Milhões de Festa – 2º dia (25/07/2015)

Milhões de Festa – 2º dia (25/07/2015)

©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

A segunda manhã de festival assume-se como o ponto de equilíbrio, perfeitamente colocado entre o seu início e fim. Tempo inusitado dos primeiros balanços, de cuidar dos resultados físicos e mentais que tem em nós; das conquistas e desventuras, das dores de costas e das ressacas infalíveis, das queimaduras solares, pesem as nuvens, e preguiçar para longe o cansaço das noites longas.

Enfim saudados com a muito aguardada presença do sol, os campistas são expulsos das próprias tendas, ainda dormentes e seminus, murmurando balbucias imperceptíveis de olhos fechados enquanto buscam na relva e por debaixo das árvores alguma sombra e refresco para continuarem a dormitar. O chuveiro torna-se despertador, e a cidade berço. Queremos ir ao Xispes comer um panado maior que a nossa cabeça, ou aproveitar a feira da francesinha para enfardar no melhor prato, mas não passamos dos insufláveis e dos palhaços a fazer animais de balão que animam as ruas, e as delícias que perdemos, compensamos em cães salsicha.

No dia mais quente do fim-de-semana, muito por culpa desta aberta solar, qual folga para relaxar, fizemos pingue-pongue entre locais e espreitámos o Palco Taina ao início da tarde para um fino e para encontrar os portuenses The Sunflowers, banda de rock jingão e fresco, reverberado e pleno de uma atitude jovial e inocente, e no entanto estimulante. De toalha em cima do ombro e chinelo enfiado no dedo, seguimos para a piscina sob um calor abrasador para dar um mergulho desesperado nas águas infestadas de bóias, desta feita amarelas e não rosadas, ao som do set tremeluzente de MMMOOONNNOOO, que nada terá a ver com a banda japonesa, mas cujo noise asfixiante nos pesa nos ombros e terá gerado ondas na superfície da água. Ondas essas inexistentes na actuação de Chancha Via Circuito, argentino de muy formosa cumbia, demonstrando forte semblante sul-americano, mas muito semelhante a um lounge que nos adormece o corpo e nos deixa a boiar nas suas melodias flutuantes. Foi então que trocámos a sonolência do astro-rei e da piscina e visitámos de pés a arrastar e mais uma vez o Taina, para descobrir em concerto o jovem Éme, de quem temos ouvido bastante, mas que nasce das mesmas fontes dúbias que já nos haviam dado as Pega Monstro ou Smiley Face – a Cafetra. E a verdade é que não deslumbra nem seduz. As melodias são muito idênticas, tocadas de forma tranquila e desconcertada, numa perspectiva inocente e de bem com a vida, que nos elevam o espírito mas que ao fim ao cabo nos saem com a mesma velocidade que nos entram.

©Renato Cruz Santos

©Renato Cruz Santos

Ainda se faz dia, mas já vestimos uma camisola quando os Grumbling Fur acorrem timidamente ao Palco Milhões, para iniciar a segunda noite de concertos. A plateia está praticamente vazia – cinco ou seis gatos-pingados e um par de fotógrafos na clareira, além de uma ou duas dezenas de pessoas em redor. Desta vez têm a concorrência de um Palco Taina ainda a bombar na margem, alongando-se noite dentro com o gig de El Salvador y las Putas. Os ingleses ainda questionam, confusos, se será mesmo hora de começar. E é mesmo, pois que o fazem, destemidos, aproveitando para improvisar e experimentar e dançar por detrás das suas mesas, incluindo na mistura meio psicadélica, de tons alongados mas percussão acelerada, todos os utensílios que as mãos apanham.

Entre o jantar e a preparação de uma bebida assistimos à actuação dos chilenos The Holydrug Couple, que assim vistos ao vivo não nos parecem de facto um casal, ainda que possamos estar enganados. E somos levados de mãos em riste por uma maresia agradável de synth pop e psicadelismo inocente, melodias frescas como a brisa da noite e algo que compararíamos a uns Tame Impala em antidepressivos.

Mas aquilo por que esperávamos desde o início de todo o evento era mesmo a ascensão ao palco principal da lenda alemã do kraut e um dos avôs de muita da música que conhecemos hoje – Michael Rother. Qual Beatle, Rother dispõe de uma luz própria que a idade e a história lhe providenciaram, além da magia e visionismo que lhe reconhecemos dos membros e da criatividade. Acompanhado na bateria por Hans Lampe, também ele uma espécie de tio-avô do pioneirismo alemão e ex-membro dos La Düsseldorf nos anos setenta, e por um muito mais jovem Franz Bargmann, membro dos Camera e com quem até já partilhámos uma mesa no Xano no ano passado, aquando da sua vinda em nome próprio a Barcelos, o antigo membro dos históricos Neu! esconde-se por detrás do portátil e do tapete de pedais e deseja-nos uma noite agradável, que dedicará a Dieter Moebius, ex-companheiro nos Harmonia e que havia perecido apenas dias antes. E durante cerca de uma hora fazem levantar a relva debaixo dos nossos pés, através de uma energia orgânica expansiva assente em melodias praticamente mecânicas, altamente ruidosas e perdidas num buraco negro digital de loops e synths minimais, crescendos, alegres, abertos e sorridentes. Há tanto a acontecer por dentro de cada nota, precisa no posicionamento geral da pauta e na forma como joga com as restantes; não há um elemento a mais nem um elemento a menos, é tudo tão perfeito e sensivelmente lógico, maravilha técnica que não deixamos de dançar e exultar pela noite dentro.

©Zita Moura

©Zita Moura

Ainda com os ouvidos a ressoar e os pés a levitar dois dedos acima do terreno, julgamos ter sido afectados pelo espectáculo quando nos encontramos em Peaking Lights e ascende pelo estrelado dos céus um conjunto de luzes brilhantes. A ser raptados por ovnis ou atacados por uma legião de pirilampos gigantes, que seja então agora, porque antes ter-nos-íamos batido para ficar em Barcelos. Mas perante a confirmação de que seriam balões lançados desde a outra margem do Cávado, pudemos relaxar e dançar leves sob a electrónica harmoniosa de Aaron Coyes, abandonado pela mulher em terras portuguesas, e infelizmente incapaz de trazer por si mesmo toda a essência e experiência sensorial pop do duo, ainda que nos tenha arrancado boas emoções.

Perante as notícias do infeliz cancelamento de Islam Chipsy, lançámo-nos de garras e dentes ao concerto de Hey Colossus, banda que salvaguardou a quantidade mínima de peso deste noite através de um stoner violento, selvagem, ressonante, assente em riffs rápidos, vocais vociferantes e muito pouco espaço para respirar. Finalmente se viram pessoas a voar às costas de outras, cabelos longos a fluir em headbangs com vontade, dedos indicadores e mindinhos esticados, porradas corporais e pó a voar, num final de noite electrizante.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.