A Visita (The Visit)

A Visita (The Visit)

A Visita

A 9ª edição do MOTELx, festival internacional dedicado ao cinema de terror, inaugurou com a exibição de The Visit, o novo filme de M. Night Shyamalan. Uma sessão muito antecipada, completamente esgotada.

M. Night Shyamalan não tem tido uma vida fácil nos últimos anos. Desde The Lady In The Water que o realizador de The Sixth Sense, para muitos considerado uma promessa naquilo que faz, tem vindo a perder seguidores e a crítica tem arrasado os seus filmes, título após título, de forma quase automática, uma vezes justamente, outras nem tanto. Se The Happening foi um filme ambíguo em propósito e qualidade, The Last Airbender foi um desastre cinematográfico total que deu para muitos Shyamalan como morto para o cinema.

Coitado lá tentou pôr-se de pé depois de uma verdadeira “sova” com After Earth, em 2013, um filme que, aí sim automaticamente, foi arrasado, espezinhado e mesmo insultado quase unanimemente por toda a gente que o conheceu, tendo-o visto ou não. Ironia é que apesar de Jaden Smith, filho de Will Smith, ambos protagonistas naquele filme, não ser com efeito o melhor dos actores, a verdade é que After Earth tem momentos de realização verdadeiramente inspirada, um uso sábio do CGI e uma imaginação suficientemente rica para convidar quem queira colocar os preconceitos de lado a apreciar o filme. After Earth não é excelente, mas também não é o desastre ofensivo que tantos o acusaram de ser. The Visit seria então o aguardado regresso do realizador, espera-se, à boa forma e ao estilo de cinema que o lançou: o terror, o mistério e o suspense.

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Surpresa das surpresas, The Visit não é o filme de terror que todos esperávamos que fosse (é provavelmente o caso que melhor representa o facto de um trailer hoje em dia pouco ou nada ilustrar o filme respectivo). Ao invés de um misterioso filme de terror que assenta nos pilares estereotipados do género, M. Night Shyamalan surpreende-nos com uma comédia de terror muito, muito original, filmada em jeito de documentário amador pelas suas duas personagens principais, os dois jovens, um criança, outra adolescente, que vão passar uma semana a casa dos misteriosos avós que nunca conheceram. Até que durante a noite os avós começam a comportar-se de forma estranha.

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É engraçado como Shyamalan joga com os chavões dos filmes de terror, fazendo com eles uma comédia sobre o seu próprio filme, desde os sustos fáceis aos movimentos corporais bizarros que a avó faz, passando pela própria estrutura em que é apresentado: um terror filmado na primeira pessoa pelas próprias personagens do filme que nunca esteve tão na berra. Mas desengane-se quem acha que vai ver The Visit apenas para se rir. Mesmo consciente dos elementos de terror que aqui são verdadeiramente virados ao contrário, quando o propósito é assustar o espectador, o filme é eficazmente bem sucedido. A comédia torna-se ácida porque verdadeiramente nunca sabemos que tipo de comportamento podemos esperar por parte do filme.

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De louvar ainda que com toda esta originalidade o realizador foi capaz de deixar o seu cunho pessoal, nomeadamente através de planos interessantes de rara complexidade que nos colocam no papel de observador de situação e não apenas de espectador de filme. E para colmatar tudo isto é grande, enorme mesmo, o alívio sentido ao verificar que The Visit não tem uma gota de pretensiosismo. Shyamalan não está mesmo a tentar provar nada a ninguém. Ele sempre foi assim, a sua originalidade sempre foi assim. Simplesmente umas vezes resulta, outras não. Não resultou com The Happening. Resultou aqui. O filme é genuinamente divertido e inteligente o suficiente para saber brincar consigo próprio. Uma surpresa extremamente positiva este regresso de Shyamalan à realização. Uma surpresa inteligente e complexa mas que sabe o seu propósito: entreter o espectador. E nisso é extremamente eficaz. Muito bem. O MOTELx 2015 dificilmente poderia ter começado melhor.

7estrelas
Texto por David Bernardino

Amante e crítico de cinema. Actualmente escreve no blog de cinema pessoal The Fading Cam em thefadingcam.blogspot.com e, claro, no Arte-Factos.

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