Amplifest – 1º dia (19/09/2015)

Amplifest – 1º dia (19/09/2015)

Converge

Texto por Carlos Vieira Pinto e Cláudia Filipe
Fotos por Ricardo Almeida

A quinta edição do Amplifest trouxe uma das bandas mais pedidas pelo público do festival: Converge a cabeça de cartaz, depois de muitos anos de ausência de palcos nacionais.

Enquanto pelos corredores se multiplicavam a quantidade de idiomas que íamos ouvindo (o público internacional cresce a olhos vistos), o festival arrancava com Rungs in a Ladder, um documentário sobre o carismático Jacob Bannon, figura central da já referida banda.

O primeiro concerto da experiência Amplifest deste ano foi um momento especial: em palco juntaram-se os Juseph e os Memoirs of a Secret Empire. Talento nacional aos molhos em cima de palco a mostrar que não precisamos de ir muito longe para ouvir boa música e que, quando bem conjugado, 1+1 é igual 1. As bandas estiveram em sintonia perfeita, como se tocarem juntas fosse o mais natural.

E porque o Amplifest não é só feito de concertos e porque os debates já se tornaram ponto de paragem obrigatório no corredor, encontrámos um painel de luxo a trocar ideias sobre o mundo da imprensa hoje em dia e para onde caminha, frisando pontos chave tais como o tabú de escrever uma review negativa, seja a um concerto seja a um álbum. Ao mesmo tempo que decorria a primeira Amplitalk, na sala 2 passava o segundo filme da tarde, Here is a Gift For You, o documentário dos Old Man Gloom, o supergrupo com membros de Converge, Isis, Cave In ou Zozobra. Nota-se que, de ano para ano, os filmes integrados no festival têm vindo a acolher mais público, que desta vez compôs bem o espaço.

#3 Filho da Mãe

Espaço esse que viria a encher para o concerto de Filho da Mãe. É conhecida há muito tempo a admiração que os membros da Amplificasom nutrem por este bastardo das seis cordas, pelo que uma presença do músico português no festival seria sempre apenas uma questão de tempo. As únicas palavras que disse foram “Eu sou o Filho da Mãe e tenho a certeza que nunca mais volto cá”, mas ao lermos a reação do público a cada música temos a certeza que este rebento teria lugar cativo neste palco. A culpa é da performance desta cria sem pai, uma das mais violentas do festival, e da força dos temas de Palácio e Cabeça, como Helena Aquática, Cerca de Abelhas ou Não Te Mexas.

Atravessamos o Hard Club até à sala 1 e vivemos outro tipo de violência. A violência dos Full Of Hell e as suas descargas grind deixaram os mais desprevenidos completamente siderados com os blastbeats supersónicos do grupo norte-americano. Debaixo do braço trouxeram o seu disco a meias com o nome maior do noise, o japonês Merzbow, que os catapultou para a primeira linha do grind, powerviolence e outros universos paralelos. Supersónico foi também o concerto, que ganhou imenso com os espaços para respirar (ainda que sufocantes) das injeções noise.

#8 Noveller

Noveller é o projecto a solo da cineasta e guitarrista Sarah Lipstate, e um dos últimos projectos a ser adicionado ao cartaz por via da desistência de Emma Ruth Rundle. Lipstate encheu a sala com as paisagens sonoras de Fantastic Planet, álbum lançado este ano, mas que não foram suficientes para prender uma boa parte de público, que terá aproveitado este momento para jantar. Apesar do trabalho interessante que tem vindo a desenvolver, falhou em reproduzi-lo com a mesma veemência dos discos.

À mesma hora, o átrio do Hard Club voltou a ser espaço de uma excelente conversa, desta vez para debater a experimentação e os limites (se é que existem) na criação musical. Moderada pelo já histórico jornalista José Carlos Santos e composta por Stephen O’Malley, Mories e Kurt Balou, a conversa foi um dos momentos mais interessantes de todo o festival. Falou-se de colaborações, discos, métodos de gravação e influências, com os três músicos, especialmente Ballou, a mostrarem um interesse genuíno em descobrir os seus pares.

Talvez tenha sido o primeiro grande concerto do festival, daqueles que vamos relembrar quando, no próximo ano, voltarmos a cruzar as portas do Hard Club: os Altar of Plagues destruíram a sala 1. Mills e God Alone deram início a uma intensa lição de música extrema, onde o black metal pouco convencional dos irlandeses voltou a ser amplamente elogiado. All Life Converges to Some Centre encerrou violentamente um concerto que compriu a promessa: foi tudo aquilo que esperávamos que pudesse ter sido.

#20 Altar of Plagues

Para um público festivaleiro, o nome William Basinski poderia dizer pouco, mas para o público do Amplifest, geralmente mais atento à música que vai tentando puxar os limites, este era um dos pontos mais altos desta quinta edição. O espetáculo, com visuais hipnotizantes, alicerçado no mais recente The Deluge, foi um dos momentos mais bonitos do festival, levando a que a sala dois se esgotasse com pessoas sentadas no mais profundo silêncio, muitos de olhos fechados, a contemplar o som frágil que saía das manipulações do criador do colossal The Disintegration Loops.

Depois deste momento bonito chegou o ponto por que todos esperavam, o concerto dos Converge. Não era a primeira passagem do grupo por Portugal, mas era a primeira vez no norte, sedento pela actuação de um dos coletivos mais importantes, consistentes e relevantes dos últimos 15 anos. Apesar de serem o maior nome no seu espectro, de estarem intimamente ligados à Deathwish ou aos Godcity Studios, os Converge continuam a fazer o seu soundcheck antes de entrarem em palco, à frente de todos, como se ainda tivessem 16 anos e fossem uma banda de liceu. E no fundo são. A entrega a cada música tocada em palco, a paixão em cada disco criado são dignas de um adolescente que quer tocar o mundo quando toca a sua música. O concerto foi imaculado, visceral, emocional, intenso e uma descarga de energia por parte de todos nós, apaixonados pela banda de Jane Doe há muitos muitos anos. E mesmo que esses muitos anos tenham passado e a idade já pese é-nos impossível resistir ao turbilhão de emoções que a música de Converge provoca e é-nos impossível não entrarmos no furacão que se forma na frente do palco. No final, Jacob Bannon ainda fica connosco, em comunhão, a agradecer a cada um de nós, como se não fossemos nós quem tem de agradecer aos Converge por nos acompanharem ao longo de tanto tempo e de tantos momentos que seriam muito mais difíceis sem Jane Doe, You Fail Me, No Heroes ou Axe To Fall.

E depois de termos visto James Kelly deixar tudo em palco com Altar of Plagues, voltamos a encontrá-lo numa faceta completamente diferente na sala 2, onde assume o heterónimo Wife. Neste seu projecto de música electrónica, onde ritmos quase lascivos se fundem com o pop e o R&B, Kelly foi o mais que perfeito limpa-palato, como ouvimos dizer. Depois de Converge, soube bem acalmar o corpo e descer novamente à terra para saborear devagar ritmos envolventes e cativantes. Uma excelente surpresa.

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