A Rapariga Mágica (Magical Girl)

A Rapariga Mágica (Magical Girl)

Rapariga Mágica

Tudo é imprevisível, mas dois mais dois são sempre quatro. É com esta frase que começa A Rapariga Mágica. E poderíamos contestar que nem isso é verdade em determinados conjuntos. Mas deixemos a Matemática de parte. Porque o que importa reter é a metáfora dos cruzamentos aleatórios da vida humana e da espiral absurda das nossas acções. E de um certo labirinto que é, no fundo, a história desta película espanhola. Um labirinto que começa pelo título, que remete para a animação japonesa, paixão da miúda do filme, mas que é muito mais do que isso.

A Matemática, a magia e os puzzles são, aqui, utilizados como símbolos de uma certa encruzilhada moral. E que, felizmente, é suficientemente amoral (e imoral) para ser tida em conta. É um retrato negro de uma Espanha à deriva, esmagada pelo desemprego, pelas futilidades, pela perda de princípios, por uma incapacidade de afirmação. Há referências pontuais ao ensino, ao futebol (tomem atenção ao som de fundo do “duelo” do café) e aos touros mas, acreditamos, são pequenas partes de um todo muito maior.

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Ainda não falámos da narrativa criada por Carlos Vermut. É uma espécie de filme mosaico, em que há uma adolescente em estado terminal e o pai desesperado, a sociopata Barbara e o marido psiquiatra ou o misterioso professor Damián. É no cruzamento das vidas de todos que o filme vai evoluindo. Lentamente, como que a marinar entre os pequenos dramas e as prodigiosos toques burlescos repletos de sensibilidade (o jantar entre pai e filha é um óptimo exemplo). Lentamente até à tensão final. E a um clímax capaz de criar suores frios.

O filme não cria bons e maus. Abre o terreno às personagens e deixa-nos sentir, em poucos momentos, repulsa e simpatia por elas. Não de uma forma previsível, mas aberta. Não responde a todas as perguntas, nem tem de os fazer (só há um momento vagamente previsível na sua imprevisibilidade, que diz respeito à casa misteriosa). E, para que a coisa funcione, há belos desempenhos nas interpretações. De Bárbara Lennie, como… Bárbara. Mas, talvez mais ainda, de José Sacristán, no papel do enigmático Damián.

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Em temos estéticos e narrativos, A Rapariga Mágica anda algures entre o peso dramático mais cru do Iñarritu dos primórdios e um certo lado macabro e perturbador que encontramos nos melhores Haneke. Uma espécie de fusão entre Amores PerrosO Laço Branco. E isso é bom. É muito, muito bom.

9

João Torgal