Trainwreck

Trainwreck

Descarrilada

A comediante Amy Schumer tem visto a sua popularidade a inchar nos últimos anos, qual vagina irrigada de sangue depois de ver um homem particularmente bem-apessoado. Comparação de mau gosto? Nada disso: O seu tipo particular de humor segue por estes caminhos, gráficos e com incidência na anatomia feminina.

Os seus números de stand-up caracterizam-se por três coisas: não têm medo de tratar vaginas e mamas como algo de perfeitamente normal, como se fosse tão natural como falar dos seus correspondentes masculinos; um feminismo que atravessa as fronteiras do corpo físico e vai até à percepção que o mundo tem das mulheres e a maneira com um certo machismo ainda prevalece nas sociedades ocidentais ditas iluminadas da actualidade; e uma capacidade de observação muito certeira que lhe permite também usar esse bisturi em forma de língua que se solta de cada vez que abre a boca não apenas para defender as mulheres, mas também para lhes colocar um espelho à frente para dizer o quão imperfeitas e irracionais conseguem ser mais vezes do que menos. É a combinação destes três factores que a torna popular não apenas entre um público feminino que tem ganho nos últimos anos cada vez mais vozes na comédia, mas também entre homens que lhe acham infinita piada, não só por ser engraçada como gira, e também porque parece ser o tipo de moça com quem se pode falar mal de moças e carpir as desgraças que elas causam.

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Foi este apelo que levou Hollywood a financiar-lhe um filme, Trainwreck, que não é mais do que a aplicação dos princípios e obsessões de Schumer a uma comédia de duas horas. Amy faz de Amy, mas aqui chama-se Townsend, uma jornalista numa revista de baixo nível e que leva uma vida colorida, entre liberdade sexual, o recurso a álcool e drogas e de certa forma, uma fuga à responsabilidade. O realizador é Judd Apatow e isto parece o início de muitas das suas comédias. O que surpreende em Trainwreck é que Amy é ao mesmo tempo incrivelmente detestável na maneira quase insensível e leviana com que lida com as pessoas, mas ao mesmo tempo merecedora da nossa empatia porque não é má pessoa e se sente iludida e perdida na vida. Ou seja, é uma personagem real, e por muito que alguns momentos do filme não soem a tal (Quais as probabilidades de encontrar especialistas de improvisação em todos os cantos? Quase zero!), Amy, a personagem, tem a complexidade da Amy, a pessoa real. É um exercício interessante perceber onde acaba uma e começa a outra, ou sequer se algo as separa, mas não é nada que Woody Allen não nos tenha dado, e a referência é feita através de um gag visual extremamente divertido que homenageia Manhattan. Quando Amy se apaixona por um médico desportivo, interpretado pelo divertidíssimo e finalmente em papéis centrais Bill Hader, a realidade da sua vida parece cair-lhe em cima, e é nesse momento que o filem cede a algumas convenções que já conhecemos, embora nunca perca a oportunidade de mandar uma piada com mais frisson quando se exige.

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Não se pode dizer que o filme seja bem escrito, antes bem improvisado. Claramente, há um guião, com frases e setas que ligam a cada momento, mas uma boa parte das piadas foram claramente improvisadas. Certas cenas parecem ter sido criadas para alguma esgrima humorística e se os comediantes não surpreendem, a aparição de algumas figuras ligadas ao mundo do desporto é uma revelação divertidíssima. Ver o wrestler John Cena a ver filmes independentes e dispensar comparações com Mark Wahlberg por achá-lo lingrinhas, tem piada à segunda e terceira vez que se vê; e Lebron James assume o papel de cupido mais curioso dos últimos tempos, descrevendo o amor de mil e uma formas parolas e sem nunca perder a graça. Brie Larson, como irmã de Amy, faz o papel de mulher normal e estável pela primeira vez que me lembro, e é o contraponto do descarrilamento que o título refere e enfrentado pela irmã a toda a pressa. Há partes genuinamente emocionais no filme, e um tradicional final triunfante e reconciliador com um twist que só podia sair da cabeça de Amy Schumer.

NEW YORK, NY - JULY 16:  Amy Schumer and Bill Hader are seen filming "Trainwreck" in East Village on July 16, 2014 in New York City.  (Photo by Alessio Botticelli/GC Images)

NEW YORK, NY – JULY 16: Amy Schumer and Bill Hader are seen filming “Trainwreck” in East Village on July 16, 2014 in New York City. (Photo by Alessio Botticelli/GC Images)

Trainwreck consegue ser divertido e certeiro de quando em vez, tratando até as mulheres com honestidade e uma abertura que raramente se vê no cinema, permitindo-lhes serem uma desgraça e uma confusão nos seus próprios termos e não devido a terceiros. Ocasionalmente de rebolar a rir, não tem uma estrutura sólida e certos pontos parecem ser aflorados porque têm de ser e não por qualquer orgânica da história. No entanto, o talento de Amy Schumer é visível e o filme acaba por ser um belo entretenimento, onde um sorriso passa a incredulidade no espaço de segundos que leva a Schumer elaborar uma observação de empalidecer. Para quem gosta disso, é uma fita a ver.

6,5estrelas

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.