Patti Smith no Coliseu dos Recreios (21/09/2015)

Patti Smith no Coliseu dos Recreios (21/09/2015)

Foto cedida pela Everything Is New

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Depois de uma passagem em dose dupla pelo NOS Primavera Sound este ano, a lenda do rock ‘n roll e do punk regressou ao nosso país, desta feita a Lisboa, para interpretar o álbum que afirmou a sua carreira, à semelhança do que fez no festival nortenho. Horses, disco que marcou a história foi editado em 1976 e é simultaneamente o seu registo de estreia, sendo que desde então o nome Patti Smith estaria para sempre ligado às grandes lendas do rock.

Pelas 21h30, ainda não havia sinal de Patti Smith, perante uma casa praticamente lotada de um público impaciente que chamava pela artista entretido por sons da velha guarda, como “Teenage Kicks” dos The Undertones ou “Raw Power” dos Stooges.

Assim que as luzes se apagaram, um Coliseu repleto de vozes exalta-se, enquanto surgem no palco Patti e a sua banda. E apenas com um sorriso como apresentação arrancam a toda a força com “Gloria”, o primeiro tema do álbum que se celebra esta noite. Segue-se “Redondo Beach” e “Birdland” num alinhamento que respeita minuciosamente o álbum. A euforia, essa, continua vigente em toda a sala, numa noite em que gerações se unem para exaltar de igual medida canções icónicas de há 40 anos.

Foto cedida pela Everything Is New

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Após “Free Money” e até agora subjugados por toda a presença que esta cantora de 68 anos consegue ainda exalar, somos interpelados também por explicações sobre o teor da sua música, num monólogo que nos fez amar ainda mais a genuinidade desta poetisa do rock e do mundo.

“Agora, temos que pegar no disco, virá-lo, e pôr o lado B a tocar!”, diz, graciosamente. Depois de “Kimberly”, começa por introduzir “Break It Up” – continuamos a seguir o disco religiosamente – faixa que surgiu após um sonho que teve com uma estátua de mármore de um anjo. Anjo esse que estava acorrentado. O anjo era Jim Morrison, e Patti dizia, “You have to break it up, Jim! Break it up!”. Nós também dissemos a plenos pulmões e de coração cheio um “Break it up!” sentido quando ela nos pediu para entoarmos o refrão. Milhares de vozes juntas é um momento difícil de esquecer.

Em “Land” a sintonia é de tal maneira avassaladora que Patti refere isso mesmo. O lado B chega ao fim com “Elegie”, faixa que segundo ela foi escrita em homenagem a Jimi Hendrix mas que celebra todos os entes queridos, desde humanos até animais que partiram. Todos continuam vivos na nossa memória. Perto do fim da canção, vai recitando uma lista de nomes, todos eles aplaudidos, desde Janis Joplin até Amy Winehouse, passando por Joe Strummer.

Findado o álbum em questão, Patti abandona por momentos o palco, enquanto o guitarrista Lenny Kayer e restante banda embarcam numa homenagem a Velvet Underground, com três faixas sem paragens: “Rock ‘n Roll”, “I’m Waiting For The Man” e “White Light, White Heat” bastante aplaudidas e cantadas. Enquanto isso, Patti Smith decide cumprimentar as pessoas da primeira fila, para gáudio de muitos e aproveita para dançar em frente ao palco.

“Beneath the Southern Cross” é uma faixa que tem Patti com comando da guitarra, faixa que dedica à Vida depois de se ter sentido exacerbadamente inspirada numa visita à Casa Fernando Pessoa, autor que ela admira.

Foto cedida pela Everything Is New

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A história de “Because the Night”, talvez a canção mais reconhecida da cantora, podia ser a nossa. Em 1976 conheceu alguém, que se tornou namorado, depois marido, depois o pai dos seus dois filhos. E mesmo tendo falecido, quando ela canta este tema, ele continua a ser o namorado dela ainda. Não será de surpreender que esta canção era a mais sabida de cor e que deixou um bonito retrato de sintonia para a posterioridade.

“People Have the Power” põe novamente todos a saltar, a cantar, a libertar toda a negatividade. Patti diz-nos que somos o futuro, que não devemos deixar que nos tirem a energia que somos. Diz-nos “I am you”. Nós sentimos.

E para finalizar, a versão de “My Generation” que faz parte também de Horses. Patti usurpa a guitarra e ensina-nos o que é dar um concerto de rock. Não é preciso ter ecrãs com imagens, ter confetis, ter artimanhas. No final arranca com toda a fúria do rock original as cordas da guitarra e diz que somos fantásticos. Genuinamente. Nota-se que não é a típica frase cliché de todas as bandas que por cá passam. Ela sente o que está a dizer e nós também. Uma noite em que fomos transportados para uma era diferente, que muitos de nós não viveram, pela mão de uma artista, de uma pensadora e de uma revolucionária.

Faço uns rabiscos aos quais gosto de chamar ilustrações. Escrevo e tiro umas fotografias. Modelo ocasional. Designer.

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