Milhões de Festa – 1º dia (24/07/2015)

Milhões de Festa – 1º dia (24/07/2015)

©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

Acordamos na bruma do meio da manhã do segundo dia de festival com o leve e repetido batucar de pingas da chuva no tecido da tenda. Ainda a esfregar os olhos e de cuecas pelos tornozelos, espreitamos lá fora para constatar que o céu se havia fechado em espadas, e que o ligeiro abafo do interior contrasta com uma brisa fria que nos arrepia a pele e os cabelos dos braços. Com um longo bocejo, voltamos a deitar-nos sob um crescente coro de queixumes de tendas em volta que deixaram molhar os sacos-cama e as malas dos vizinhos, e damos graças por a nossa ser tão cómoda e seca.

Entre um duche morno e o pequeno-almoço a chuva desiste e o calor ameno que faz jus ao microclima barcelense regressa, abrindo-nos o apetite para uma visita à piscina, ainda que o sol continue tímido, onde somos recebidos por uma concentração de bóias cor-de-rosa flutuando nas límpidas e calmas águas. Com o público a afluir lenta e receosamente, provavelmente em detrimento do Taina, onde ao mesmo tempo iniciam os O Gringo Sou Eu, estendemos a toalha e arriscamos um mergulho e umas brincadeiras enquanto os Noz, live act de noise tribal de Bernardo Palmeirim, que foi rebuscar o apoio habitual na bateria de Ricardo Martins e ainda o Óscar Silva (Jibóia) no baixo, iniciam a sua actuação, seguidos de perto pelo lounge temperado e instável dos também eles portugueses Yong Yong, chamando o astro-rei a mostrar-se por entre as nuvens.

Já com uma bóia em cada membro (risos), deitamo-nos perto do palhaço chorão para assistir de perto ao espectáculo pimba escorrendo de azeite dos TOCHAPESTANA, ou ao que há muito ouvi ser descrito como tecnobaile. De coletes de cores garridas, óculos de sol e brilhantina no cabelo, a decadência gozona da dupla levou à beira da piscina a primeira enchente, para um bailarico em velocidade turbo que faria furor nas pistas das festas de qualquer vila. Claro que o melhor da tarde estaria ainda para vir, com o chileno Matias Aguayo a delinear por entre as palmeiras do palco as linhas de um tropicalismo sufocante, onde mistura as lianas dos muitos samples vocais com o calor de um psicadelismo ruidoso e frenético, condimentado pelas raízes sul-americanas, que puxa pela jinga de cintura.

Matias Aguayo ©Ana Gilbert

©Ana Gilbert

Ainda com o jantar na boca, seguimos para o recinto para matar saudades da descida relvada rumo ao Cávado, e ouvimos desde logo notícias dos concertos que perdemos no Taina, de onde sobressai a da nudez dos Hemdale, que nos fazem pensar que teremos escolhido bem entre rabos de homens nús e gatas de biquíni. A tarde faz-se longa e entra pela noite adentro; ainda há luz quando os Tijuana Panthers sobem ao Palco Vodafone.fm, praticamente de prancha na mão, destilando rock de garagem de influências californianas e digestão fácil; no público comenta-se que espanta por parecerem uma banda a sério, o que quer que seja que isso queira dizer.

Com a noite a cair sobre Barcelos, sobem ao palco Milhões os All We Are, ingleses de formação mas de origens espalhadas pelo mundo, com um brasileiro na guitarra a dar-nos as boas noites, uma norueguesa sorridente no baixo e um irlandês na bateria demasiado animado por ali estar. Além de uma bonita cover de Caribou, a banda tocou a melhor parte do alinhamento do seu sublime álbum de estreia, inclusive a subtil Something About You para os casais ouvirem de mãos dadas, e a pop aguda mas doce de Keep Me Alive, soando a uma versão modernista e exótica dos Bee Gees.

Tempo de entrada dos hipnóticos Cosmic Dead, classicamente rotulados de psicadélicos no seu prog alongado, equilibrado em riffs áridos e ecoantes apontados ao espaço sideral; concerto que vimos completamente sóbrios de toda e qualquer substância que o enaltecesse, obviamente, e de olhos fechados, respirando cada nota.

HHY & The Macumbas ©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

Do prog para algo que nada tem a ver, pão de cada dia de um festival que assim se rege, e depois de terem ouvido coisas boas de Portugal dos companheiros Shabazz Palaces, que por cá estiveram em tour há pouco tempo, chegam até nós as norte-americanas THEESatisfaction, um dos símbolos da cena hip-hop que alastra na cidade do grunge, Seattle. Nesta que já foi apelidada de cidade paralela a essa, na sua explosão de bandas e melomania, as duas pretinhas fizeram por puxar do soul e do funk no seu jeito coreografado, encantador e desajeitado, mas sofreram forte revés quando, a dez minutos do fim, se viram sem o mac (comprem um pc), e portanto, sem música de fundo, tendo compensado pela vontade e capacidade de improviso, terminando a actuação a cappella entre risos e pedidos de desculpa. Imprevistos acontecem.

O concerto da noite, elegido por nós sem perguntar a ninguém, terá sido o dos HHY & The Macumbas; eles que já haviam espalhado a sua magia tribal no Palco Milhões há dois anos, abrindo então a noite de festa, voltaram este ano com uma formação bem maior e um crescimento imenso no corpo sonoro. Apoiados por uma fileira de trompetistas, os portugueses criam barreiras electrizantes em ondas constantes, controladas por uma percussão ritualista certeira em ritmos que se confundem com o bater do coração, pujantes na sua força. Jonathan Saldanha assume-se como o homem por detrás da muito literal máscara, o maestro e orquestrador da sinfonia imensa que rega em tons de xamanismo, e que nos varreu de um sopro de uma plateia que não esperava tamanha actuação.

Deerhoof ©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

Os Deerhoof não terão ficado desapontados por se fazerem seguir aos macumbas, nem nós por os ver subir a um palco português. Há uns anos atrás subiam ao de Sines e, contam-nos agora, tocavam para 42 pessoas. “Agora estão mais algumas, para aí umas 49”, brincam. Na verdade a plateia está composta, provavelmente a melhor até aqui, para assistir em força ao caldeirão em ebulição que são os norte-americanos, ícones das bases alternativas durante os últimos vinte anos. Altamente instáveis, desmontam as nossas noções de música e voltam a reconstruí-las perante os nossos olhos e ouvidos, de forma ruidosa e descompassada, e sempre em ritmo elevadíssimo. Satomi, a pequena japonesa que todos levaríamos no bolso, podendo, cantarola em tom de desenho animado enquanto nos dá uma aula de aeróbica, com as pernas tão alto quanto a sua cabeça, enquanto as cordas serpenteiam entre si comandadas pela autoridade da bateria, impossível de seguir com a cabeça e de não seguir com os pés, retirando-nos o fôlego só de olhar.

Ainda sorridentes da porrada melómana, saltitámos de vez para o Vodafone.fm para libertar o bailarino que há em cada um de nós, e piruetar em torno do dance electrónico dos Golden Teacher, claramente mestrados em synths e teclados robotizados e loops hipnotizantes. Eram cinco da manhã mas a energia esvaía-se do palco para dentro de nós, não permitindo um momento de pausa. Pena que a expectativa para o techno de PERC não se materializasse também em festa; os tons repetitivos e monotónicos aborreceram-nos de morte, de tal forma que preferimos ir ver o sol nascer de dentro do saco-cama.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.