Festival Para Gente Sentada - 1º dia (18/09/2015)

Festival Para Gente Sentada – 1º dia (18/09/2015)

#43 Giant Sand

Texto por Alexandre Pinto e Isabel Leirós
Fotos por Elisabete Magalhães

A mudança de cidade do Festival Para Gente Sentada, de Santa Maria da Feira para Braga, causou muita agitação (especialmente nas redes sociais). Ao fim do primeiro dia de festival, podemos afirmar que já é uma aposta ganha, particularmente para a cidade de Braga que reforça, neste acolhimento, a sua estratégia de diversificação da oferta cultural. A exemplo, num evento paralelo ao Festival e organizado pelo Girls Lean In, a Vera Marmelo passou pelo GNRation, partilhando muitas das suas memórias, com grande carinho pela fotografia e pela capacidade que esta tem de despertar emoções bonitas. A música, os concertos, os festivais, fazem-se de muito trabalho e empenho. E foi com esta experiência de vida que partimos para dar início ao nosso Festival Para Gente Sentada.

Com um cartaz bem programado para as salas que acolhem o festival – o Theatro Circo e o inovador GNRation -, foi nas ruas que a festa começou. Eram 16h e a cidade recebia o primeiro concerto, Serushio em plena Rua do Castelo. Seguiu-se Benjamim e a apresentação do seu primeiro lançamento com este nome de palco, Auto-Estrada, e Box 2 Box a fechar a tarde. Apesar do dia de Verão que nos surpreendeu a todos, foi com muita pena que não assistimos a estes concertos. Valeu a transmissão da rádio local, RUM – Rádio Universitária do Minho, que acompanhou a tarde de música e nos deu muita vontade de lá estar a viver tudo!

#9 Bruno Pernadas

Já no Theatro Circo, as honras de abrir o palco principal couberam a Bruno Pernadas e o seu ensemble – nove músicos, no total – divididos entre percussão, sopros, guitarras, e teclados, naquele que foi o concerto de apresentação do primeiro álbum How Can We Be Joyful In a World Full of Knowledge em território bracarense. No registo de estúdio, a música é detalhada e melódica, densa mas simultaneamente espaçosa, sem nunca se tornar hermética por influência da formação de Pernadas no jazz formal; e ao vivo, transpõe as composições e expande-as em duração, pela repetição e adição/subtracção de elementos, e o norte nunca se perde nem se torna maçador. Parafraseando o título do álbum, podemos comparar o ‘knowledge’ às formalidades, estruturas e cânones musicais que Pernadas estudou e apreendeu, e ‘joyful’ como o destino desse conhecimento, quando se juntam as várias influências (desde o hip-hop ao rock espacial) à sua aprimorada sensibilidade de canção. O resultado está à vista: musica maleável e que encantou a sala principal do Theatro Circo, uma festa que reclamou um impossível encore por motivos de horário. Foi pena – porque todos o queriam, banda incluída – mas fica para uma próxima. E, diz o Bruno, que será já no próximo ano.

#18 Yasmine Hamdan

O concerto seguinte, após uma breve pausa, trouxe-nos Yasmine Hamdan, munida de dois distintos microfones com diferentes configurações, e que se apresentou com um guitarrista – preponderante na sua música -, um baterista e um outro teclista que tratava também da electrónica. A libanesa já havia tocado em Portugal, e há poucos meses, no NOS Primavera, onde parece ter surpreendido. Mas em Braga, e num ambiente completamente diferente, propôs-se a uma abordagem mais intimista. Ora, a música maioritariamente recuperada do álbum de 2013, ‘Ya Nass’, contrasta a herança árabe do seu canto, na língua nativa, com a instrumentação que foge a essa era; o resultado é bom, mas perde alguma força em concerto. No entanto, Yasmine estava ciente dessa fragilidade e preparou-se: muito delicada na maneira como falou ao público (e podia ensinar algum português a Lykke Li!), contextualizou algumas canções com a subjacente história ou inspiração, numa tentativa de quebrar a enorme distância linguística. Conquistou-nos a atenção e o coração, e o concerto teve alguns óptimos momentos. Quando não acontecia, era pompa para pouca circunstância, como se o palco estivesse mais longe do que aparentava. Mas gostámos na mesma. E a noite continuou.

Passa pouco tempo depois da hora marcada e os Giant Sand subiram à sala principal do Theatro Circo. A faceta mais country e harmoniosa da banda, que este ano celebra o trigésimo aniversário com o disco “Heartbreak Pass”, pareceu ter ficado à porta – talvez pelo formato de apenas quatro elementos – e um boné com a inscrição «good luck suckers» quase parecia um aviso, em retrospectiva. Temas iniciais a saírem um pouco menos coesos, com o próprio Howe Gelb a referir que, nisto dos concertos, é como a previsão do tempo: «cloudy today, sunny tomorrow». O que se seguiu foi uma tempestade criativa, com os altos e baixos da turbulência rock’n’roll musculado e as canções mais intimistas, quando Gelb troca a guitarra pelas teclas.

#36 Giant Sand

A certa altura há um momento de festival dentro do festival, com Howe Gelb a transformar-se em mestre de cerimónias e a decidir espontaneamente dar o lugar ao guitarrista Brian Lopez para cantar um dos seus próprios temas, depois de o elogiar como instrumentista, escritor de canções e produtor. Lopez interpretou uma canção que parece sair dos clássicos mexicanos e depois é a vez também do baterista Gabriel Sullivan pegar guitarra e dar voz a um tema já mais próximo do universo árido dos Giant Sand.

Entre introduções lacónicas e latas de Super Bock – «did you get your bock back?» – a banda pareceu estar em casa e não deixou de admirar a beleza da sala bracarense, pedindo até que se acendessem as luzes para uma rápida foto.

Depois do último concerto no Theatro Circo, o restante público transladou-se para as instalações do GNRation, cuja programação tem contribuído sobremaneira para o ecletismo cultural da cidade. Aqui, ouviríamos Mdou Moctar, o guitarrista tuaregue, e os Dj sets finais.

A primeira impressão deixada pelo seu primeiro álbum (chama-se Anar) não foi animadora, porque Mdou cantava com um excessivo e enfadonho auto-tune, que retirava protagonismo ao resto da música. Felizmente, foi uma preocupação infundada, porque ao vivo é um outro espectáculo: na companhia de mais dois músicos, um guitarrista e um baterista, que tecem a teia musical que serve de base à guitarra endiabrada de Mdou, a sua música revela-se exótica, suculenta e bem dançável. Foi um óptimo concerto, e que acabou com um encore arrancado a ferros; não havia mais tempo para Mdou e amigos, que tinham que conduzir seis horas até à cidade de Barcelona para o concerto seguinte. E, quem sabe, até seja possível dar uma segunda hipótese ao auto-tune.

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