MOTELx 2015 - dias de terror #3

MOTELx 2015 – dias de terror #3

E chega ao fim a nossa viagem pelo terror, com a crítica aos filmes que passaram nos últimos dias do MOTELx 2015. Até à 10ª edição!

The Hallow

The Hallow
A primeira longa metragem de Corin Hardy parte de um tema muito concreto – a privatização da floresta na República da Irlanda como consequência dos resgates financeiros. E do concreto passa para o surreal, condenando essa privatização com o recurso aos mitos e crenças seculares do povo irlandês – Banshees, Hallows e outros seres que, quando invadidos no seu espaço, retaliam com as suas terroríficas e impiedosas invasões. Joseph Mawle (mais conhecido pela sua participação em séries como Game of Thrones, Sense8 ou Ripper Street) é um conservacionista londrino que se muda para a República da Irlanda a fim de identificar as árvores doentes para que sejam abatidas, colocando toda a aldeia em alerta: ninguém entra na floresta, o território das criaturas Hallow, conhecidas por não tolerarem essas invasões e retaliarem com o rapto de crianças quando tal acontece. E pronto, está tudo a postos: a família com o cão leal e corajoso, a mulher protectora, o bebé indefeso e o homem céptico e transgressor. Corin Hardy, encarregue do remake de The Crow, que revelou ser o projecto de uma vida e estar quase pronto, consegue uma caracterização verdadeiramente extraordinária e um filme de tensão permanente: não há um momento em que não se espere qualquer coisa trágica, um ataque perpetrado por uma das criaturas, sem se saber bem o que vai acontecer ou como. Embora seja uma história já algumas vezes contada (o recurso ao místico e às crenças, às criaturas demoníacas), Hardy conta-a com mestria. 7/10 (LG)

A Caçada Malhadeiro

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O trabalho que a Cinemateca Portuguesa tem feito no descobrimento e restauro de filmes portugueses há muitos anos esquecidos, dando a possibilidade a novos espectadores de os verem e apreciarem, é de facto notável. O MOTELx, numa sempre enriquecedora parceria com a Cinemateca, proporcionu a primeira exibição pública, 50 anos depois, de A Caçada do Malhadeiro, um rape and revenge português dos anos 60, antes sequer dos filmes serem rotulados dessa forma. A Caçada do Malhadeiro é um filme simples e minimalista, que revolve acerca de 5 soldados napoleónicos, no período das invasões francesas, que roubam uma família e violam a filha mais nova apenas para se verem perseguidos pelas vítimas à procura de vingança. Filmado na Serra do Buçaco, A Caçada do Malhadeiro é um filme directo em termos de narrativa mas lento em acontecimentos. É certo que não é um grande filme, mas é uma pérola que foi uma honra de conhecer e visitar. Quantos filmes portugueses com este nível de interesse estarão esquecidos? 6/10 (DB)

Shrew’s Nest

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Foi um dos pontos mais altos deste MOTELx. Shrew’s Nest, filme espanhol que decorre durante a ditadura franquista, fala de duas irmãs que vivem sozinhas num apartamento, sendo a mais velha agorafóbica e assombrada pelo fantasma do desaparecido pai. Certo dia, o vizinho de cima cai pela escada e é recolhido por esta mulher para o interior da casa para ser cuidado em segredo. Shrew’s Nest é um filme claustrofóbico, toda a acção decorre no apartamento, com uma caracterização singular e misteriosa que evolui para um estrondoso acto final. É um filme que assombra e se desenvolve a um ritmo adequadamente lento deixando o espectador no escuro quanto àquilo que realmente se está a passar. Mas mais que o thriller de horror, Shrew’s Nest é um aprofundamento de traumas passados, de pecados escondidos, numa gigante metáfora sobre essa ditadura espanhola. A actriz principal Macarena Gomez é brilhante no papel desta mulher singular, cheia de trejeitos, fundamentalismos e medos. Foi um dos melhores filmes que passou nesta edição do MOTELx, senão o melhor. 7/10 (DB)

I am here

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Este filme marca o regresso de Kim Basinger ao cinema. Não é um filme de terror, mas antes um drama/thriller biológico, intenso e perturbador, que conta a história de Marie, que vai até onde for preciso para concretizar o desejo da maternidade. Anders Morgenthaler mergulha no negro e tenso mundo do tráfico de crianças, explorando a mente retorcida de alguém que faz o que for preciso. Com o horror e a tristeza como premissas, o filme é visceral e um drama psicológico intenso, que mexe com as questões mais íntimas e pessoais da vida do ser humano. 5/10 (LG)

We Are Still Here

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Havia alguma expectativa para We Are Still Here, que se dizia respeitar a linguagem dos filmes de terror clássicos. Isso é com certeza verdade, mas não é por isso que consegue ser um filme que se distinga do meio de tantos outros com base na premissa da casa assombrada com uma história negra e que é habitada por uma nova família, aqui um casal nos seus 50 anos que perdeu o seu filho, um universitário, num acidente de automóvel. We Are Still Here é assustador, um dos mais assustadores nesta edição do MOTELx, sólido e eficaz. Joga com as sombras, com o suspense e o mistério do que estará afinal a habitar aquela casa. Infelizmente não consegue respirar e tomar o tempo necessário para deixar o espectador interiorizar esse mistério. Tudo acontece demasiado rápido, e no fim, quando já não existe mistério, o filme perde quase toda a sua credibilidade, ainda que apresente um desenlace que cumpre o desejado e impressione quanto baste. We Are Still Here tem toda a lição bem estudada, mas a sua execução tinha que ser mais cuidada, mais pausada e melhor interiorizada pelo espectador que apenas vê um rápido desenrolar de cenas. 5/10

Textos de Lúcia Gomes (LG) e David Bernardino (DB)

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