Queer Lisboa - 19ª Edição (No Place For Fools e A Escondidas)

Queer Lisboa – 19ª Edição (No Place For Fools e A Escondidas)

Uma das características mais evidentes nas obras seleccionadas pelo Queer Lisboa é a multiplicidade de temas abordados onde a sexualidade não é um caso isolado (pelo contrário), nomeadamente no campo político-social. No place for Fools e A Escondidas, são dois pequenos exemplos desta heterogeneidade temática, reveladora de uma  emergência em revelar,  testemunhar, desmistificar flagelos sociais e até culturais.

No Place for fools

Queer F1

Esta colectânea de vídeos retirados do próprio canal do You Tube do protagonista (Sergev Astahov) e editada por Oleg Mavromatti é um interessante reflexo  da sociedade russa e um alerta à consciência da repressão instaurada não somente pela intolerância/tortura face à comunidade gay, como a outros níveis. E Serveg Astahov é a personificação quase perfeita desta realidade – gay, um ferveroso cristão ortodoxo anti-gay  e activista pró-Putin, uma amálgama de contradições no mínimo absurdas, mas que sintetizam a actual sociedade russa.

Inicialmente, Sergej Astahov, através dos seus vídeos deliciosamente amadores e com contornos trash dá -se a conhecer ao mundo falando um pouco de tudo, principalmente de comida e da sua própria sexualidade. Uma criança inocente e desengonçada em ponto grande, que às vezes se torna grotesca, mas que simultaneamente consegue ser quase encantadora. É claramente percptível que se trata de um caso complexo  e Mavromatti, vai revelando aos poucos o por detrás desta personagem, no mínimo exuberante, simpática e extremamente vulnerável perante os outros = sociedade.

No entanto, a via utilizada pelo realizador para denunciar a condição de  Sergej Astahov  como vítima  e simultaneamente  torná-lo numa metáfora crítica de uma sociedade,  torna-se nos  seus últimos quarenta minutos  demasiado óbvia / laxista e o carisma  inicial do protagonista extingue-se por completo, dando lugar ao papel de mártir ( um papel nada glorioso para um ser humano, apesar das conjunturas politicas e sociais de um país).

4,5estrelas

A Escondidas

Queer F3

Esta história sobre o despertar da sexualidade aliada à problemática da xenofobia, pode ser considerada um legado educacional para todas as idades (sem ser exageradamente didáctico, pelo contrário). Mikel Rueda executa uma trama simples, sem inspirações artísticas grandiosas, mas “bonita” em todos os sentidos e acutilante na sua mensagem sobre o amor e inclusão social. Rafa, um jovem espanhol de 14 anos, supostamente heterosexual e obrigado a agir de acordo com o que a sociedade lhe exige, conhece um jovem da mesma idade de origem marroquina (Abrahim). O que se inicia como uma história de amizade, torna-se algo mais profundo. No entanto, Rueda é inteligente ao não filmar qualquer sequência sexual. Pelo contrário, brinca com o público numa espécie de jogo do gato e do rato, entre a tensão sexual e o drama dos dois adolescentes, sem esquecer a intricada acção narrativa, que apesar de não ser de todo original ou fresca, é bem desenvolvida e eficaz como um produto de “entretenimento” de qualidade.

Menos interessante e denso, conceptualmente falando, do que Praia do Futuro,  de Karim Aïnouz (obra que inaugurou o festival), A Escondidas consegue ser mais acessível e atractivo ao público e, consequentemente, superior na construção de uma história coesa do inicio até ao fim. No mesmo patamar  de um dos filmes mais mediáticos da edição passada do festival, Hoje eu quero voltar sozinho, de Daniel Ribeiro, sobre um jovem gay e deficiente visual, A Escondidas, além de ser um filme “fofinho” com  um interessante conteúdo lúdico  (no bom sentido), consegue  ser mais do que isso – uma incursão aos sentidos mais puros e simultaneamente um despertar da consciência social.

6,5estrelas

Paulo Lopes

Mentor do projecto de escrita criativa para crianças e jovens “Escrevinhar”, autor do conto “Desdémona” e de alguns devaneios poéticos… e cinéfilo assumido.