fausto), a energia rock dos Palma Violets, a voz e a sensibilidade das composições de Rodrigo Amarante ou a electro-pop dos portugueses Thunder & Co.

Ver os Unknown Mortal Orchestra é a metáfora perfeita para o Verão. O psicadelismo da banda de Portland é fresco e profundamente melódico. Pelos problemas verificados antes, temia-se o pior em termos acústicos. Foi o que aconteceu ao longo de todo o festival no palco do Pavilhão de Portugal, em particular em concertos com alguma ou bastante distorção. Seja como for, a coisa foi aceitável. E, pasme-se, não sendo a voz de Ruban Nielsen das mais afirmativas ao vivo (algo que compensa com a atitude ou com o talento à guitarra), escutou-se razoavelmente bem. Passou por temas irresistíveis, como “Swim and Sleep”, “Ffunny Ffriends” (música incontornável de Paredes de Coura 2013) ou “Multi-Love”. O último, tema título do mais recente disco (com uns pozinhos mais electrónicos), cantado e recebido de forma eufórica, mostra a progressiva popularidade da banda americana. E já mereciam um concerto por cá em nome próprio. Vão tê-lo em Novembro.

#52 Unknown Mortal Orchestra

Damos um salto até ao antigo Pavilhão Atlântico, são 10 da noite e parecem 4 da manhã. E isso, no caso, só pode ser incrível. Pela primeira vez num palco principal, os espanhóis Crystal Fighters criam uma pândega de grandes proporções. Quando chegamos, está tudo aos saltos com “You and I”. Passado um pouco, há massivas bolas de praia pelo ar em “Plage” e, logo a seguir, há toques de kuduro em “I Love London”. Pode não ser tudo bem tocado e haver um espírito de alguma confusão em palco. Mas isso é francamente secundário e só há um aspecto realmente negativo: que falem com o público em inglês. Somos todos ibéricos, por Dios. Fecham com “Xtatic Truth”. “We were born to be alone, everybody all alone, born alone to be alone, we’ll stand alone forever.” Mas eles estão tudo menos sozinhos.

Há tempo para uma ligeira passagem pelo concerto da luso-brasileira Banda do Mar. Apenas dois ou três temas, antes do regresso à MEO Arena. Sente-se, como esperado, o verdadeiro espírito boa-onda, descrito pelas palavras de Marcelo Camelo, que agradeceu o carinho com que a banda tem sido recebida. Pena que a voz de Mallu Magalhães se ouça tão mal. Vamos embora e já não escutamos a versão de “Ana Júlia”. O tema incontornável / praga (depende do ponto de vista) dos Los Hermanos, a banda de Camelo e Rodrigo Amarante, não contou, neste caso, com a presença do segundo.

#77 Banda do Mar

Há um lado orquestral, teatral e excêntrico nos veteranos Sparks, formados há mais de 40 anos. Há uma energia rock que continua a existir nos Franz Ferdinand, banda inteiramente deste século. E há uma paixão mútua e um certo som épico que os aproximou. Assim surgiram os FFS. Em disco e ao vivo. Há temas de ambas as bandas e originais do disco homónimo. Os temas dos Franz Ferdinand são, num público mais novo (e porque os Sparks não são propriamente uma banda mediática), os mais reconhecidos. E “Walk Away” ganha um fôlego especial com os belos teclados de Ron Mael (Sparks). Uma figura imponente, espécie de oficial da Gestapo satirizado pelos Monty Python e que, de repente, começa a dançar de forma frenética (e isto aconteceu mesmo). Globalmente, há uma química boa entre as duas bandas e o conceito global funciona ao vivo. Ainda que, pela enésima vez, o som esteja novamente demasiado abafado.

#90 FFS

Segue-se Florence and the Machine, mas não aguentamos mais que 15 a 20 minutos. A banda pode ser imponente, com percussão reforçada, harpa (instrumento que aproximaram dos terrenos pop ou popularuchos) e sopros. A que se juntam umas luzes em palco, em que ficamos com a sensação que estão sempre a cair confettis. A máquina pode funcionar bem, mas depois há a voz de Florence Welch. E se ela agrada a muitos (foi das maiores enchentes do festival), também quase rebenta com os tímpanos de uns poucos. A que se junta uma pose em palco de pop star esvoaçante, plena de exagero, que é a modos que duvidosa. Ouvimos que pode ser uma espécie de Kate Bush em mau. E assino por baixo.

Florence dominou as atenções, mas houve alternativas agradáveis. Quem ficou a ouvir Criolo (muito espírito canarinho neste último dia), não se deve ter arrependido. Há em algum rap brasileiro, popularizado por Gabriel O Pensador, uma espécie de calor, de onda MPB, que agrada a quem não é fã do género. E Criolo é um bom exemplo, até porque, mesmo nos temas mais hip-hop (e há muito mais que isso, como por exemplo o samba de “Fermento Com Massa”, que não passou ou não chegámos a tempo de o ouvir na Sala Tejo), a cadência é mais de spoken word do que outra coisa. Entre um baixo irresistível e teclados gingões, os músicos que o acompanham são óptimos e há uma cumplicidade entre o palco e a plateia. No final, saímos todos satisfeitos.

O ambiente aqueceu a seguir. O kuduro dos The Shine e o rock experimental da bateria e da guitarra dos Throes continuam a dar cartas juntos. Parece que são sempre os The Shine que fazem a festa, mas quantos dos que entram nesta viagem o fariam se não fosse o lado mais pop e ocidental (à falta de melhor termo) desta jornada? Assim, é uma bela fusão cosmopolita, que pôs ao rubro as centenas de pessoas.

Para os resistentes, o festival fechou com mais uns travos africanos, no DJ set de Djeff Afrozila.

Com dois concertos memoráveis (Blur e Benjamin Clementine) e mais uma boa mão cheia de bastante bons ou festivos, quase todos prejudicados por uma acústica abafada (o caso dos dEUS foi, talvez, o mais gritante), o balanço do SBSR é positivo. Contudo, ficam muitas reticências à continuidade do festival nesta zona do Parque das Nações. O espaço é agradável, mas, em termos de som, exige-se mais. E a acústica do antigo Pavilhão Atlântico não vai certamente melhorar.

João Torgal