Milhões de Festa – 3º dia (26/07/2015)

Milhões de Festa – 3º dia (26/07/2015)

©Ana Gilbert

©Ana Gilbert

O último dia do Milhões de Festa nasce pachorrento sobre o parque da cidade de Barcelos, tão encoberto de nuvens quanto a primeira manhã. Dormimos muito pouco, temos os olhos fundos e os pés esticados para fora da tenda, entrecruzados, com a brisa matinal a fazer-nos cócegas nos dedos, mas um sorriso relaxado na cara. Sob a débil luz matinal e o badalar longínquo dos sinos da igreja vamos encontrando restos de gente a pontilhar o chão e a relva, ressonando por dentro dos sacos-cama e por debaixo das mantas. Do outro lado alguém grita pela alvorada, mas nem os patos do lago lhe dão atenção.

A cidade contrasta com a dormência do campismo, com vida a despoletar por todo o lado. Já há gente de pão quente comprado ou correndo pela rua em fato de treino. Não fomos a tempo da missa de domingo, se bem que aqui todas serão a missa do galo. Sentamo-nos numa esplanada para um café e uma torrada perto de um grupo divertido de festivaleiros ainda a dar tudo desde a noite anterior, em redor de um resto infinito de garrafas de cerveja. Além da boa disposição e de uns quantos tropeções, na língua e na física, estes amigos confundem o meio-dia com as oito da manhã, e ficam fascinados com os mais pequenos e belos pormenores da vida, como a pega da pá que lhes trazem para limpar uma garrafa partida. Realmente, há por aí invenções do caraças.

A paragem obrigatória desta última tarde de gozo melómano é com certeza a piscina, ainda que apenas molhemos os pés. Ao terceiro dia temos a terceira cor predominante do palco, com as bóias a adoptarem o verde, ainda que as restantes lhe venham a fazer companhia ao longo da estadia, para uma reunião à la Benneton e poiso para toda a gente. Por agora entretemo-nos a saltar com o rock ciclista de alto andamento dos Pista, eles que provavelmente darão som a muitos dos vídeos que aqui sejam gravados, via o viciante e melódico Puxa, single maior de uma oferta entre o tropicalismo e a frescura dos calções de licra. Entre as abertas das nuvens, a vigia dos rabos que os tecidos dos reduzidos biquínis apertam, e a despedida a custo das águas frescas e das corridas de bóias feitas na piscina, somos bombardeados pelo kizomba elecrónico de Branko, o motor dos Buraka Som Sistema em projecto próprio, e pela mescla americo-asiática da dupla Chris Menist e Maft Sai, acabadinha de sair de um qualquer porto tailandês.

©Ana Gilbert

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A este ponto juntamos as mãos numa concha e tentamos guardar nelas o máximo de histórias, memórias e recordações, e as pessoas que conhecemos e as desventuras que coleccionámos, a maior parte das quais não chegará nunca a ramo editorial algum. O Milhões de Festa não é apenas a música, embora ela ocupe tanto e seja tanta e de tamanha qualidade, e que nos chegue de tantas formas e feitios. O Milhões também é feito das gentes que se aglomeram ali, pelo menos esta vez por ano, e se abraçam, das lições que retiramos do fôlego do barcelense ou do turista, dos risos que oferecemos a todos quantos estejam dispostos a aceitá-los, e de um espírito que de algum modo nos enche o coração, por mais atípica que nos pareça a atmosfera – muito possivelmente pelo amor e pela história de descontracção, crescimento e descoberta que fundaram o próprio festival, e que se parece enraizar invariavelmente pelos seus visitantes.

Pequena amostra desta união será o grupo que se junta ao início da noite à boca do Palco Milhões, membros de bandas e de webzines nacionais, para assistir de perto e a céu aberto a uma das grandes confirmações do ano, o projecto Medeiras/Lucas. À voz soalheira de Carlos Medeiros, entoando poemas tradicionais em tom solene, juntam-se a aguerrida guitarra e composição de Pedro Lucas, apoiados pela bateria, pelo baixo e pela electrónica, criando uma atmosfera sonora rica e progressiva que se interliga, audaz e entusiasta, com a narrativa. Momento bonito para o pôr-do-sol, quentinho e confortável na sua essência.

Os quatro concertos de peso que se seguiram, e que combinaram o noise explosivo e hipnótico da dupla Gum Takes Tooth, o folk psicadélico e contemplativo dos Dreamweapon, o sludge sideral de batimento cardíaco acelerado dos Bad Guys, e os gritos viscerais de Plus Ultra, sentiram-se tão rápidos quanto um remoinho que terá varrido o recinto. No alinhamento de moshpits e headbangs apenas tivemos pausas para comer um kebab e repor as energias ao receber os Paradise Bangkok Molam International, eles que encheram o palco principal de gente e de vestes tradicionais tailandesas, além de pífaros e bandolins e demais simplicidades, e no entanto apresentaram uma festa incrível, repleta de melódicas descomplicadas.

Estava para chegar, no entanto, um terramoto musical. Durante o soundcheck, umas horas antes, aconteceu-nos estar no recinto e fomos completamente apanhados de surpresa quando, de um momento para o outro as paredes começaram a vibrar, juntamente com os nossos órgãos internos. Preparámos então os tampões de ouvido e fomos instintivamente para o centro da plateia em The Bug.

©Ana Gilbert

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O produtor inglês coloca-se atrás da mesa e não se alonga em cumprimentos; cria desde logo um emaranhado soturno de dub que cresce no volume e na reverberação, e que levanta a névoa do palco, cobrindo-o totalmente. Desta saem, de um salto e de um conjunto de rimas agressivas, Flowdan e Manga, companheiros de estrada e vozes anexas ao hip-hop, que complementa simbioticamente as paredes de grime de Kevin Martin. E durante a próxima hora olhamos para nós mesmos perdidos nas mudanças de tom e de compasso, com os ombros e as pernas controlados pelos loops meditativos dos sintetizadores, e pelas explosões rítmicas de graves que fazem estremecer o chão e os cabelos. Sentimos as ondas como que perdidos nelas, onde a única orientação são as vozes e o groove com que se apresentam, e suamos neste incomum pit que é quase uma cave londrina de luzes strobe e fumo intenso, de onde saímos arrasados, mas leves, extasiados, minados.

Seguimos então, não para Famalicão, mas para o Palco Vodafone.fm, para descalçar as sapatilhas e preparar os pés para a dança, isto porque a ele acorrem os ritmos latinos, o bom humor e a voz estridente do vocalista dos Meridian Brothers. Não sabemos dançar a salsa nem o merengue, mas quem se importa, o que vale é a vontade e liberdade de o fazer; e se até a música nos soa encantadoramente desajeitada, tudo ali faz sentido, especialmente quando tocam uma versão estupidamente gratificante de Purple Haze, de que até Jimi Hendrix se riria, e a qual dançaria.

Antes ainda da última batida já entrou em campo o embaixador holandês para a música arábica em Portugal, se é que isso faz algum sentido. Falamos da metade mais entusiasta dos Cairo Liberation Front, cujo dj e segundo membro perece doente e incapaz de actuar; mas a festa continua, e substitui-o atrás da mesa de mistura o Vítor Barros, habitualmente com os Equations, que já havia actuado no dia zero com TA0. E ninguém sai defraudado com esta solução; a rave egípcia que ambos instauram impulsiona-nos pelo ar como se fizéssemos parte da revolução, mas esta sonora.

Sabemo-nos no fim deste deleite quando La Flama Blanca entra em palco, ele que já é o habitual porteiro do festival, fechando a porta atrás de si. Mestre do baile tropicante, da cumbia sensual e da jinga de cintura, incentiva o público a assaltar o palco e a juntar-se a ele na propagação da magia da música sul-americana, madrugada dentro. E sob a luz do nascer de um novo dia, este sem direito a crónica nem importância, saímos agarrados uns aos outros, apressados pelos seguranças impacientes, acenando rua acima aos festivaleiros que já seguem com a tenda às costas, com a perfeita noção de que os próximos tempos serão de inevitáveis sdds.

Designer e ilustrador a quem nunca ninguém disse que não sabe escrever. Neste momento dispõe de cerca de um metro e oitenta de altura e de uma conta bancária no negativo.