Vodafone Paredes de Coura - 1º dia (19/08/2015)

Vodafone Paredes de Coura – 1º dia (19/08/2015)

©Hugo Lima

©Hugo Lima

Texto por João Torgal e Sèrgio Neves

O sacrifício de quase meio dia de uma dolorosa viagem de autocarro desde a capital do império é larga e imediatamente compensada pela brisa fresca que sopra entre as árvores e entre os montes à chegada de Paredes de Coura. A vila cheira a rio, a bifanas e a paz de espírito, embora à quarta-feira já saibamos das histórias e das alegrias dos dias anteriores, em que o festival por que viemos a ocupou de música, de gente e de festa. Um olhar sobre as colinas confirma aquilo que já sabíamos — o campismo está tão cheio quanto possível, e as tendas coloridas estendem-se até onde o olhar chega, inclusive pelos quintais dos vizinhos. Cenário incrível para um primeiro dia, ainda para mais uma quarta-feira.

A subida ao trono de festival por excelência, deste que foi sendo publicitado como o último reduto da música, criou expectativas imensas e francamente irrealistas nos festivaleiros deste país e dos seus vizinhos, movidos por uma curiosidade imensa e pela vontade de o experimentar. A sobrelotação é apenas uma consequência que antecipávamos e que era francamente inevitável, mas não deixa de ser incómodo em termos logísticos, e queixa recorrente de basicamente todos os que lá estiveram. É de facto incompreensível que tantos cartazes superiores ao que se reuniu este ano — ainda que não seja um cartaz fraco, como chegou a ser proclamado — não tenham chamado tanta gente; mas é assim que a publicidade funciona, e a pureza da melomania será assunto paralelo.

Da nossa parte, somos desde logo confrontados com o excesso de gente no primeiro evento de interesse do dia — e falamos obviamente do incrível set de Gin Party Soundsystem, espalhando prazeres pop e hits do eurodance pela vila e pelo corpo, e deixando-nos num completo estado de suadouro exaltado, enquanto encontramos e abraçamos as pessoas que só vemos nestas alturas, porque “Coura também é amor”. E esta mescla de realidade kitsch e de cibernética irónica deixa-nos de tal forma de coração acelerado que por pouco não nos perdemos nas horas, pelo que chegamos ofegantes ao recinto que importa, e ao Vodafone Paredes de Coura.

©Hugo Lima

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O anfiteatro natural parece igual ao que deixámos um ano antes. A relva já mal se vê entre os rabos e toalhas de gente que já a ocupa, e reparamos que faltam um par de baloiços e de bancadas no cenário, mas a música já preenche o ar. Lá ao fundo, no palco principal, já tocam os portugueses Gala Drop, apontados ao que mais cósmico possa ter a música tribal. E num jeito muito próprio, entre a electrónica e o rock, entre os costumes africanos e o olhar ambicioso da Lua, fazem passar o tempo mais depressa. SN

A eles se seguiram os Ceremony, que embora nascidos neste século, parecem saídos do lado pós-punk dos anos 80. São americanos, mas, nesse sentido, parecem saídos da cinzenta Manchester. Não terão sido particularmente entusiasmantes, não terão convencido novos fiéis, mas deram-nos o negrume que os caracteriza de forma eficiente. JT

O contraste é literalmente gritante em relação àqueles que provêm mesmo da nação de Sua Majestade, desta feita de Brighton. Os Blood Red Shoes, como tantos outros britânicos, já se habituaram a visitar o nosso país, enaltecendo-lhe o sol, a comida e os públicos imensos que, ao som da sua música energética, se contorcem e desdobram em saltos e cabeleiras esvoaçantes. O duo de rock directo e de ritmo acelerado e fácil consumo trouxe a Coura os riffs imensos dos maiores êxitos, crescendo em competência e descendo em inocência para os mais recentes singles retirados aos EPs que vão lançando. Sempre apetecíveis, pecam por pouco memoráveis. Laura-Mary Carter é mesmo uma das artistas mais bonitas e encantadoras de todo o festival, pese a fraca presença em palco, esta culminada pelo impulsivo Steve Ansell e pelos seus espasmos de corpo inteiro. SN

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Foi algures na primeira metade dos anos 90 que os Slowdive compuseram a versão de “Golden Hair”, original de Syd Barrett e tema completamente pós-rock, antes sequer de alguém se ter lembrado do rótulo, antecedendo ou nos primórdios de bandas como os Mogwai ou os Godspeed You! Black Emperor. Foi com ele, e de forma apoteótica, que os ingleses terminaram o concerto de Paredes de Coura, o que só mostra que o shoegaze é uma caracterização onde cabe muita coisa, alguma dela nos antípodas do ruído dos My Bloody Valentine. Há distorção e há introspecção em palco, mas lançam o ambientalismo de Brian Eno na entrada em palco, há harmonias vocais bem bonitas entre Neil Halstead e Rachel Goswell, guitarras sonhadoras e grandes canções. Como “Machine Gun” ou “Allison”. Se está muita gente em Coura, muitos ouviram os Slowdive pela primeira vez. E muitos perceberam que o tom dreamy de uns M83 ou a melancolia das Warpaint tiveram um ponto de partida uns bons anos antes.

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E quantos terão ouvido com a devida atenção Seeds, o último disco dos TV On The Radio? Muitos, certamente. Mas não tantos quantos os que, há 10 anos, escutaram Return to Cookie Mountain. Os TV On The Radio eram uma banda de culto e nunca chegaram às massas, mas ficamos com a sensação de que o culto se tem esfumado. Tunde Adepimpe vai espalhando alguma energia em palco, embora não de forma magnética. Vamos ouvindo a fusão particular de rock, uns pozinhos de soul ou de electrónica, a eficácia pop de “Happy Idiot”, o lado explosivo de “Wolf Like Me” ou uns falsetes aqui e acolá. Ouve-se bem, mas não entusiasmam. Como não entusiasmaram há uns anos, quando sucederam no Alive a uns incríveis Foals. E acabam a soar a uma banda simpática, eléctrica mas vagamente datada. JT

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