Milhões de Festa – Dia 0 (23/07/2015)

Milhões de Festa – Dia 0 (23/07/2015)

©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

São umas cinco da tarde quando nos sentamos finalmente numa das margens do Rio Cávado e lhe cheiramos o fresco marinho das águas irrequietas, misturado com o cheiro da carne na preparação da taina ali ao lado. Descalços e relaxados depois de uma viagem pachorrenta de mais de cinco horas desde a capital, e de termos assente a tenda à sombra no parque de campismo, deitamo-nos de barriga para cima e fechamos os olhos. Da margem oposta soam riffs desgarrados de (quase) mil guitarras que rasgam os céus barcelenses entre o balanço altivo da bateria, num palco improvisado por debaixo da ponte para Barcelinhos. Os Ensemble Insano, vulgo aglomerado de monstros musicais e filhos da terra, dão-nos desta forma as boas vindas, tal como acontecia precisamente um ano antes, e anunciam aos quatro cantos e alto e bom som que o festival que pára o Norte e nos retira o norte chegou de novo à cidade do galo – o Milhões de Festa começa oficialmente aqui.

O regresso a Barcelos sabe-nos bem. As gentes são convidativas e sorriem-nos invariavelmente quando nos vêem subir a rua carregados de malas. Já arrumados, vemos gente dos quatro cantos do país e do mundo e reunimo-nos em abraços e beijos com as amizades distantes e os amores perdidos. A própria cidade veste-se de flores e de uma luz ténue e cómoda, de risos de crianças e dos sinos da igreja. A meteorologia nem sempre é estável, mas o calor é uma constante. O programa mostra-nos um dos cartazes mais sólidos de que nos lembramos, e ainda assim, há coisas que não batem certo.

©Renato Cruz Santos

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Nas bilheteiras a fila para a imprensa e convidados alonga-se para lá da da venda de bilhetes e troca de pulseiras, e no campismo ainda sobram lugares à sombra. Perante o que viríamos a notar nas plateias do festival, há que colocar o dedo na ferida – há uma quebra de público no Milhões de Festa. Este, que nunca foi um festival de multidões, vê-se nesta edição mais despido que o costume. É possível que a popularidade que o festival ganha ano após ano contraste com o desejo dos festivaleiros mais reclusos, e que a aproximação às grandes marcas desafie a lógica dos números. Ou talvez o aumento do preço dos bilhetes tenha a ver com a descida do interesse. Teorias haverá muitas e a nossa revolve em torno do tradicionalismo; para uma festa de dimensão tão relativa, e que se gere lado a lado com a novidade e a descoberta, há que manter a centelha e a proximidade acesa, e é possível que a falta de eventos paralelos, como o peddy paper de bandas pela cidade ou as festas que já se fizeram pelo Xispes ou pela Casazul, desencante quem procure mais que o comodismo da dinâmica Piscina-Taina/Palco 1-Palco 2.

©Renato Cruz Santos

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Mas enfim, teorias são teorias e os balanços caberão à organização. Na parte que nos toca, gozámos do espaço para os cotovelos e só temos a lamentar que quem não foi tenha perdido a oportunidade de se sentar na bancada de pedra do Palco Taina com uma caneca de vinho e um chouriço assado no colo, enquanto o sol se punha e um maravilhoso céu estrelado se mostrava sobre o fuzz contemplativo dos Live Low, ou a electrónica ainda experimental da semi-superbanda TA0, composta pelo André Simão (La La La Ressonance), pelo Filipe Azevedo (Sensible Soccers) e pelo Vítor Barros (Equations), até aos convidativos e coerentes Happy Meals e o seu techno digestível, ou mesmo ao rock jovial e melódico dos Cave Story. Visitámos ainda a Rádio Universitária do Minho, que fazia emissão em directo ali mesmo ao lado e nos presenteou com rum e t-shirts de graça, e sentimos uma vez mais os embalos de vida dos Riding Pânico, banda quase tão da casa como o próprio Cávado – concertaço que rivalizou apenas com o duo guitarra-colchão de ar que no campismo arrancou risadas entre goles de gin, de cansaço e de felicidade.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.