Lisb-On #Jardim Sonoro (5-6/09/2015)

Lisb-On #Jardim Sonoro (5-6/09/2015)

Num certo dia, alguém lançou a seguinte ideia: e se, num festival, em vez das pessoas pagarem directamente quando pedem as bebidas ou comidas, fosse criado um sistema alternativo. Um sistema que exigisse carregar um cartão e só depois, mediante a leitura num sistema informatizado (e como falham, ainda para mais num local de massas), consumir o que se pretende. Que ideia visionária. Especialmente quando se criam menos de uma dezena de guichets para carregamento dos cartões e se junta quase todo o tipo de bebidas nas mesmas barracas, com um serviço claramente deficitário e pouco eficaz. Junte-se o acesso ao Lisb-On por um caminho estreito e sinuoso, gerador de boas filas para entrar e sair (?!), e aí está uma forma de passar um Sábado. Isto porque no Domingo foram muitos os que já não compareceram. Mesmo, acreditamos, com pulseira para os dois dias.

Pelo caminho, entre as filas, houve… música. Ainda que esta possa ser secundária para muitos, que o ser visto é importante. E, na parte musical, os Jazzanova deram, talvez, o grande concerto do fim-de-semana. Esqueçam o título nu-jazz… onde pára a electrónica? Onde pára o house? Ao vivo é uma mistura de soul, funk e jazz. Uma mistura irresistível e profundamente orgânica, numa banda rotinada e capaz de gerar as alternâncias de ritmo certas, no tempo certo. Paul Randolph é hoje a voz de apoio e, não tendo aquela alma soul/funk de um Bradley (génios há poucos), cumpre bem a função. Tanto em termos vocais, como de entertainer, pese embora algumas interacções com o público mais clichés. Os Jazzanova mandaram a electrónica às malvas num festival de electrónica. E foram reis.

Ao pé dos Jazzanova, muito do que se ouviu pode parecer música para entreter garotos imberbes. Enfim, estaremos certamente a exagerar. Até porque houve Nicolas Jaar em DJ set (ainda assim, saudades de um grande concerto em formato banda), com house, techno, disco, funk, experimentalismo minimal nas proximidades do silêncio e uma versão perturbadora de “Os Vampiros” de Zeca Afonso. Uma viagem consistente pelos vários caminhos da música de dança (e não só), com gosto para todos. E também houve Todd Terje ao vivo, com as viagens colossais de “Inspector Norse” ou de “Oh Joy”. Música nas fronteiras de grandes clássicos mais explosivos dos Chemical Brothers, com uns pozinhos de Air. Falta, talvez, a componente visual para a coisa ser ainda mais marcante. Mas o norueguês tem tempo. E fica a sugestão: um encore bonitinho e downtempo com “Johnny and Mary”, o lindíssimo tema com a voz de Bryan Ferry.

Nesta segunda edição, o festival voltou a marcar presença no Parque Eduardo VII. E, em ambos os dias, começou bem cedo, cerca das 14h. As aberturas ficaram por conta de nomes nacionais. Da trip-hop à portuguesa de Mr. Herbert Quain até ao encontro entre tradição e modernidade dos Fandango, dos veteranos Gabriel Gomes (Sétima Legião) e Luís Varatojo (A Naifa /Despe & Siga). E Fandango, no caso, representa pequenos sons de acordeão e guitarra portuguesa misturados com intensas programações electrónicas. Destaque também para um dos nomes mais fortes da electro-pop nacional da actualidade. Falamos de Mirror People, ou seja, Rui Maia (X-Wife). Aqui, em formato banda, com baixo, bateria e a voz de Maria do Rosário em temas como “I Need Your Love” e “Foolish Man”. E, assim, as coisas ganham outro corpo, outra força, outro realismo do que quando Maia surge em palco a solo.

O Lisb-On tem a particularidade de ser um festival de electrónica que não acontece madrugada dentro. Termina à meia-noite e, muitas vezes, temos a sensação que são 5 da manhã quando a noite ainda está a começar. Se isso tem piada, especialmente num país onde os hábitos nocturnos começam muitas vezes tão tarde, há momentos onde a paciência tem alguns limites. Ouvir o techno bruto de Michael Mayer às 8 da noite de um Domingo? Haja resistência. Ou para escutar o som monocórdico para pastilhados (batida forte, tira grave, mete grave… e explode) da russa Nina Kraviz, no fecho de Sábado…

Enfim, seja como for, que todos os problemas do Lisb-On tivessem estado na música. Era um festival assumidamente urbano e electrónico. Nesse campo, a missão foi francamente cumprida e houve momentos bem bons. A questão está antes na logística e antevemos que o problema das filas para o ano não vai acontecer. Se o festival estiver vazio, se forem cumpridas as promessas inflamadas de não regresso (e ouvimos tantas no local e lemos tantas no facebook), o ambiente em 2016 vai estar impecável. Mas o Lisb-On terá dificuldades em sobreviver.

João Torgal